Sim, eu desapareci daqui. Prometi manter o ritmo mas não consegui. É que meu ritmo interno também mudou, e a necessidade de me gritar, escancarar, rasgar diminuiu. Não, não passou totalmente, senão nem seria eu. Mas ando mais calma que de costume - calma no meu próprio dicionário, segundo minha definição de calmaria, que passa longe da apatia, da monotonia, daquela "paz que eu não quero sentir", como na música do Rappa. Ando menos eufórica, menos ansiosa, mais tranquila um pouco. Sinto borboletas no estômago, mas elas não me causam ânsia de vômito. Sinto palpitações às vezes, mas já sei como acalmar meu coração. E às vezes nem quero acalmá-lo. Ando assim sorrindo abestada á noite, acordando tranquila de manhã cedinho, esquecendo as refeições como sempre, prometendo lutar boxe, jurando que escrevo uma dissertação nos próximos meses. Ando cada vez mais próxima dos amigos e das pessoas que me interessam. E estou um pouquinho mais tolerante com as pessoas das quais não consigo escapar - se é pra conviver, vamos tentar fazê-lo civilizadamente, né? Ando com amnésia seletiva, tentando a todo custo esquecer o que me faz mal, e deixando na mão de quem sabe a resolução de problemas que só me adoeceriam. Pensando bem, parece que eu ando um pouco mais sábia. Maturidade?
Repositório de pequenos sonhos, epifanias e certezas transitórias. Espaço de despejo do excesso que pesa na alma. Lugar de ser pequena quando tudo fora é grande demais.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
domingo, 23 de janeiro de 2011
Lar doce lar
É só uma porta, dessas assim de madeira, ordinária como qualquer porta. Mas tem duas carrancas paraenses - pra espantar tudo o que não presta - bem do ladinho dessa porta ordinária. E tem um boizinho, um bumba-meu-boi, que foi me dado junto com um monte de carinho. As carrancas espantam o mal, o boizinho celebra a alegria. E a portinha ordinária se abre pra uma outra dimensão - de amor, de acolhida, de lar. Aqui dentro tem uns caquinhos de coisas reunidas ao longo da vida. Em cada cantinho um pouquinho de amor, um tanto de carinho, e um bocado de boas lembranças, espalhadas entre o sofá e a janela, na mesa de centro, pelo meio das panelas. Aqui, nesse castelo, moram os sonhos de viagens pelo mundo do adolescente, os sonhos de campeonatos de futebol do menino de cabelo de anjinho, os sonhos de manobras de bicicleta do menino de voz rouca e coragem de guerreiro. Moram também aqui, entre essas paredes brancas, os sonhos da mãe dos meninos - o desejo de que tudo o que eles sonham se concretize, e de que ela possa sempre guiá-los. Moram também, no meio de tantos outros sonhos, uns desejos que são dela, e que se esgueiram entre os deles, e que buscam espaço e tentam respirar entre tantas aspirações dos pequenos. É que aqui dentro mora uma mulher que também tem lá seus sonhos.
Aqui na casa de número 2 tem bola, bicicleta, jogos. Tem livros a serem lidos e livros que merecem ser sempre relidos. Tem Chico Buarque que toca insistente. Tem a cadeira de embalar sono de bebê. Tem sambinha no domingo de manhã. Tem Cazuza e Barão sempre, sempre bem alto. Tem a nostalgia de Piaf pra hora em que é quase frio. Tem vinho tinto, tem amigas gargalhando na varanda. Tem São Jorge, São Francisco e Santa Clara. Tem Piazzola. Tem mosquito, bicho de luz e insetos sortidos. Tem campainha que toca e abrir de porta que traz beijo na boca e cafuné no sofá. Tem shizas e tem olhos turcos. Tem amigos reunidos no quintal. Tem irmã e primas cozinhando e atualizando a vida. Tem Santa Luzia, tem Santo Antonio. Tem piada interna, tem papo colocado em dia, tem lanche improvisado com ovo de codorna, patê e torrada. Tem pizza entregue quase de madrugada. Tem churrasqueira dada pela Teté. Tem um carneiro vivo aguardando mais uma inauguração. Tem tapete, vidraças e pontos cegos. Tem um quintal pra comemorar. Tem as garrafas d'água vazias de tanto saciar a sede dos meninos que jogam futebol no campinho em frente. Tem uma construção que não acaba jamais. Tem duas janelas que nunca chegaram. Tem um jardim pra ser terminado. Tem escolhas a serem feitas: flamboyant, ipê, jaboticaba? Tem uma vontade tão grande de nunca mais precisar sair. E tem um mundo grande lá fora que nos chama.
Como disse uma amiga, tem três príncipes, uma princesa e nenhum dragão (que esses eu despachei ladeira abaixo, no caminho pro castelo). E tá aberta pros amigos queridos - basta trazer boas energias, o peito aberto e a disposiçao pro sorriso que serão muito, muito bem-vindos!
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Sim, eu estive terrivelmente ocupada...
| Auto de Natal |
| Pedro e Juju como José e Maria |
| Pastores picorruchos |
| A tradicional foto das primas (pouco numerosa nesse natal) |
| Agora primas e agregadas |
| Xamego de primos |
| Os invencíveis |
| Se é pra tocar, vai as treze sinfonias de Cacá, né, coronel? |
| Primas par-de-jarro |
| Reveião no quintal réi |
| As muié de tomara-que-caia - mas não caiu nenhuma! |
| É muié que dá no meio da canela! |
| Tem quem cante! |
| E tem quem invente de cantar e quem toque de verdade |
| Tonton mostra que é descendente da Chica Pipira |
| José cai no samba |
| E a percussão é dominada pela ala infantil - Zé entre as belas Isabela's |
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Pra fechar o ano
A passagem do ano
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.
O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olhar e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras expreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles...e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alertas funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Porque eu adoro listas
Os melhores e piores de 2010:
The best
- Sobrevivi
- Luizes e suas tiradas - oxigênio pra mim
- Chorei horrores (sim, pra uma pessoa "ôi-seco" como eu isso é um grande avanço)
- M³
- Borboletas no estômago
- Mestrado
- As pessoas fofas que conheci no mestrado
- Buenos Aires, Rio, Belém, Brasília
- Neve em Kyoto (a primeira vez a gente nunca esquece)
- Amigos antigos, seus confortáveis colos e sempre disponíveis braços
- Amigos novos e nossas descobertas
- Reencontros
- Casinha nova
The worst
- Chorei horrores
- Saudades
- Falta de tempo
- Falta de respeito
- Falta de culhão
- Ansiedade mode on o ano inteiro
- Mudança - inferno na terra
No final das contas, no frigir dos ovos, quer saber? 2010, noves fora, 10!
The best
- Sobrevivi
- Luizes e suas tiradas - oxigênio pra mim
- Chorei horrores (sim, pra uma pessoa "ôi-seco" como eu isso é um grande avanço)
- M³
- Borboletas no estômago
- Mestrado
- As pessoas fofas que conheci no mestrado
- Buenos Aires, Rio, Belém, Brasília
- Neve em Kyoto (a primeira vez a gente nunca esquece)
- Amigos antigos, seus confortáveis colos e sempre disponíveis braços
- Amigos novos e nossas descobertas
- Reencontros
- Casinha nova
The worst
- Chorei horrores
- Saudades
- Falta de tempo
- Falta de respeito
- Falta de culhão
- Ansiedade mode on o ano inteiro
- Mudança - inferno na terra
No final das contas, no frigir dos ovos, quer saber? 2010, noves fora, 10!
domingo, 26 de dezembro de 2010
Pérolas de Natal
Jingle bells. Papai Noel. Menino Jesus. Nascimento de Cristo. Presente embaixo da cama. Um monte de novidades invade a rotina dos picorruchos nessa época do ano. E essas novidades geram conversas e reflexões deliciosas, colecionadas nos últimos dias.
Zé Luiz: Mãe, o natal é o aniversário de Jesus, né?
Eu: É, sim, filho.
ZL: E quantos anos ele tá fazendo?
Eu: 2010
ZL: Ué? O mesmo desse ano? A gente tá em 2010!
Eu: É porque os anos começaram a ser contados com o nascimento de Cristo.
ZL: E as pessoas de antes não tinham tempo não, era?
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Antonio e Zé Luiz no banco de trás do carro. Eu dirigindo. Começa uma discussão. Peço pra pararem senão eu vou bater o carro. Eles ignoram. Resolvo apelar: "Olha que o Papai Noel tá vendo tudo e vai acabar não dando presente pra vocês, hein?" Antonio se preocupa: "Para, Zé, que o Papai Noel tá lá em cima vendo a gente brigando". Zé Luiz tranquiliza: "Tá nada. Esse carro não tem teto solar"
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Antonio explicando pra Bá quem é afinal esse tal de Papai Noel:
- Ele é bem velhinho e dá presentes pras crianças que não fazem danação. Ele é tipo o papai do céu, sabe, só que não precisa a gente rezar pra ele toda noite, não. Eu só fiz uma carta e pronto.
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Antonio: Mãe, tu já viu o Papai Noel?
Eu: Não. Quer dizer.. uma vez eu consegui ver só um pedacinho da roupa dele quando ele tava pulando a janela pra ir embora, quando eu era criança.
Antonio: E ele já era velhinho?
Eu: Era.
Antonio: Então como é que ele ainda não morreu?
(Sim, o não dito é que eu sou uma velha coroca, néam?)
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Manhã de Natal. Os meninos acordam eufóricos com os presentes que o Papai Noel deixou embaixo da cama. Só que eu esqueci de tirar o adesivo da loja.
Zé: "Ué, o Papai Noel comprou meu presente na Fábrica de Brinquedos?"
Eu: "Não, ele TEM um fábrica de brinquedos."
Zé: "Na avenida Elias João Tajra? Mãe, isso é uma loja!"
Enquanto penso numa resposta, Zé formula sozinho a solução:
- Acho que fábrica dele tava muito aperreada e ele acabou comprando meu presente na loja, né, mãe?
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Pedro, Zé e Antonio participaram do auto de natal das Mesquitas. Pedro foi José e os picorruchos foram pastores. Voltando do ensaio, Zé me sai com essa:
- Por que o Pedro pode ser José e eu tenho que ser só um pastorzinho?
- Porque ele é maior, e José tem muitas falas. Mas é tão legal ser pastor...
- Mas eu que me chamo José. Eu que tinha que fazer José na peça. E São Pedro nem tava lá quando Jesus nasceu, mãe!
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Vale por um cartão
O ano tá mesmo acabando! Pra uns, graças a Deus. Pra outros, passou voando. Independente do que 2010 trouxe - ou levou - já é hora de passar a régua e pedir um 2011 novinho em folha. Pra quem precisa de mudanças, coragem. Pra quem precisa de certezas, paciência. Pra quem precisa de tranquilidade, minhas condolências. Pra quem precisa de novidade, fila andando. Pra todos vocês que passam pelo blog ou que passaram por mim em 2010, meus votos de que o novo ano nasça sorrindo, e que vocês possam aninhá-lo em braços macios.
Beijos pra quem é de beijos e abraços pra quem é de abraços.
Sim, isso aí em cima pretende substituir aqueles cartões lindinhos que eu fazia com as fotos dos luizes. Desculpem, queridos, mas esse fim de ano com mudança de casa não tá me deixando tempo pra nada, só mesmo pra reclamar.
Beijos pra quem é de beijos e abraços pra quem é de abraços.
Sim, isso aí em cima pretende substituir aqueles cartões lindinhos que eu fazia com as fotos dos luizes. Desculpem, queridos, mas esse fim de ano com mudança de casa não tá me deixando tempo pra nada, só mesmo pra reclamar.
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