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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Diga 33


Eu não tenho medo de envelhecer. Nunca tive. Até hoje nunca sequer me passou pela cabeça mentir minha idade. Tenho muito orgulho de meus 32 anos, que amanhã serão 33. É por isso também que adoro aniversário - pra mim o ano começa no dia 31 de julho. Sabe as resoluções de ano novo que as pessoas gostam de fazer em 01 de janeiro? Faço todas no dia do meu aniversário. É quando gosto também de olhar pra trás e pensar sobre o aniversário anterior e sobre os 365 dias que passaram até chegar essa data de novo. É um exercício interessante e uma reflexão necessária pra mim. Hoje penso que foram 360 graus de mudança em 365 dias apenas.

No dia 31 de julho de 2009 eu estava triste, como na maioria dos dias daquele ano . Mas, mais que isso, eu me sentia perdida e impotente. Crise dos trinta atrasada? Talvez. Mas eu pensava que ainda tinha tanta coisa que eu queria fazer e viver e sonhar... Meio morta - era assim que eu tava. "Ah! Mas isso deve passar!", eu pensava. E passou agosto, passou setembro e só o que não passava era a certeza de que alguma coisa (quase tudo) tava errada.

No dia 31 de julho do ano passado eu fiz minha famosa listinha das coisas boas que tinham acontecido no ano anterior, e das coisas que eu queria mudar, conquistar, conseguir. A segunda lista era tão maior que eu tive vontade de rasgar tudo, me trancar no banheiro e chorar. E foi o que eu fiz.

No dia 01 de agosto eu acordei decidida a mudar a vida, mas nem sabia por onde começar. A vontade era explodir tudo e depois ver o que fazer com os pedaços que sobrassem. E, de um jeito ou de outro, foi mais ou menos isso que eu fiz, embora tenha me custado muito mais tempo e lágrimas do que o que eu inocentemente esperava.

Pensado nesses 365 dias, prefiro lembrar as coisas boas que me aconteceram - e olha que não foram poucas. Eu passei na seleção do mestrado. Fui ao Japão mais uma vez e encontrei um país completamente diferente do que eu tinha conhecido oito anos antes, e lá re-encontrei amigos que me fazem uma falta sem nome. Lá também eu senti borboletas no estômago mais uma vez. Quando o frio foi muito grande, voltei pro Brasil e re-encontrei amigos perdidos, trouxe pra mais perto todos os outros, e ainda ganhei uns novos que me fazem muito, muito bem. Comecei o mestrado, achando tudo um pouco esquisito, sabendo nada de antropologia, mas com vontade de aprender e aprender e aprender. Acabei descobrindo que estava no lugar certo. Lá conheci pessoas maravilhosas, que hoje faço questão de que façam parte da minha vida, e que eu adoro saber que vou encontrar todo dia de manhã.

Esse ano também eu botei em prática, junto com Danda, o projeto do livro, que há tempos estava parado por pura inércia nossa. O processo de produzir esse filho, com a ajuda da Josélia, foi ao mesmo tempo estressante, intenso e fantástico. Vê-lo pronto foi uma emoção que eu nem sei bem como explicar.

Algumas coisas que me incomodavam continuam aqui: eu ainda sou ansiosa, eu ainda me angustio, eu ainda olho em volta às vezes e penso que não sou suficiente. Mas eu sei também que isso, uma hora ou outra, vai passar. E pelo menos tô aprendendo a não ter pressa e a respeitar o ritmo do tempo - às vezes louco, às vezes lento - e a não tentar modulá-lo à minha vontade.

E o melhor de tudo, eu re-aprendi a sonhar, a pensar que as coisas ficam sempre melhores e que eu sempre consigo dar meus pulos, e colocar tudo no lugar. Hoje eu já me pego sonhando - com a conclusão do mestrado, com o curso de francês, com a viagem de mochila pela Europa, com o próximo livro, com um doutorado em Salamanca, com a casa nova, com um documentário, com a paz na inquietude.

Aprendi também - e acho que esse foi o aprendizado mais difícil, mas também o mais libertador - a pedir colo, a me mostrar frágil, a aceitar os muitos ombros amigos que sempre estiveram à minha disposição. E entendi que nada disso é fraqueza e que eu não tenho mesmo nada a provar.

No final das contas, coisa boa é aniversário, pra pensar que, do ano anterior pra cá, eu sinto muito mais que antes, e meus olhos vêem mais e melhor, e buscam muito mais longe do que quando eu olhava apenas pra baixo e pra trás.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O bom filho...

Vontade de me sentir em casa. A paixão por línguas. Paixão maior ainda pela língua inglesa. Necessidade de praticá-la. Vontade de aprender Francês. Dinheiro, que, ganho pela gente, nunca é demais. Conforto de amigos antigos. Desconto na mensalidade das crianças. O tesão pela sala de aula. As reuniões e encontros pedagógicos que às vezes valem mais que uma sessão de Monty Python. A festa de natal. A sensação de acolhimento toda vez que passo pela porta larga.

Essas são algumas das razões pelas quais tô voltando pra Wizard. Pra quem não entendeu, pra quem criticou e pra quem me perguntou onde eu vou arranjar tempo, eu respondo que o que importa é que eu tô voltando pra casa, outra vez. (E eu continuo odiando o Lulu Santos)

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Utilidade Pública

Atenção, poetinhas e poetões! A Med Plan está com inscrições abertas para o Concurso Cultural de Poesia "Te amo, Teresina". Entra lá no site, que tem o regulamento, forma de inscrição e etc. E tem também uma entrevista com o maravilhoso salve, salve André Gonçalves.
E eu até queria escrever poesia, principalmente sobre essa cidade que eu amo e onde me sinto tão acolhida, mas eu sou mesmo é prosa.

terça-feira, 27 de julho de 2010

02 Neurônio

Sem tempo, sem internet, e a caminho de ficar sem teto também. É assim que eu ando, sem contar com uma irresistível vibe nômade que tem me assolado. Por tudo isso ando sumida daqui e dos blogs que sempre leio. Mas não resisti ao entrar hoje no 02 Neurônio e ler um post um pouco antigo da Nina Lemos. Adooooro o humor da criatura. Ó o post aí:

"E você caiu no papo dele?" Ou a sabedoria infinita dos amigos homens

Depois de muita paquera e alguns encontros, Um cara falou um monte de coisas, fez juras de amor e planos, Em seguida, ele agiu de um modo completamente esquisito. E deu tudo errado. Ponto.

Bem, caso clássico, não? Mas ficamos, eu, minhas amigas, nossos conhecimentos de psicanálise selvagem e nossa imaginação fértil. Construímos uma tese de mestrado para o comportamento do rapaz que incluía coisas como:



1- Ele percebe que você no fundo tem desprezo pelo meio de trabalho dele. Ele não suporta a sua crítica em relação a uma coisa que ele acha o máximo. (tese da jô)

2- Ele é auto-centrado, só consegue pensar em si mesmo. “Que mal contemporâneo”, comentou o Vitor a respeito do diagnóstico.

3- Essa coisa de fazer muita declaração e achar que você é tudo dá nisso. Cuidado que uma hora ele vai estar te odiando. Amor e ódio andam juntos, você sabe (Luana)

4- É tudo falta de amor de mãe, esses caras não foram amados suficientemente pelas mães (Bia, que usa essa teoria para todos os homens e mulheres).

5- Ele não tem coragem de bancar o desejo dele. E quem não banca os próprios desejos não serve (teoria minha, aplicada a todos os homens e mulheres).



As teorias não foram só essas. Temos outras. Um verdadeiro tratado psicológico sobre o sujeito e o mal estar da sociedade contemporânea, que inclui o abuso das redes sociais, o mal causado pela indústria da moda para quem leva isso a sério, toda a teoria do desejo do Freud e por aí vai.



Até que eu contei a história em versão remix para um amigo homem. Ele me olhou rindo e disse:



_ _Ihhh. E você caiu no papo dele?



Simples assim. E ele resolveu o enigma. Obrigado, amigos homens, pela sabedoria. Obrigada, amigas mulheres, pela nossa capacidade infinita de invenção, que preenche o nosso tempo e nos dá temas para crônicas.

Repetindo: adooooro a Nina Lemos!

terça-feira, 20 de julho de 2010

"Não precisa nem dizer tudo isso que lhe digo..."

É que hoje é dia do amigo. E eu ia linkar aqui alguns posts passados que falam de amizade, mas eram tantos que eu desisti. É que amizade é uma coisa que nunca me faltou: tenhos muitos e bons amigos. E fico toda derretida quando falo deles.
Olha que lindo o Rei e o Tremendão cantando juntos a amizade. Feliz dia do amigo pra todos os meus amigos de fé, irmãos camaradas - os que estão perto, os que estão longe e principalmente os que sempre dão um jeitinho de se fazer presentes. Amor é isso, viu?
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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Sinal?

Eu não acredito em duendes, fadas, gnomos,e coisas afins. E eu acredito em coincidências. O que eu quero dizer é que eu acho que algumas coisas - a maioria delas - são mera coincidência, e pronto. Tem gente que vê em tudo um sinal pra qualquer coisa. Tá em dúvida sobre aceitar ou não uma proposta, daí a Gal canta Folhetim ("se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim") no rádio e - pimba! - era o sinal que tava precisando pra culpar o acaso pela decisão que queria tomar. E ainda argumenta: "Claro que foi um sinal! Onde já se viu tocar Gal Costa na FM Cultura? E ainda mais uma música tããão desconhecida?" Então tá. Vai lá e acredita no que quiser. Euzinha não tenho paciência pro pensamento mágico.
Mas hoje - olha só - aconteceu um negócio engraçado. Há semanas penso em cortar meu cabelo joãozinho de novo. Mentira: eu sempre penso em voltar a usar o cabelo assim, mas nas últimas semanas tenho ficado cada vez mais impaciente com esse cabelón que ando ostentando há uns bons três anos. Não posso nem ver a Sandra Anhemberg na bancada do Jornal Hoje que me dá vontade de pegar a primeira tesoura e fazer o serviço sozinha. Daí hoje eu recebi um vídeo via facebook. É uma parte de um documentário sobre o bar Beirute, que eu adoro, em Brasília, cidade que eu amo. E o vídeo foi enviado pra mim porque lá no fundinho, por uns 5 segundos (lá pelos 8:58m de vídeo), Maklóvia encontrou eu e cumpadi Zé numa mesa papeando. E meu cabelo? Curtésimo! Me senti tão livre só de ver como era fácil usar aquele cabelitcho! Como diria Cafa, AIN! Eu devia ver isso como um sinal, né? Por que eu não acredito em pensamento mágico?
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sábado, 17 de julho de 2010

Império dos Sentidos

Pro tato, penugem das costas do bebê; barba por fazer; xenhenhém ou qualquer lençol velho e macio; calcinha de algodão; tacho de feijão no Mercado Velho; cafuné; preparar massa pra taco; pés descalços na terra ou piso frio; areia de praia; costelar com filho; lavar o macarrão escorrido; vento de praia no cabelo; botar agasalho quando faz frio.


Pro paladar, chocolate meio amargo; pato no tucupi; cerveja estupidamente gelada; jaca; manga verde com sal; bombom de cupuaçu; siriguela e goiaba; lasanha de beringela; vinho tinto e seco.


Pro olfato, cabeça de recém-nascido; tucupi na panela; alho frito; bafinho de filho ao acordar; lençol passado com alfazema; livro novo; patchuli; terra molhada.


Pra visão, o primeiro olhar pro filho; chuva caindo com raio; o pôr-do-sol de Teresina no B-R-O bró; o céu de Brasília o ano inteiro; o mar do Coqueiro; filhos dormindo abraçados; filho acordando manhoso, coçando o olho com remela.


Pra audição, "mããããee", dito pela gente ou pelos filhos; Piazolla pra parir um livro; samba pra desopilar; Chico pra sentir toda hora; Beatles pra dirigir cantando; blues e jazz pra arrumar o guarda-roupa; sussuro ao pé do ouvido; Palavra Cantada pra cantar com os meninos; rock dos anos 80 pra nunca esquecer; Cazuza e Barão pra tudo; "filhota", dito pelo meu pai; onda quebrando na praia; Tarkan pra rememorar; vento no bambuzal; Jorge Benjor pra dançar e suar.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Carinho em pílulas

Tu-tu Tu-tu. O som de mensagem do meu celular é mais ou menos assim. E eu adoro. Enquanto eu lia sobre os Arapesh e encontrava absurdas semelhanças com um E.T. que conheço, chega uma mensagem carregada do friozão de Curitiba:
"Prima, você PRECISA de um celular TIM. Sabe pra quê? Pra eu ligar pra vc!"
Tem alguém que aguente viver sem família?
P.S. desaforado: criatura chata que me criticou porque meus posts são longos, taí um curtinho pra você. E, não, eu não tenho problema com críticas. Humpf!

Pequeno blogueiro

Meus meninos me requisitam o tempo inteiro quando tô em casa. Coisa de filho que sabe que a presença da mãe é coisa rara. Hoje eu já tinha jogado bola e brincado de esconde-esconde, enquanto tentava nos intervalos fazer um trabalho no computador. De língua de fora, implorei por uma brincadeira mais leve. (O Play Station quebrou essa semana, bem no meio das férias.) "Por que vocês não jogam alguma coisa no computador?"
Meia hora de jogo, e eu tentando voltar a me concentrar no trabalho. Zé Luiz me vem com essa:
- Mãe, quero ter um blog.
(Visualize minha expressão de surpresa)
- Mas por que tu quer um blog?
- Pra escrever as coisas que eu fico pensando, ora.
(Visualize minha expressão de contentamento)
OK, fui lá ajudá-lo a fazer o blog. Depois de criado e definido template, Zé me pediu que eu saísse do escritório. "Quero pensar sozinho" (Esse não foi trocado na marternidade, não)
Suas mãos gordinhas de seis anos passaram a tarde pra escrever o primeiro post. Ofereci ajuda só pra revisar e ele aceitou (mas ainda deixei umas coisinhas que achei tão típicas da idade que não fazia sentido mudar).
E tô aqui cheia de orgulho, lendo e relendo o post do meu pequeno blogueiro, e torcendo pra que esse verme de escrever o que tá pensando se instale nele como a necessidade de respirar, como acontece comigo.
Vai lá ver que lindo é o pensamento escrito do meu .

quinta-feira, 15 de julho de 2010

E precisava?

Hoje é o dia do homem. Não é piada, não, gente. Alguém inventou o dia do homem. Que utilidade esse dia tem, não sei. Mas achei engraçado demais. E fiquei me perguntando o que diabo significa ser homem. Eu que tenho três em casa, me pergunto todo dia o que é isso que os diferencia do ser mulher. E continuo sem saber.
Eu sei que tenho que me livrar de meus pré-conceitos e posições pré-concebidas. Mas não tem como eu não sentir/pensar/perceber que homem é uma mulher que não deu certo. Tipo assim: mulher vê em 3D; homem vê em duas, e às vezes só mesmo em uma dimensão. Homem é coisinha sem profundidade. Homem é de cores básicas: azul, amarelo, vermelho. Mulher tem tons, matizes e nuances. Pensando numa escala evolutiva, é como se homem estivesse alguns estágios atrás da mulher, do gato e do orangotango. Mulher consegue sentir como o outro, se colocar no lugar do outro. Homem não entende nem o próprio lugar, e nem se esforça pra entender. Sofrem de etnocentrismo relacional - não entendem o outro porque vêem o mundo pela própria ótica limitada.
Eu sei, e a Monstro vai dizer, que precisamos parar com essa generalizações. E é verdade. Nem todo mundo vai se encaixar nessas definições. Mas que de uma maneira geral, as pessoas são assim, são.
E agora eu pensei que quando fiz meu mapa astral, o astrólogo bam-bam-bam dizia que o planeta tal em não-sei-que-casa era o que me fazia ter uma energia tão masculina (fiquei ofendidíssima). E que há alguns meses o trânsito de outro planeta por outro lugar estava mudando o sentido da minha vida, que agora seria buscar o feminino em mim. Não sei se é minha busca pessoal, ou o que os planetas têm a ver com isso, mas é bem verdade que minha busca acadêmica é exatamente o que diabo significa ser mulher. E minha produção jornalística também tenta trazer a visão feminina do mundo. E meu livro com a Danda trata exatamente das nossas questões. Ai, meu Deus, será esse excesso de mulherzice que tem me deixado assim tão mulherzinha nos últimos meses?
E pra vocês, rapazinhos que hoje comemoram seu dia, aprendam com Gil, viu?
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Salve Alexander

Sabe quando toca o telefone de um número com prefixo 81 e você já tem cer-te-za que é operadora de celular oferecendo o melhor plano/preço/aparelho/caralho-de-asa pra que você migre pra aquela operadora e deixe a sua? Pois é. Ontem quando meu celular tocou eu achei que era isso. E atendi meio enfadada. Susto quando me chamaram de Cacá. Mais susto ainda quando descobri que do outro lado quem falava era Aruela, minha amiga com quem eu não falava havia uns sete ou oito anos.
(Um minuto de silêncio em memória de Graham Bell, o inventor dessa máquina maravilhosa de unir pessoas)
Tanto tempo sem se ver/se falar e engatamos numa conversa que parecia que ainda no dia anterior estávamos juntas, sentadas na grama da 316 Norte, conversando besteira e tomando cerveja. Tanta coisa aconteceu nas nossas vidas durante esses anos, mas em um segundo parecia que a gente já tinha apertado o F5 e a vida tinha sido toda atualizada. Clichê como seja, tão bom reconhecer na Manu a mesma amiga de sempre. Melhor ainda combinar um encontro de todo mundo em agosto e convencê-la a viajar comigo em setembro, e ouvi-la reclamar de algo com seu jeito lixa, que bate o meu de longe.
Salve, salve, Alexander Graham Bell. E por que mesmo ele ainda não foi canonizado?

terça-feira, 13 de julho de 2010

Dia Internacional do...

Rock!, você pensou. Engano. Pra mim hoje é o Dia Internacional do Mu, meu amigo xuxu. Porque hoje ele faz aniversário, qualquer menção ao rock parece pequena pra mim. Porque ele é muito mais MPB e Chico, mas foi ele quem me apresentou e fez com que eu me apaixonasse pelos Los Hermanos.

E porque o Mu é um dos amigos que entraram mais tarde na minha vida, mas acho que nós nos reconhecemos como amigos de infância. A Eulália, na época nossa chefe na TV, dizia que foi amor à primeira vista. E foi mesmo identificação imediata. O Mu me lembrava (e ainda lembra) uma pessoinha que dança de tamanco turco no meu coração. Cara de um, focinho do outro. Daí comecou nossa amizade. E todo dia a gente descia pra fumar um cigarro na masmorra, no subsolo da TV. E as conversinhas bestas regadas a nicotina e cafeína acabaram virando conversas de coração aberto.

E um dia me vi perdida, tendo que resolver mil coisas pra correr pra São Paulo com Antonio doente. E Mu se colocou à minha disposição pra resolver tudo o que eu precisasse. E resolveu. Do documento do trabalho, à conta que tinha que ser paga. E quando já tava com tudo arrumado pra embarcar, me toquei que não tinha como levar aqueles exames enormes, cheio de imagens horrorosas. Caí no choro (porque eu choro por besteira pra não chorar pelo que é mais importante). E Mu me apareceu com uma big pasta onde deu pra eu guardar e carregar tudinho. E também com uma pulseira de Nossa Senhora que eu uso até hoje.

Mas Mu não é só amigo das horas difíceis, não. Ele é uma das melhores companhias do mundo pra farra. Acabo de voltar do Orelha, da comemoração do aniversário dele. E em dois tempos ele mudou o rumo das minhas férias e dos meninos. É que tudo com ele é divertido. E eu topo o que ele disser. E topei na hora as mudanças que ele propôs. É que ele tem uma qualidade pra qual eu não tenho defesas: ama meus filhos de olhos fechados. "Quem trata bem meus filhos adoça minha boca", já diziam os mais velhos. E quem faz tudo no mundo pra agradá-los faz carinho na minha alma.
Então , Mu, já que o rock tem a sorte de ser comemorado nesse dia que é seu, fica aí com uma das melhores músicas da melhor banda brasileira de rock. Amo tu, Xuxu. Se tu não existisse eu tinha que mandar fazer um de barro!
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Inevitável

O que o barro quer

o barro
toma a forma
que você quiser

você nem sabe
estar fazendo apenas
o que o barro quer

(Leminski)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Isso não se faz, senhor Saramago!

Redinha na varanda, na beira do mar, vento batendo, surra de areia vez ou outra, livro de Saramago e cervejinha gelada. Perfeito. Aí você se depara com isso:
Eu sou todas as mulheres, todos os nomes delas são meus, disse lilith, e agora vem, vem depressa, vem dar-me notícia do teu corpo. (...) Desfrutemos então o tempo que nos resta, vem para mim, disse lilith. Abraçaram-se aos beijos, agarrados rolaram na cama de um lado para outro, e quando caim se encontrou sobre lilith e se preparava para a penetrar, ela disse, A marca da tua testa está maior, Muito maior, perguntou caim, Não muito, Às vezes penso que ela irá crescendo, crescendo, alastrando por todo o corpo e me converterei em negro, Era o que ainda me faltava, disse lilith soltando uma gargalhada, a que imediatamente sucedeu um gemido de prazer quando ele, num só impulso, a cravou até o fundo. (Caim)
OK, senhor Saramago. O senhor morreu, bateu as botas, desencarnou. Como ateu, imagino que deve ter acreditado que se desintegraria, deixaria de existir. Não vou aqui discutir esses mistérios insondáveis. Eu tenho lá minhas dúvidas sobre que diabo nos acontece ao morrer. Mas o fato é que outros, como eu, continuam aqui em carne e osso e nervos e boca e cabelos e ouvidos e todo o corpo recoberto por pele e terminações nervosas. Então faça-nos o favor de não nos provocar assim, combinado?

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Vamos a la playa ô ô ô ô ô

Dois biquinis. Uma canga. Dois vestidos. Camisola. Uma toalha. Lençol. O xenhenhém. Protetor solar. Hidratante. Shampoo, condicionador, sabonete. Opti-free. Brincos, só os que já estão na orelha. Anéis, os de sempre. Relógio fica, porque pesa, em vários sentidos. Havaianas, só um par. Caim, do Saramago, ganhado recentemente, direto de Portugal. Amigos, de monte. E uma vontade louca de descansar o corpo, esvaziar a mente e relaxar o coração.
As melhores viagens são as da alma, alguém já disse e eu nem sei quem foi. E eu vou de alma inteira me jogar na areia, tomar banho de mar pra tirar o carrego, comer caranguejo, falar besteira, embaraçar o cabelo com o vento, tirar soneca na rede.
Dá licença que eu vou bem ali fingir que eu não carrego nenhum peso.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

20 anos sem Cazuza

Todo mundo tem um ídolo na adolescência, e às vezes até leva a adoração pra vida adulta, como eu. Eu tive, e tenho, o Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza. Nem lembro bem quando começou minha admiração por ele, mas lembro que quando ele morreu, em 07 de julho de 1990, eu me senti entre órfã e viúva. (Perdoem o drama - meninas de 12 anos são assim mesmo. O bom é que um dia elas crescem. Ou não.)

O que lembro bem é do fascínio que me causavam as músicas dele. Eu gostava de ficar até altas horas da noite trancada no quarto ouvindo as músicas e cantando junto e pensando que a vida era muito, muito louca e triste, e que afinal alguém tinha coragem de dizer, naquele jeito jogado, vomitado, escrachado que só ele tinha, mesmo quando falava de amor. Era tudo tão maldito pela ótica dele, e eu achava que era tão bonito ser intenso assim... E aquela coragem dele de se assumir gay, de se assumir soropositivo - tudo isso me fazia pensar que eu queria ser corajosa assim, se fosse preciso.

Eu tava passando férias em Brasília quando ele morreu. Mas no dia mesmo, em 07 de julho, eu tava na fazenda da minha tia, em Formosa, e nem ouvi falar do fato. Cheguei em Brasília uns dois ou três dias depois. Eu e minhas primas na banca de revista da 205 Norte e eu vejo uma revista (que eu tenho até hoje) com as indicações de data de nascimento e de morte na capa, e a foto dele tão lindo de boina vermelha. Gelei. Olhei em volta e várias publicações traziam a foto do Cazuza. Pronto. Daí desabei a chorar. (Repito: meninas de 12 anos são dramáticas). Muitas lágrimas depois, seguidas de telefonemas pros meus pais em Teresina, e do consolo das minhas primas em Brasília, terminei a noite rindo: minha tia se fantasiou de fantasma do Cazuza e veio na janela do quarto nos assustar.

Duas décadas depois continuo amando essa energia escrachada do Cazuza, e a coragem que às vezes me falta e que nele sempre transbordou. E hoje não canso de pensar na mãe dele, que perdeu seu filho único. É que agora sou mãe, e arranjei outra maneira de exercer o lado dramático da menina de 12 anos que muitas vezes ainda sou.
(Tento desde ontem postar um vídeo do Cazuza aqui, mas simplesmente não carrega. Depois tento de novo)

terça-feira, 6 de julho de 2010

Férias




Última aula do semestre. "Enfim, férias", pensei. (mais ou menos férias, mas vá lá...) Amanhã não tenho que acordar cedo, nem que ficar até altas horas lendo textos e mais textos pra aula do dia seguinte. Oba!

Daí caiu a ficha da Sra. Nostalgia. Então amanhã não vou encontrar meus coleguinhas? Nem tomar baldes de café no corredor em frente à salinha do mestrado? Vou ficar dias sem a once-in-a-life-time identificação e os comentários picantes da Pavoa? Sem a perspicácia e a sempre-preparação da Monstro Antropológico? E sem seu apoio inteligente nas discussões em que sou maldosamente chamada de Clarissa de Beauvoir? E sem o cafuné carinhoso do André? E sem a voz insegura da Thaís, sempre seguida do meu grito: "te solta, criatura!"? Sem a metamorfose estética eterna da Joyce? Sem a voz de veludo e o abraço de urso do Marcão? Sem a pose "vim-da-praia" e a dicção engraçada do Lasanha? (Sem contar que há alguns dias já sumiram os Indiana Jones: Marcela pegou o rumo do Pará, e levou com ela aquele sotaque que eu adoro, e que me lembra tanto D. Lourdes. Eugênio levou seu cheiro não sei pra onde. Julimar deve tá em algum buraco de tatu.)

Quero não! Sou bichinho que se acostuma fácil a gente. E que mais fácil ainda gosta de gente. E vocês ocuparam boa parte das minhas horas esse semestre, e melhoraram meu mau humor matinal dia após dia. Exijo encontros semanais e cervejais, no bar oficial dos alunos do PPGARQ. E pra começar, vamos hoje mesmo orelhar. Já tô indo pra lá.


Fotos gentilmente cedidas pela Pavoa, que nas horas vagas é também fotógrafa oficial da turma.

domingo, 4 de julho de 2010

Los hermanos

Não, eu não devia postar algo assim por aqui. Eu devia respeitar os perdedores e dar graças a Deus que a derrota humilhante da Argentina ao menos nos livrou a todos de ver o Maradona pelado (visão do inferno!). Mas não me habitam os sentimentos nobres, como vocês bem sabem. E, mesmo que eu não ligue pra futebol, é sempre tão bom ver um argentino quebrar a cara... Então desde o dia em que gravei esse vídeo que penso nesse momento: a hora de finalmente trazer a público a certeza que os hermanos tinham de sua superioridade futebolística. Vai que é tua, Ariel!
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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Eu mereço

Porque hoje eu tô cansada. Porque ontem eu dormi pouco. Porque tive aula o dia inteiro. Porque foi tão bom almoçar com o pessoal do mestrado. Porque quando eu penso que vou entrar de férias a seleção brasileira atrapalha. Porque eu achei que não teria aula amanhã. Porque eu vou, sim, ter aula, até a hora do jogo. Porque eu queria dormir até tarde. Porque eu tô com dor de cabeça. Porque eu esqueci de comprar o presente que o papai pediu. Porque amanhã isso vai ser motivo de encheção de saco. Porque abriram as portas do meduna. Porque todos os loucos do mundo me adotaram pra Cristo. Porque eu não sou Jó nem tenho parentesco com ele. Porque eu ando meio assustada. Porque minha mãe não chega nunca. Porque eu queria pegar logo a estrada. Porque hoje eu merecia ser dengada.