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quinta-feira, 29 de maio de 2008

A paz vai invadir o meu coração


Onde há mais de uma pessoa, certamente haverá conflito. Essa máxima pode ser observada nos mais diferentes contextos: trabalho, família, escola. Impossível evitar, embora possa-se tentar diminuir a incidência de confrontos. Às vezes dá pra se concertar os estragos, colando caquinhos e pisando em ovos. Às vezes não. Mas há um tipo de conflito que tem que ser completamente resolvido: o conflito consigo mesmo. Sabe quando o diabinho e o anjinho ficam sussurrando cada um em um ouvido? Pois é. Quando a cabeça parece ir a toda hora em uma direção diferente temos que agir. Não dá pra varrer o lixo pra baixo do tapete e lamentar o mal- entendido, como fazemos às vezes nos conflitos com outras pessoas. Quando nosso anjinho discute com o diabinho, temos que levantar a bandeira branca de algum jeito, sob o risco de perdermos nossos valores, nossa ética, nosso chão. Pode parecer mais fácil simplesmente ouvir o lado que fala mais alto, que promete selar a paz com mais facilidade. Mas se esse não for o lado pra onde apontam seus valores, de nada vai adiantar o armistício porque uma paz forjada só traz mais guerra. E o pior: a guerra fria - aquela que vai minando suas forças no dia-a-dia, com pequenas sanções e grandes estragos na sua auto-estima.

E eu? Eu quero mais é paz! Porque eu mereço.

terça-feira, 20 de maio de 2008

A técnica do orgulho materno

Esses dias Antonio começou a usar o troninho. Demorou menos do que a gente pensava pra que ele se convencesse de que sentar no penico naquela hora era mais legal que fazer o serviço na fralda. Na verdade não sei se aprendemos isso com a prática (afinal ele já é o terceiro) ou se essa habilidade já vem no modo default de pais, mas foi fácil persuadi-lo usando a velha técnica do orgulho materno. Explico: pra conseguir qualquer coisa de uma criança, basta que a mãe se mostre feliz e orgulhosa dele. “Senta no troninho, filho. Mamãe vai achar lindo!” Pronto! Pra fazer a mãe feliz ele senta até em brasa quente. Depois de terminado o serviço, Antonio ainda fez questão de exibir sua obra. Pra completar o truque mamãe-orgulhosa ainda guardei o fruto de seu esforço, dentro do penico, pra mostrar ao pai quando chegasse. Realização total: os planetas-pais que giram em sua órbita felizes e orgulhosos do pequeno astro-rei!
Essa técnica pode ser aplicada ao longo da vida inteira do seu filho, com exceção, talvez, daquela época chata de rebeldia chamada adolescência. Na verdade, até hoje, adulta, acho que ainda tomo muitas atitudes só pra agradar meus pais e vê-los falar ou olhar pra mim com orgulho. Certamente nenhum outro combustível é mais potente para me impulsionar na direção das coisas que o olhar aprovador vindo daqueles que me criaram. E às vezes me pego tomando decisões que penso serem minhas, mas que acabo descobrindo que trazem como pano de fundo o desejo de satisfazê-los.
Afinal, não sou tão diferente do Antonio em sua adaptação ao peniquinho.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Viagem pelo incrível universo da minha nostalgia

Hoje, depois de um dia de trabalho pesaaaaaado, cheguei em casa para uma entrevista para a TV Antares. Não, não sou celebridade. Mas concordei em falar sobre meu hábito de escrever cartas nessa época em que o MSN e o e-mail parecem dar conta de nossas necessidades de comunicação. Mas nada disso importa aqui. O que importa é que remexi em várias cartas que estavam guardadas no fundo do armário. E remexi em tantas outras gavetas da minha alma. Nossa, que saudade daquelas cartas, daquelas pessoas, daquele tempo, de mim... Encontrei passagens cheias de carinho, humor, saudade, e esperança. Sim, as cartas vinham sempre cheias de certeza de que o mundo era bom e de que o futuro podia ser escrito, assim como as novidades mais triviais. Cartas de pessoas que estavam longe: Zélder (que coincidentemente está fazendo aniversário hoje), Godoy, Mayra, Fábia, Tiago, Iana. Cartas de pessoas que viviam pertinho, mas optavam por escrever: Ira, Daisinha, Aldira. Li algumas delas. Ri, chorei, fiquei em dúvida em relação a algumas frases - "a quem mesmo ela está se referindo?" E eu, que tanto tento me manter inteira, encontrei pedaços de mim espalhados em envelopes vindos de todas as partes do mundo. Caquinhos de mim, vistos pela ótica de pessoas queridas. Não me sinto infeliz agora, apenas nostálgica. E amada. E certa de que venho construindo uma história bonita no mundo.

domingo, 11 de maio de 2008


O bebê da foto sou eu com alguns meses de vida. A mulher é minha mãe, com a idade que tenho hoje, 30 anos. Bem poderia ser eu, com um dos meus filhos no braço. Há quem me ache parecida com meu pai, mas as estatísticas mais confiáveis apontam mesmo para um semelhança esmagadora com dona Conceição, fruto do gene Mesquita, forte como o temperamento das mulheres da família.

Sou a terceira de quatro filhos, mas a primeira e tão esperada mulher, o que sempre me conferiu um certo status de nobreza na hierarquia familiar. Não que eu tenha sido planejada: na verdade, eu não poderia ter nascido em hora pior! Meus pais estavam de mudança para Porto Alegre, pra encarar mestrado, com dois filhos de 2 e 4 anos, nunca época em que não havia as promoções da TAM ou da Gol e o Rio Grande do Sul era praticamente outro país: não havia caos aéreo, mas praticamente não havia vôos para essas bandas, e os que havia eram cheios de escalas e conexões, além de caríssimos.

Pois bem. Reza a lenda que minha mãe teve um crise de choro quando soube que estava grávida de mim. Com sua tendência a transformar formigas em dragões, disse que não ia mais ao mestrado e pronto! Puro misencene. Com os providenciais conselhos do Dr. Olavo, obstetra e tio do papai, acabaram embarcando para a aventura nos Pampas Gaúchos, comigo na primeira classe - seu útero.

Em julho, bem no meio do inverno gaúcho, eu resolvi nascer, numa tarde fria de domingo. Muito do que sei desse dia me foi contado pela tia Helena, irmã da mamãe que se despencou do Rio de Janeiro para ajudá-la na "boa hora". Mamãe teve partos normais, rápidos e praticamente indolores. "É melhor que tratamento de canal", diz ela, se referindo às quatro vezes em que pariu, denunciando suas origens indígenas. Mas a médica de Porto Alegre não sabia dessa caracterísitca peculiar da parturiente que praticamente cuspia as crianças pra fora do corpo na hora certa. Já na sala de pré-parto, minha mãe avisava ao médico residente que seus partos eram muito rápidos e que ela estava sentindo que eu já ia nascer. Ele não dava ouvidos. Ela repetia que estava chegando a hora. Ele repetia que ela se aclamasse. Uma outra mulher em trabalho de parto gritava ao lado dela. Minha mãe pedia que ELA se acalmasse e poupasse suas forças para a hora em que fosse precisar delas. Certa hora, minha mãe chamou a tia Helena e avisou que eu estava nascendo mesmo. Minha tia viu minha cabeça cabeluda e não sabia se me aparava ou se chamava o médico. Optou pela segunda alternativa, e teve que arrancar o jornal da cara dele pra que ele entendesse a urgência da situação. O fato é que nasci no colchão macio da cama do pré-parto e praticamente sem ajuda: quando os médicos chegaram só tiveram que cortar o cordão e me limpar.

Diferente de minha mãe, nunca tive partos normais e acredito que nem toda a terapia do mundo vai me aliviar essa frustração. O Pedro, meu filho mais velho, enrolou o cordão em volta do pescoço e teve que ser tirado às pressas, pois a gravidez já estava passando do tempo e eu estava em trabalho de parto avançado. A médica sentenciou que teria que usar o fórceps se eu recusasse a cesariana. Passaram a faca.

Quase sete anos depois, grávida do Zé Luiz, a médica me convence que não vale a pena insistir em parto normal porque eu poderia ter uma ruptura de útero, já que havia feito uma cesárea. Ouvi uma segunda opinião, e acabei aceitando a cesárea. No terceiro filho, Antonio, não havia mais nada a discutir: era cortar e pronto!

Mas se tem uma coisa que invejo na minha mãe foi ela ter expulsado cada um de nós de dentro dela, como todo animal deve fazer. Não invejo os títulos, a inteligência, a sabedoria, o senso prático como invejo o saber parir. Não invejo os cabelos pretos aos 60 anos nem o peso que se mantém o mesmo há anos como invejo seu desprendimento animal ao nos parir. Confesso que por muito tempo me senti mãe pela metade por não ter parido assim, parido literalmente, e até hoje ainda tenho um pouco de vergonha de falar que meus filhos nasceram através de cirurgia.

"Quem pariu Mateus que o embale", diz a Bíblia. E quem não pariu, saberá embalar?

sábado, 10 de maio de 2008

Dia das Mães


Mais um texto sobre mães. Como se eu não fizesse isso todas as semanas, em parceria com minha amiga e mãe da Emilinha, Elizângela Carvalho. (Olha o merchandising aí, gente: Coluna M3 [mãe, mulher, moderna], aos domingos, no caderno Metrópole do Jornal O Dia).

Não vou perder meu tempo falando sobre o que é ser mãe: só quem tem filhos sabe o que é mesmo, e se você não tem não vai aprender apenas por ler minhas sábias (?) palavras. Ah! E nem vem me dizer que você sabe o que é maternidade porque é filho (a)! Há um probleminha de perspectiva, meu bem. Mas um dia você descobre, ou não (como diria Caetano Veloso).

Vou deixar então que meus filhos falem por mim. Escavuquei diários antigos, com um saudade antecipada do dia em que eles me deixarem, e achei algumas pérolas:




* Diálogo travado às 6 da manhã de um domingo, enquanto eu tentava dormir só mais um pouquinho. Pedro tinha 5 anos na época.

- Mãe, você sabe o que quer dizer ajsgdajsgdajsgdajhsgd?

- Não! Onde você ouviu essa palavra?

- No desenho tal. Acho que é inglês.

- Nunca ouvi essa palavra. Deixa eu dormir mais um pouqunho...

- Mas mãe, é inglês! Você não sabe tudo de inglês?

- Sei não, filho.

- Mas você não é professora de inglês?

- Sou, mas não sei tudo. Só quem sabe tudo de tudo é Deus.

- Pois pra mim você é o meu Deus.

(Durma com um barulho desses!)




* Zé Luiz, aos 3 anos, vendo a mãe se arrumar pra sair:

- Mãe, você tá linda, tá parecendo uma princesa!

Cinco minutos depois...

- Mãe, você É uma princesa, mas não igual àquela da história que vai embora com o príncipe não, né?




* Zé Luiz, aos 4 anos, no carro com a mãe e o pai:

- Mãe, se eu fosse tu, eu casava com o José Luiz.

- Mas e o papai? Quem ia casar com ele?

Um minuto pensando...

- Ele não precisava casar, não, mãe. Ele ia ser teu filho.

(Freud explica)




* Pedro, aos 9 anos, no cartão do dias das mães de 2007, confeccionado na escola:


Você é uma pérola rara que não racha

Você vale o infinito

É o poço de amor e glória

É a vida mais importante

É a pessoa perfeita

É uma coisa...

Uma pessoa...

Uma glória...

Um passo...

Uma deusa...

Um parágrafo do texto da vida de Deus...

Uma semente legendária...

Uma explosão de alegria...

Um espírito de paz...

Uma prova de verdade...

Uma mãe...

Não

Minha mãe.


(Um lenço por favor, que eu acho que vou chorar)



Por enquanto, nenhuma pérola do Antonio, ou pelo menos nenhuma que possa ser escrita assim em palavras. Mas caberia aqui, se fosse possível reproduzir, o abraço apertado que ele me deu na cama do hospital, quando tinha 1 ano e 4 meses. Já estressado pelas quatro tentativas frustradas das enfermeiras em colocar um soro naquela veinha pequena, ele me viu berrar e dizer que não ia deixar mais ninguém furá-lo. A pediatra, Dra. Clara, ficou calada enquanto eu exigia que se marcasse a colocação do catéter, pra que não fosse mais preciso ele passar por tudo aquilo. Quando recuperou a fala, ela me lembrou dos riscos de infecção de um catéter, e eu falei que assumiria o risco. Mesmo sem entender o teor do diálogo, Antonio viu que eu estava lhe protegendo do sofrimento e me deu um abraço de quebrar pequenas costelas. Mas a sensação de amor, gratidão e segurança do abraço não cabe aqui.


quarta-feira, 7 de maio de 2008

TOOOOOOMA!!!

"Eu me orgulho muito de ter mentido na ditadura, é difícil fazer isso. Eu salvei companheiros da tortura e da morte. O que estava em questão era a minha vida e a de tantos outros. Me orgulho imensamente de ter mentido. Qualquer comparação entre a ditadura militar e a democracia brasileira só pode partir de quem não dá valor nenhum à democracia". Dilma Roussef
Não, eu não sou petista. Eu não participei do espetáculo da democracia quando Lula chegou ao poder. Eu não sei se existe ou não um dossiê sobre gastos do governo FHC. Mas hoje eu fiquei arrepiada com a resposta fina, eleganta e sincera (como diria Lulu Santos) da ministra Dilma Roussef ao senador José Agripino Maia. Confrontada com declarações suas veiculadas na imprensa segundo as quais ela havia mentido em interrogatório durante o regime militar, Dilma disse o óbvio: sob tortura, o mais fácil é falar a verdade, mesmo colocando a vida de outras pessoas em risco. Coragem é mentir amarrada a um pau-de-arara.
Minha reação ao ver a cena na TV foi voltar a ser criança e gritar bem alto: TOOOOOMA, Agripino Maia!

domingo, 4 de maio de 2008

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES

OK, o caso Isabela Nardoni já deu o que tinha que dar (em termos midiáticos, obviamente). Ao que (a)parece, a madrasta esganou a menina em um momento de fúria e o pai tratou de jogá-la do sexto andar para simular que o crime fora cometido por outra pessoa. Cruel, principalmente se narrado assim, quase sem adjetivos como monstruoso, frio, impensável, covarde. Mas depois de tanta exposição, a novela Isabela Nardoni acabou ficando tão banal quanto qualquer novela das 8 (que na verdade passa às 9!). Efeito narcotizante.
Corta! Direto da Áustria, a TV traz em seu rico espetáculo de sons e imagens a história do pai que estuprava a filha desde os 11 anos e que resolveu trancá-la em um porão especialmente preparado para esse fim, bem embaixo da casa onde ele levava uma vida normal de cidadão respeitável com sua esposa e mãe da menina. Para melhorar o roteiro de filme de terror, a menina ficou presa por 24 anos, durante os quais pariu (sozinha e sem qualquer ajuda) sete filhos do próprio pai. Desses, três foram elevados à condição de gente pelo pai/avô/deus que decidiu levá-los ao andar superior da casa e criá-los como netos. Um morreu logo ao nascer. Outros três viviam com a mãe no porão, sem ver a luz do sol, sem se exercitar, sem conhecer o mundo lá fora, na situação de absoluta ignorância do mundo, como na caverna de Platão.
Depois disso, não parecem Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá dois anjos de candura? Parece que já temos a nova Odete Roitman dos noticiários.

sábado, 3 de maio de 2008

Memória Seletiva

Não confio nos meus olhos. E não só por serem míopes, mas por obedecerem mais ao meu coração que ao meu cérebro. Vêem o que querem, e quando não querem assumem meus muitos graus de miopia, mesmo que eu esteja de lentes. Foram esses olhos míopes que me fizeram ver um mesmo rosto em vários rostos diferentes, há muito tempo atrás, entre carros estacionados e uma multidão de pessoas que passava apressada. Nunca esqueci esse fenômeno, talvez por ter permanecido inédito.
Menos ainda que meus olhos, confio na minha memória. É bem verdade que ela não me falha ao guardar letras de músicas, pedaços de poemas e trechos inteiros de livros que li, além tatuar em meu cérebro frases completas, com entonação, timbre e sotaque, com voz encorpada e meio falha pelo acordar recente. Nisso minha memória não me falta.
Mas as expressões, o rosto, aquele detalhe entre o pescoço e o peito, aquele formato específico do nariz, os vincos na testa... Esses vão embora com o tempo, e tentar resgatá-los no HD displicente da minha memória só traz angústia. Talvez por isso, eu tente sempre examinar detalhadamente cada pedaço do seu rosto, esquadrinhá-lo de modo a não esquecer nem mesmo aqueles cravinhos pretos do nariz, que fazem com que ele pareça um morango.
Outro dia alguém comentava sobre o fato de ter o lóbulo da orelha pregado, e a discussão (em mesa de bar, obviamente. Onde mais uma discusão dessas aconteceria?) enveredou sobre os fatores genéticos de tal característica, o que era recessivo, o que era dominante, e quem tinha o lóbulo como. Que susto levei! Não sei como é o lóbulo da sua orelha. Será solto ou pregado? E que diferença mesmo isso faz se não sei mais nada sobre você?