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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Pra fechar o ano

A passagem do ano

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olhar e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras expreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles...e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alertas funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Porque eu adoro listas

Os melhores e piores de 2010:

The best

- Sobrevivi
- Luizes e suas tiradas - oxigênio pra mim
- Chorei horrores (sim, pra uma pessoa "ôi-seco" como eu isso é um grande avanço)
- M³
- Borboletas no estômago
- Mestrado
- As pessoas fofas que conheci no mestrado
- Buenos Aires, Rio, Belém, Brasília
- Neve em Kyoto (a primeira vez a gente nunca esquece)
- Amigos antigos, seus confortáveis colos e sempre disponíveis braços
- Amigos novos e nossas descobertas
- Reencontros
- Casinha nova


The worst

- Chorei horrores
- Saudades
- Falta de tempo
- Falta de respeito
- Falta de culhão
- Ansiedade mode on o ano inteiro
- Mudança - inferno na terra

No final das contas, no frigir dos ovos, quer saber? 2010, noves fora, 10!

domingo, 26 de dezembro de 2010

Pérolas de Natal

Jingle bells. Papai Noel. Menino Jesus. Nascimento de Cristo. Presente embaixo da cama. Um monte de novidades invade a rotina dos picorruchos nessa época do ano. E essas novidades geram conversas e reflexões deliciosas, colecionadas nos últimos dias.

Zé Luiz: Mãe, o natal é o aniversário de Jesus, né?
Eu: É, sim, filho.
ZL: E quantos anos ele tá fazendo?
Eu: 2010
ZL: Ué? O mesmo desse ano? A gente tá em 2010!
Eu: É porque os anos começaram a ser contados com o nascimento de Cristo.
ZL: E as pessoas de antes não tinham tempo não, era?

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Antonio e Zé Luiz no banco de trás do carro. Eu dirigindo. Começa uma discussão. Peço pra pararem senão eu vou bater o carro. Eles ignoram. Resolvo apelar: "Olha que o Papai Noel tá vendo tudo e vai acabar não dando presente pra vocês, hein?" Antonio se preocupa: "Para, Zé, que o Papai Noel tá lá em cima vendo a gente brigando". Zé Luiz tranquiliza: "Tá nada. Esse carro não tem teto solar"

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Antonio explicando pra Bá quem é afinal esse tal de Papai Noel:
- Ele é bem velhinho e dá presentes pras crianças que não fazem danação. Ele é tipo o papai do céu, sabe, só que não precisa a gente rezar pra ele toda noite, não. Eu só fiz uma carta e pronto.

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Antonio: Mãe, tu já viu o Papai Noel?
Eu: Não. Quer dizer.. uma vez eu consegui ver só um pedacinho da roupa dele quando ele tava pulando a janela pra ir embora, quando eu era criança.
Antonio: E ele já era velhinho?
Eu: Era.
Antonio: Então como é que ele ainda não morreu?
(Sim, o não dito é que eu sou uma velha coroca, néam?)

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Manhã de Natal. Os meninos acordam eufóricos com os presentes que o Papai Noel deixou embaixo da cama. Só que eu esqueci de tirar o adesivo da loja.
Zé: "Ué, o Papai Noel comprou meu presente na Fábrica de Brinquedos?"
Eu: "Não, ele TEM um fábrica de brinquedos."
Zé: "Na avenida Elias João Tajra? Mãe, isso é uma loja!"
Enquanto penso numa resposta, Zé formula sozinho a solução:
- Acho que fábrica dele tava muito aperreada e ele acabou comprando meu presente na loja, né, mãe?

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Pedro, Zé e Antonio participaram do auto de natal das Mesquitas. Pedro foi José e os picorruchos foram pastores. Voltando do ensaio, Zé me sai com essa:
- Por que o Pedro pode ser José e eu tenho que ser só um pastorzinho?
- Porque ele é maior, e José tem muitas falas. Mas é tão legal ser pastor...
- Mas eu que me chamo José. Eu que tinha que fazer José na peça. E São Pedro nem tava lá quando Jesus nasceu, mãe!



terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Vale por um cartão


O ano tá mesmo acabando! Pra uns, graças a Deus. Pra outros, passou voando.  Independente do que 2010  trouxe - ou levou - já é hora de passar a  régua e pedir um 2011 novinho em folha. Pra quem precisa de mudanças, coragem. Pra quem  precisa de certezas, paciência. Pra quem precisa de tranquilidade, minhas condolências. Pra quem precisa de novidade, fila andando. Pra todos vocês que passam pelo blog ou que passaram por mim em 2010, meus votos de que o novo ano nasça sorrindo, e que vocês possam aninhá-lo em braços macios.
Beijos pra quem é de beijos e abraços pra quem é de abraços.

Sim, isso aí em cima pretende substituir aqueles cartões lindinhos que eu fazia com as fotos dos luizes. Desculpem, queridos, mas esse fim de ano com mudança de casa não tá me deixando tempo pra nada, só mesmo pra reclamar.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Parece dezembro de um ano dourado

2010 não foi um ano dourado. Mas dezembro é sempre dezembro. Dezembro tem sempre o nariz na vidraça do aeroporto - caos, caos, caos - e o abraço guardado que afinal é entregue. Dezembro tem sempre brincadeira antiga que se renova, tem sempre a surpresa de que nós ainda somos nós mesmos. O fio de Ariadna tá aqui - e é em dezembro que a gente confirma isso. É aqui que todos nós nos reunimos. E é sempre tão bom esse clima de "quem é mesmo que chega hoje? e quem chega amanhã?" É por isso, é bem por isso mesmo, que meu cérebro para de funcionar em dezembro e eu me transformo em uma lula ou polvo gigante, pronta só pra abraçar esses pedaços de mim que vivem espalhados pelo mundo. Quer saber? Todo ano é dourado quando termina assim. E todo fim de ano eu confirmo que o encontro compensa a saudade.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Quanta diferença

Todas as histórias já foram contadas - eu adoro repetir isso. A grande diferença está em como elas são contadas. Vinha eu dirigindo ontem quando começa a tocar uma música de Jorge Vercilo (esse rapazinho ainda não me convenceu) na FM Cultura. E tinha um trecho assim:

Não se ofenda
Com meus amores de antes
Todos tornaram-se ponte
Pra que eu chegasse a você

Tá, nada demais. Mas daí que eu lembrei do finalzinho (que é a parte mais linda) de Para uma menina com uma flor, do Vinícius de Moraes: 

(...) eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aleia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

Dá até arrepio de ler. A mesma história, contada de maneira diferente e infinitamente mais bela. 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Pra quem ainda não conhece o inferno, faço questão de descrever:
O belzebu te espera na entrada com uma pilha de cadernetas a serem preenchidas. "Você tem 72 horas pra entregar todas preenchidas sob risco de incidir no artigo 666/01 e ser expulso daqui pro céu"
Enquanto você prepara as malditas cadernetas, sua mente vaga pelas milhões de coisas mais interessantes, ou pelo menos mais produtivas, que você poderia estar fazendo, caso não tivesse um milhão de pontinhos pra ticar. Você dá um tempo no trabalho com as cadernetas e começa a fazer uma outra coisa que também precisa estar pronta em 72 horas - mas você também não consegue terminar. (No inferno, terminar qualquer coisa começada é tarefa que só mesmo o cão consegue realizar!)
Mas não tem nada, não.Você se tanquiliza lembrando que logo mais terá uma festa pra ir, e pra relaxar e pra rir um pouco e pra, quem sabe, se sentir melhor na volta e continuar seu trabalho infeliz. Mas eis que, depois de pronta pra festa, você não vai. Sabe por quê? Porque alguém que se comprometeu com você fez o favor de sumir do mapa. Tipo assim, você precisava da ajuda dessa pessoa e ela, babau! Tomou Doril, escafedeu-se! Que legal gente assim, néam? Típico habitante do inferno. Eles são assim: não cumprem o que combinam, não entendem que outras pessoas dependem deles e, principalmente, preferem que ninguém dependa de qualquer ato deles. E o pior de tudo - você nem sequer pode mandá-los ao inferno porque já é onde vivem!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Nós sempre teremos Paris

Não é bem Paris, nós sabemos. Mas nós sempre teremos um lugar que a gente criou. Mentira. Nós sempre teremos vários lugares só nossos, várias histórias só nossas, várias piadas que só nós entendemos, em nossas muitas conversas madrugada adentro - no Dogão, na calçada daquela escola, no show barulhento, no MSN, no Facebook. Foi isso que você quis dizer com essa frase de Casablanca, não foi? Ah! Mas a gente parece ainda mais antigo que esse filme. "Do cretáceo", foi o que você falou. E na verdade uma das únicas coisas antigas que não cheiram a mofo na minha vida é a gente. Sei lá porquê eu ando mesmo com uma mania besta de novidade. Mas parece que essa entidade chamada "nós" tem o poder de se renovar com o tempo, de deixar entrar ar e arejar as gavetas onde guardamos nossos cacos de vida, ou o que você costuma chamar de caixa de Pandora. Benjamin Button, Peggy Sue, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças... Faz um sentido danado quando a gente fala sobre isso, né? E vem uma certeza tão grande que só entre a gente é possível fazer sentido unir Hollywod a nossa vidinhas banais.
Eita, amigo, que o que me mata não é ser destrinchada assim, não. Me mata é reconhecer no teu olhar uma pessoas que às vezes eu esqueço.Eu queria era me enxergar assim, desse jeitinho que você me vê.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O óbvio que grita aos olhos:

Nada substitui o prazer do encaixe. Essas histórias que vagam soltas e ininteligíveis acabam sendo esquecidas na pilha ao lado da cama. @tati_bernardi, via twitter

E na cabeça Caetano canta: "it's a long way, it's a long way, it's a long long long long long long.. arrenego de quem diz..."

Excesso de confraternização causa curto-circuito.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Por que quando chega dezembro a gente fica mais lenta? Por que quando chove a gente sente preguiça? Por que esse tempinho deixa a gente com vontade de assistir filme, comer pipoca, e só levantar da cama pra fazer xixi? Por que dá uma vontade louca de reler livros que a gente já cansou de saber começo, meio e fim? Por que dá vontade de fuçar nos diários antigos? Por que a chuva me deixa com fome? Por que vem uma sede de chocolate quente? Por que mesmo eu tenho esse milhão de provas pra corrigir e tô aqui escrevendo besteira? Por que mesmo, hein?

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O massacre da furadeira elétrica

- Dona Clarissa, aqui só tem a tubulação de água. Não foi feita a tubulação pros fios de cobre, não.
- Como assim? Eu quis fazer isso durante a construção mas o Ezequiel me ga-ran-tiu que entregaria a casa com as instalações feitas...
- Mas, dona Clarissa...
Sabe aquela propaganda de analgésico que a cabeça da mulher aumenta e diminui e os sons se distorcem? Pois é. Foi assim que eu ouvi a última frase. Entrei no carro e acelerei pela Kennedy. Peguei duas multas lindas e caras, enquando xingava tudo o que via pela frente: a metalúrgica com logo do Metallica, os dois sinais próximos demais um do outro, o Pura Fruta, o Zoobotânico, a ode suprema ao mau-gosto que é aquele motel das estátuas. Eu era o senhor Volante.
Não, eu não matei ninguém. Mas lembrei o porquê mesmo de ter pedido de natal, anos atrás, uma furadeira elétrica. Sim, eu sou a feliz e orgulhosa proprietária de uma furadeira elétrica que ninguém mais pode manusear.
Quando eu ganhei esse presente, tava grávida do Zé Luiz, reformando o apartamento, pintando berço e cômoda, organizando enxoval, trabalhando, cuidado do Pedro, e me estressando todo dia com pintor, pedreiro, marceneiro, bordadeira, e qualquer prestador de serviço adicional. E daí eu simplesmente decidi que eu precisava ter uma furadeira, com vários tamanhos de broca, pra diferentes materiais e propósitos.
- O que diabo tu vai fazer com uma furadeira mesmo?
- Furar, ora!
- Furar quem, homicida em potencial?
- Gracinha... Vou furar a parede, o móvel, o que eu precisar furar, sem ter que contratar ninguém pra me estressar. Simples assim. 
Com a furadeira numa mão e a planta hidráulica do apartamento na outra, saí furando paredes em praticamente todos os cômodos da casa. Inventei prateleiras pro quarto do bebê que ia chegar. Inventei mais varais na área de serviço. "Já pensou como vai ser útil pra secar fralda?" Inventei de pendurar vasinhos na parede da varanda (logo eu que mato até cactos com meu dedo pôde). Inventei de pendurar quadros sem noção pelas paredes da sala. O massacre da furadeira elétrica durou pouco - talvez uns quatro ou cinco dias. Mas os prejuízos à decoração da casa e à sanidade mental dos outros habitantes do Tom Jobim foram bem mais duradouros. Quanto à mim, fiquei bem mais tranquila, e até parei de implicar com os prestadores de serviço.
Pois hoje, em meio à confusão da instalação/não-instalação dos splits, ao quebra-quebra de paredes que já estavam prontinhas e branquinhas, resolvi procurar a tal furadeira no meio das caixas que se reproduzem na casa nova. Abri uma, duas, três caixas, e nada da furadeira. Mas não me contentei. Amanhã vou comprar uma britadeira pra mim. E vou começar a abrir buracos no quintal, no jardim, onde me der vontade. E vou furar até o Japão se for preciso pra jogar esse stress e esse cansaço lá. Eu aprendi faz tempo: o Japão é o lugar onde se joga todo o stress e aborrecimento do mundo - por isso eles são daquele jeito. É bem por isso, sim, que eles são japoneses.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Show é isso

Não, eu não fui pro show do Cojoba's. Sim, já virou tradição: eu compro ingressos pra shows que eu acabo não indo, por um motivo ou outro, quase que da mesma maneira que eu compro livros que eu nunca consigo ler. Eu desisti do show do Paul McCartney com o ingresso comprado no primeiro segundo de pré-venda. Faltou grana ou sobrou bom senso (ainda não decidi qual das duas alternativas é verdadeira). Outro dia eu comprei ingresso pro show do Zeca Baleiro e nem lembro mais porque desisti de ir. Eu comprei uma mesa de 10 lugares pra ir ao show do Cojoba's hoje e desisti. E não só eu, mas cada um dos compradores iniciais da mesa desistiram de ir. Vai entender. Eu tinha um motivo sólido e importante pra não ir. Tontonzinho tá com a garganta que é só pus. De manhã o médico sentenciou: benzetacil nele. Sabe aquela história de que vai doer mais em mim que em você? Pois é, é a mais pura verdade quando as mães dizem isso. Mas como sempre o pequeno guerreiro surpreendeu. Eu sempre achei que se a gente se prepara pra dor ela se mostra menor. Eu não minto e nem faço de conta que não vai doer. Disse pra ele que ele iria tomar uma injeção, que iria doer, mas que ele podia segurar nas mãos da mamãe e do papai, e apertar bem forte, até mesmo quebrar, quando doesse. Antonio, muito altivo, só disse um an-ran desinteressado. (Se fosse eu, teria segurado as mãos, exigido colo, encostado a cabeça no ombro, pedido dengo e ainda sairia dizendo que não foi nadinha e que eu tinha dado conta de tudo so-zi-nha, viu?) A dor venceu a coragem e altivez e ele berrou forte, e eu segurei o choro ainda mais forte. Na volta, ele dormiu no carro, aquele sono de quem acabou de chorar tanto que os olhos salgaram e não conseguem mais ficar abertos. Quando acordou algumas horas depois, disse que o bumbum ainda doía, pra logo em seguida, cheio de vergonha e tentando se justificar, emendar com essa:
- Eu chorei porque tu disse que doía mais em tu, mamãe, e em mim doeu taaaaaanto!
E quem diabo precisa de show do Cojoba's quando tem um espetáculo desses em casa, diariamente?

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

E eu digo é valha!

Eu sei que isso é de uma sem-vergonhice sem fim: o blog abandonado há dias e eu sem coragem de escrever, atolada até a tampa em provas, trabalhos, leituras, orientações, filhotes de férias, providências pra casinha que tá quase pronta, perspectiva (enfim!) de mudança. Salve salve, meu São Jorge, que se sobrar um tiquinho de Cacá depois desse fim de ano prometo fazer enfim a tatuagem do senhor em cima do cavalo lutando contra o dragão, porque do ladinho do leão que eu mato todo dia ainda tem um dragão cuspindo fogo e fedendo a enxofre.
Por hoje fica a Alice Ruiz, que daqui não sai nada nem espremendo.

[minha voz não chega aos seus ouvidos
meu silêncio não toca seus sentidos
sinto muito mas isso é tudo
o que sinto]

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Enfim

Sexta-feira. Êêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêê! (Sim, hoje tô besta. Sim, essa semana foi terrível. Sim, o post de hoje é só isso mesmo.) E viva a sexta-feira!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Alçada

Alçada é um conceito que eu desenvolvi ao longo da vida, mas que só recentemente nomeei, numa dessas conversas de fim de noite com um amigo que gosta tanto quanto eu de criar teorias sobre o mundo e sobre as pessoas - aquelas teorias bestas que não servem pra nada, só mesmo pra gente gargalhar e fingir que o mundo faz mesmo algum sentido. Eu falava da teoria do homem de pochete, ele destrichava a teoria dos bebês mimimi, eu lembrava da teoria do primeiro encontro-desastre, ele discorria sobre a teoria da viagem em grupo. E numa dessas histórias de viagens, chegamos ao meu conceito de alçada. É mais ou menos assim: algumas pessoas (muitas na verdade) fazem parte da minha alçada. E isso significa algo bem simples: mesmo que essa pessoa esteja errada eu SEMPRE vou defender, e se ela se der mal eu vou ajudar, nem que seja a correr. E ponto. Mas a alçada não é algo estático. Existem, sim, essas pessoas que tem permanência perene na minha alçada: filhotes, família, amigos. E existem também alçadas circunstanciais: você vai pra um show com uma turma enorme que inclui amigos, namorados/as de amigos/as, vizinho do namorado e o diabo a quatro. Todo mundo que foi com você, naquela noite, faz parte da sua alçada. E todo mundo fica ligado se alguém for empurrado, se alguém se perder, se alguém nunca mais voltar do banheiro. É uma alçada temporária, digamos. Outro dia, fui pra um show e de lá pra um pub, e minha alçada foi se modificando durante a noite. Lá pelas tantas, uma menina que pouco conheço (mas que estava no mesmo grupo que eu) se viu sozinha às 4h da manhã porque a "amiga" com quem ela tinha ido resolveu seguir um cara até o aeroporto. Botei a figura no carro, pedi a outra amiga que me aconpanhasse e atravessei a cidade pra deixá-la sã e salva em casa. E não é porque eu sou boazinha, não. É só que ela estava na minha alçada naquela noite - e eu queria que agissem comigo assim também, e principalmente com meus filhos, se fosse preciso. E, sinceramente, é preciso realmente saber escolher sua alçada: porque uma figura que deixa a amiga sozinha, sem eira nem beira, de madrugada, pra seguir um saxofonista narigudo, realmente não merecer estar na alçada de ninguém.
Eu tenho a sorte de ter um mundo de gente na minha alçada - essa bolha de proteção, carinho e cuidado que eu invento pra manter quem importa pra mim, nem que seja de forma circunstancial. E tenho mais sorte ainda de ser da alçada de tantas outras pessoas. E de poder, depois de uma chateação imensa, saber exatamente pra que números ligar, e poder receber conforto em forma de palavras, e poder esperar a noite pra receber o colinho que eu merecia. E voltar pra casa leve, sabendo que o que importa na vida é a alçada.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Ela, de novo

Eu nem ia atualizar esse boteco hoje. Tô cansadinha do final de semana. Mas achei um negócio tão interessante no blog da Cristiana Guerra que não resisti copiar e colar aqui. Eu queria ter escrito - parece que é de mim que ela fala.

Ofegante.

Às vezes o que me falta é descanso. O que me escapa é a pausa. Como se em uma distração a vida pudesse fugir. Minha respiração é curta como é rápido o meu pulso. Sempre alerta. A postos para não parar. Ainda mais com uma vida outra batendo fora de mim, um amor de pernas e braços que caminha sem fim pra ganhar o mundo. Tenho fobia do não fazer. E penso tanto, que nem cabe na fala. As 24 horas do dia, dou um jeito de transformar em 30, nem que seja no silêncio da madrugada. A vida sempre me diz "Não tente me controlar", mas eu finjo que não entendo. O que ela quer de mim é coragem, já disse o João. E eu faço de conta que sou corajosa. Mas faço tão bonito, que ela até acredita.

domingo, 21 de novembro de 2010

Sonhos de uma noite de verão

Não gosto de cochilar - os sonhos de cochilos são mais loucos que os sonhos de sono profundo. Meus sonhos são cruéis, longos, loucos, perturbadores e intensos. Meus sonhos me traem e me fazem acordar. E eu nunca consigo decidir se é melhor o sonho ou o acordar com gosto de vida na boca, sem poder vivê-la. Eu cochilei durante o show do Paul. Não, eu não tava no estádio, mas eu cochilei durante o show do Paul na TV. E deve ser culpa dessa lua absurda que tá lá fora, mas meu sonho foi mais louco que todos os outros sonhos que tive na vida. E olha que meus sonhos são piores que qualquer viagem de LSD, que qualquer copinho de ayuhasca que você possa ter bebido. Meus sonhos gritam, berram e se impõem como entidades autônomas. E o dia inteiro lendo Lacan deve ter contribuído pra isso também. E no sonho a analista gritava "você não se mostra faltosa, sua incompetente!" E eu só pensava - porque não conseguia falar, porque sou uma pomba lesa - que eu sou a carência em pessoa, que eu tenho mais falhas e faltas e buracos que um queijo suíço. Mas eu não conseguia dizer nada disso. Eu só ouvia a analista gritando, e quanto mais ela gritava mais altas ficavam as paredes do forte que eu construí pra nunca precisar sair. "E quem quiser que escale, que pergunte, que acredite, que se sinta seguro" Eu pensava, mas não dizia. Na verdade, eu só me encolhia. E que estranho que mesmo dentro do sonho eu tivesse consciência de que sonhava e dissesse pra mim mesma: "Isso é só um sonho, não se assuste. Você não é de se acovardar. Levanta, vai. Levanta e grita. Levanta!" Mas eu não levantava. No sonho, como na vida, eu precisava pisar firme, sentir chão, pra ter empuxo e pular. "Mas você é o chão, querida", dizia a rainha de copas. Por-ra ne-nhu-ma! Nunca mais quero ser o chão. Quem quiser que seja firme e aguente. E Sargent Pepper's começa a tocar e eu abro os olhos mas mesmo assim não paro de sonhar. Porra é essa, hein? Ainda bem que amanhã é segunda-feira. E Drummond sabe, né: "Hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será. Inútil você resistir ou mesmo suicidar-se"

sábado, 20 de novembro de 2010

Só por isso mesmo

Porque hoje é sábado, o bom humor sussurou no meu ouvido. Porque susussuros são sempre mais fortes que gritos, eu acordei cheia de energia. Porque São Pedro me presenteou com uma amanhecer nublado, eu acordei feliz. Porque ontem eu vi o outono japonês via internet, senti um frio bom. Porque eu ouvi e vi minha amiga que tá tão distante, eu me senti tão bem. Porque eu vi sete pintos pulando num espetáculo teatral, eu sorri. Porque eu conversei besteira a noite inteira, acordei com a barriga doendo de tanto gargalhar. Porque palavras chegaram, eu me senti aquecida e guardei cada fonema pra mim. Porque eu não sei disfarçar, ri baixinho de contentamento olhando o celular. Porque hoje é sábado, eu respiro felicidade.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Bléu

Havaí era o nome do sítio da tia Lília, diretora do INEC, colégio onde eu estudei quando era criança. Todos os anos o colégio promovia passeios pro Havaí, e todas as crianças esperavam ansiosas pelo dia-de-lazer. Mas teve um ano que eu não pude ir. Cortei meu pé pela enésima vez no raio da bicicleta vermelha do Ziza e meus pais não acharam conveniente me mandar pra um lugar cheio de terra. Pois bem. Foi preciso muita conversa, adulação, promessas de um dia incrível em casa, pra eu finalmente aceitar que eu não iria e que isso não era a maior tragédia do mundo. Do alto dos meus quatro ou cinco anos me conformei em perder a diversão. Mas no dia do tal passeio, vi minha mãe arrumando os lanches dos meus irmãos, organizando as mochilas, e uma coisa ruim começou a crescer dentro de mim. No dia seguinte bem cedo, vi os meninos saindo de casa com o papai pra pegar o ônibus que sairia da escola em direção ao Havaí. E abri o berreiro. Aliás, acho que abri um dos maiores berreiros da história. E de nada adiantava minha mãe dizer que já tinha conversado comigo sobre isso, que eu tinha entendido direitinho, que eu já era uma mocinha, e todas essas coisas que os pais dizem aos filhos pra eles se sentirem culpados pela própria tristeza. Nada adiantava pra me consolar. E durante um bom tempo, toda vez que eu ouvia o nome Havaí me dava um nó na garganta porque TODO MUNDO foi mas eu não. E eu não participei das brincadeiras, nem do banho de piscina, nem vi o menino de olhos puxados chamado Leonardo se perder mais uma vez, nem a Raquel chorar com saudades da mãe. Eu simplesmente não participei.
Pois hoje eu tô do mesmo jeito, mas sem o berreiro. Voluntariamente fui deixar meus amigos no aeroporto pra ir pro show do Paul McCartney. E descobri que a sensação de que todo mundo vai se divertir menos eu é bem facinha de acessar. Só que dessa vez não teve corte no raio da bicicleta nem pai ou mãe pra escolher o que era melhor pra mim. Eu mesma tive que me proibir de gastar essa grana. E é por isso que ainda me sinto mais incomodada. Eu mesma podei minha diversão. E por isso não deveria ter direito nem à inveja. Mas a invejinha e a vontade de ir tão no corpo tooooooodinho! Humpf pra vocês que nesse momento estão no avião. Mil humpfs! Bléu pra vocês!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Uniformes, Buenos Aires, Paul McCartney

A pedidos. Vai que é tua, Denise.

- Vela o quê?
- Velez, Cacá. Velez Sarsfield.
- OK, então.
Eu nunca tinha ouvido falar desse time, mas qual a novidade? Conheço Vasco, Flamengo, São Paulo, Palmeiras, uns dez Atléticos (todo estado tem um, é?), River, e só. Ah! Conheço o Galatasaray (eu tinha uma camisa laranjona desse time turco, e adorava dormir com ela quando fazia frio.) Da Argentina eu sabia que existia o Boca e o Riverplate. E só. Reconhecendo minha ignorância futebolística, peço que me mande um torpedo com o nome do time di-rei-ti-nho.
Torpedo enviado, desligo o celular e embarco rumo a Buenos Aires (mas não sem antes conhecer a ponte estaiada de Imperatriz e passar horas tomando chopp no aeroporto do Rio).
Mal chegamos a Buenos Aires, entendemos que a missão não seria tão simples assim. Maxi faz cara de quem ouviu alguma loucura quando lhe perguntamos sobre onde comprar a camisa. E emenda, com seu sotaque portenho:
- Velez? Velez Sarsfield? Quem diabo torce por esse time? Eles têm dois torcedores: um aqui em Buenos Aires e o outro deve ser esse louco que quer a camisa!
Tudo bem. Ainda é o primeiro dia. Já entendemos que o time não é lá tão popular, mas não deve ser tão difícil assim achar a camisa, néam?
Engano. Era difícil, sim. Em cada loja que perguntávamos os vendedores repetiam a expressão de espanto do Maxi. E ainda emendavam: "pero tenemos el uniforme de Boca y también de Riverplate". "Muchas gracias, pero ahora solamente quiero Velez!"
Assim, passaram-se quatro dias. E eu já começava a pensar que aquele pedido era uma trote pra me botar pra caminhar de besta. Encontrar a camisa virou uma questão de honra. Entre várias informações desencontradas, fomos a n lojas, compramos de um tudo, mas uniforme do Vélez que é bom, nada!
No último dia, que era o mais importante, afinal teríamos o lançamento do livro à noite, vínhamos no táxi já conformadas e pensado em algo que pudesse substituir a camisa inexistente. Quando de repente Grosélia me cutuca:
- Bee, estamos no tal Lavalle!
- Hein?
- O bairro que a Didi falou que pode ter o uniforme.
- Mas a gente vai se atrasar pro lançamento...
- Bora descer, Bee. Depois a gente pega o metrô que é rapidinho.
Descemos e, logo na primeira loja, o vendedor arregalou os olhos com a mesma expressão do Maxi, ao ouvir nossa pergunta. Mas o fato é que eles tinham, sim, o uniforme. Êêêêêê! O cara provavelmente não vendia uma camisa daquela fazia muuuuuito tempo, porque foi rapidinho perguntando tamanho, buscando no estoque, embrulhando, recebendo dinheiro e dando tchau.
Voltamos pra casa correndo. Nos arrumamos correndo. Atrasadas para o lançamento, mas felizes com o uniforme, chegamos à FUNCEB, apresentamos o filhote, respondemos perguntas, autografamos. De lá seguimos pra jantar e adivinha qual time estava num quadro lá em cima na parede do restaurante? O Velez, vencedor da Taça Quilmes de sei-lá-que-ano.
No dia seguinte, hora de voltar pra casa. Enquanto espero o fim dos procedimentos de bordo no avião São Paulo-Brasília, checo mensagens. E encontro o torpedo de dias atrás com o nome do time - e a indicação clara e em bom português: "Uniforme dois".
- Beeeeeee, comprei a camisa errada! Era pra ser o uniforme dois!
- Como assim?
- Compramos o uniforme um! Puta que pariu!
Tarde demais pra pensar em qualquer outra coisa, resolvi que iria vestir aquele uniforme enorme com um cinto, como se fosse um vestido, e ainda dizer que era moda na Argentina. Ou não. "Quer saber? Caminhei tanto pra achar essa camisa. Vai ser ela mesma."
Chego em Teresina depois da meia-noite, cansada, arrasada e decepcionada com minha burrice em nunca ter lido a segunda linha da mensagem. Ainda no aeroporto, sou saudada com a informação de que deu tudo certo com os ingressos do show do Paul McCartney. E devolvo em resposta, com minha melhor cara de choro, que eu comprei o uniforme errado do Velez.
- Tem nada, não. Besteira...
- Mas por que mesmo tinha que ser o uniforme dois?
- Porque é tricolor...
Ah, não! Agora sim vi a besteira que fiz em trazer a camisa branca e azul! Mas a justiça divina não tarda. Como castigo dos céus, não vou mais ao show do Paul McCartney. (Tá, vou parar de drama. Contas a pagar tá longe de ser castigo divino. Mas mudança passa é perto, viu?)
Só um pequenino aviso aos quatro amiguinhos que vão estar lá: façam o favor de não twitar do show. Alías, quando voltarem, sumam das minhas vistas por pelo menos uma semana. E só voltem a falar comigo quando esgotarem aquelas conversinhas de "... e naquela hora que ele cantou tal música?" Óu quei?

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Crise Criativa

Segunda-feira. 9h da manhã. UFPI. Celular toca.
- Alô. Clarissa , aqui é a Fulana da emissora tal. É que a gente tá querendo ver aquela matéria sobre o ENEM...
- Hein?
- A matéria que saiu hoje no Bom Dia...
- Ah! Olha só, você deve tá querendo falar com a Clarissa Castelo Branco, da Clube. Eu sou a Clarissa Carvalho.
- Ô, desculpa, tá?
- Sem problema. Esse é um engano comum. Ó, o telefone dela é xxxxxxxxx.
- Nossa, obrigada.
- De nada.

Quarta-feira. 14:30h. Casa. Celular toca.
- Alô, Clarissa. Tudo bem? Aqui é Fulano do órgão tal. É que eu queria saber se você tem o contato do personagem da matéria tal que saiu ontem...
- Oi, Fulano. Desculpa, mas você ligou errado. Eu sou a Clarissa Carvalho. Você provavelmente deve tá querendo falar com a Clarissa Castelo Branco, da Clube.
- Clarissa Carvalho? Cacá? Ei, menina, tudo bem? Sou eu, Fulano.
- Criatura, tudo bem? Como é que tá? Etc e tal. Quer o telefone da Clarissa? É xxxxxxxxxxx.. Bj. Tchau
- Bj, Tchau.

Sexta-feira. 15h. Casa. Celular toca.
- Clarissa, tu já tá no balé?
- Anh? Balé?
- É a Débora que tá falando. Tu já chegou?
- Oi, Débora. Aqui é a Clarissa Carvalho que tá falando. Não sei quem é essa Clarissa aí do balé, não, mas tenho certeza que não sou eu!
- Ô, professora, desculpa. Eu ia ligar pra minha aluna do balé...
- Sem problema. Bj. Câmbio desligo.

Conclusão da semana: sua vida é um completo clichê quando até as ligações erradas são óbvias. Definitivamente o roteirista da minha série está sofrendo uma crise criativa.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Tudo melhora com o tempo

O lançamento do filhote no CEUT foi muuuito bom. E só corroborou com minha tese de que tudo fica melhor com o tempo. As primeiras vezes são sempre esquisitas. O lançamento do SALIPI foi estranho, chato e endless. O lançamento do Palácio da Música foi um nervosismo só e eu não sabia onde botava minhas mãos ou o que fazia com os olhares que recebia. O lançamento na Santo Agostinho foi bom, a gente começou a se soltar. O lançamento em Buenos Aires já foi melhor. Mas hoje no CEUT estávamos as três bem mais tranquilas. Sabe aquele repouso de voz que eu sou obrigada a fazer? Pois é, fiz não. Me empolguei com o fato que vários alunos meus estavam ali assistindo e danei a conversar, e quase o bate-papo não acaba pra banda do Marlonzinho começar a tocar. Foi muito bom, gente. Era isso o que eu queria dizer. Estamos ficando menos duras ao falar do nosso livrinho, né?
A noite só terminou com uma nota triste: achei um comprador pra meu ingresso do show do Paul McCartney. Agora é oficial: vou não. Só espero que ele não morra ano que vem e eu nunca tenha a chance de vê-lo, né?

Novo lançamento

Hoje à noite, a partir das 19h, lançamento do livro M³ - Mulher, Mãe, Moderna, na Semana de Comunicação do CEUT. Eu, Elizângela Carvalho e Josélia Neves vamos bater uma papo sobre o livro, sobre a coluna, sobre a vida de M³ e sobre o que mais vocês quiserem falar. (O médico vai me matar se souber que eu pretendo falar tanto assim!) Ah! E se você estuda comunicação, aproveita e passa antes no GD Ética na Comunicação, onde eu e Cristiane Portela estaremos discutindo esse assunto polêmico e que alguns até acham que não existe. O GD começa às 17h, lá no CEUT. Vai lá, vai.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Shhhhhhhhh

- Bichinha, dois calos, viu? Acho que dessa vez você vai pra faca.
Foi isso que o adorável médico me disse enquanto eu vomitava, depois de fazer a videolaringoscopia.
- Como assim, dr.? Não dá pra fazer fono?
- Até daria. Mas você tem que fazer repouso de voz, e levar as sessões a sério. Você já me disse na consulta passada que não tem tempo pra frequentar fono e nem condições de fazer repouso, né?
É, eu disse. E disse o mesmo dois anos atrás quando fui parar no mesmo médico pelo mesmo problema: começo a semana cheia de voz, e depois vou perdendo aos poucos, a ponto de não conseguir nem cantar baixinho pros meninos dormirem. Na sala de aula, tusso o tempo inteiro. Eu sei, isso é mau uso da voz. Eu fiz fono um tempo, eu aprendi a respirar e a impostar a voz. Eu me senti ótima e dona de uma voz potente. Até tudo voltar agora.
Ao longo da conversa com o médico, entendi que a frase inicial dele era puro terrorismo: posso, sim, recuperar minha voz sem entrar na faca. Mas vou ter que dar um jeito de usá-la o mínimo possível. Visto que sou professora, não sei como farei isso. Visto que eu sou tagarela, acho que vou enlouquecer. Eu falo o que eu penso e o que não penso. Eu falo o que sinto quase sempre. E quando não falo é mau sinal. A verdade é que eu falo muito e o tempo todo. Achando pouco falar o dia inteiro, ainda falo dormindo. Como é mesmo, doutor, que eu faço pra ficar calada?
Combino de voltar na próxima semana e marcar as sessões de fono. E prometo beber água durante as aulas, usar a voz o mínimo, pendurar um patuá gigante no pescoço, fazer promessa pra Nossa Senhora Desatadora dos Nós, desde que eu não precise entrar na faca.
Quando eu já ia saindo do consultório, o médico lembra:
- Bichinha, faça silêncio, viu?
Eu faço, sim, doutor. O senhor nem imagina o tanto de calos que essa história de falar demais tem me causado. O senhor nem imagina. Agora eu quero é ficar bem caladinha.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Pecado capital

Eu ODEIO a Cristiana Guerra. Simples assim. Eu odeio que ela escreva tão bem. Eu odeio ter me tornado refém do que ela escreve há anos atrás. Quer saber por quê? Pois lê aí, lê. Parafraseando Validuaté, "isso ainda vai render uma manifesto pela má distribuição do bem escrever".

Quero vestir o seu abraço e sair com ele por aí, como um colete à prova de balas. Abraço longo, apertado, quente. Quero mais, me abrace mais. Mais um pouquinho. Vai sempre faltar abraço pra minha sede dele.

Sei que dentro de você moram sorrisos. Alguns você deixa escapar, os outros esconde no escuro, pra eu procurar. E eu gosto do jogo.

Mentira. Eu a-do-ro tudo o que ela escreve. Isso é inveja, minha gente. Inveja demaaaaaiiiiiiiiis! Inveja que até dói!

domingo, 7 de novembro de 2010

Registrado

Não, hoje eu não vou fechar o domingo com música. Internet lenta demais pra isso. (Mas recomendo, sim, o que tenho ouvido a semana inteira: Validuaté. Compre o disco, cante alto, ria dos inúmeros exemplos de piauiês nas letras das músicas, dance. Tenho feito isso há dias. E recomendo.) Hoje vou aproveitar pra fazer uma coisa que há dias prometo: tá aí o link do álbum organizado pela Grosélia, com nossas fotos de Buenos Aires. Melhor que as fotos são as legendas que ela criou. Divirta-se. Eu me divirto só de rever e lembrar.
http://picasaweb.google.com/joselianeves/BuenosAires#

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

[minha vida que não me ama.
minha amada que nunca vai me amar.
seduzo as duas]

Kerouac

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Rosa

É que ontem foi aniversário de uma pessoinha de um metro e meio que eu amo. É que hoje eu fui pra sua tradicional festa surpresa que de surpresa não tem mais nada. É que nesses anos em que nos conhecemos ela tem alternado os papéis de mãe postiça, amiga, apoiadora incondicional e dona da minha admiração irrestrita. É que ela tem um jeito parecido com o meu de se emocionar por coisas pequenas, e encheu os olhos d`água ao receber meu abraço. É que ela é tão diferente de mim em tantas coisas, mas tão idêntica no que mais importa no mundo: a disposição em defender e cuidar dos seus. É que ela tem sempre os melhores e os piores conselhos pra dar, e o grande lance é saber onde encaixar o conselho do dia, porque ela SEMPRE tem conselhos, até mesmo quando eu não peço, não quero, não preciso. É que ela me quer um bem desgraçado e eu a ela. É que ela é uma rosa.

(Sim, coleguinhas Wizard, podem dizer que tô puxando o saco da chefinha. Essa conversa já é tããão antiga...)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Cacá in a box

Encaixotar a vida é tarefa ingrata e cansativa, mas também libertadora. Esses dias encaixotei lembranças, pedaços de vida, fraldinhas bordadas, sorrisos. Guardei com carinho fragmentos de felicidade, trechos de músicas ouvidas na varanda, calor de amigos à minha volta na cozinha, passinhos incertos pelo corredor, planos e sonhos. Joguei fora dores, mágoas, e qualquer restinho de tempero amargo que ainda estivesse num canto escondido do armário da cozinha. Ao separar o que eu queria do que eu não levaria comigo, acabei produzindo mais cacarecos: uma certeza cega de que tudo vai ficar bem, uma coragem pra seguir, uma sensação de ser invencível, e uma felicidade que não consigo reconhecer de onde vem. Tá tudo aqui guardado. E é com esses cacarecos e bugingagas que vou entrar na minha nova casinha. Lembrando sempre a mensagem que uma amiga me mandou meses atrás, sigo feliz com os filhotes para construir entre aqueles tijolos nosso novo lar:

"Cacá, sinto que casa nova, tijolo e reboco com certeza vão te trazer muita felicidade. É minha sensação e desejo que assim seja... encaixotar e levar só o que interessa é um exercício poderoso! um beijo."


P.S.: Muitíssimo obrigada a Mu, Beth, Ostiga, Lasanha. Sem vocês a mudança teria sido não só mais difícil, mas praticamente impossível. Agora é aguardar a hora da lavagem de sal grosso na casa nova.

domingo, 31 de outubro de 2010

Ask me

Fazia tempo que eu não fechava o domingão com música. Hoje deixo aqui uma das melhores músicas dos Smiths e que vem tocando no meu carro há umas duas semanas. E ainda vai de lambuja a dancinha mega sexy do Morrisey.(Aviso aos meninos que andam por aqui: a dancinha é sexy apenas quando executada pelo Morrisey. Por favor, não tentem fazer isso em casa!)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Apud do apud do apud

[Half of what I say is meaningless but I say it so that the other half may reach you]

Khalil Gibran, usado por Lennon in Julia, citado por Biá Boakari no Twitter, tocando sinos aqui dentro

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

.

Tem gente que é ponto de luz – ilumina e irradia calor, na escuridão ou não. Tem gente que é ponto de interrogação. Tem gente que é ponto simples, tem gente que é ponto cruz. Tem gente que sempre pontua. Tem gente que é pontual. Tem gente que desaponta. Tem gente que desponta. Tem gente que aponta e gente que apronta. Tem gente que é dois pontos, que se abrem em surpresas. Tem gente que é ponto de exclamação. Tem gente que é ponto G. Tem gente que pontua o alfabeto. Tem gente que é ponto fora da curva. Tem gente que é ponto de sutura. Tem gente que é o exato ponto entre a sanidade e a loucura. Tem gente que é ponto de equilíbrio. Tem gente que é sempre três pontos. Tem gente que é ponto de fuga. Tem gente que é ponto de encontro. Tem gente que é só mais um ponto. Tem gente que passa do ponto. Tem gente que só serve ao ponto. Porque toda a gente, no final das contas, é ponto, ponto, ponto. E eu? Eu adoro gente. E ponto.

Chuva na Chapada do Corisco

quando chove assim
todo dia fica com cara de antigamente
e cada gota é um prisma
enchendo de cor a alma da gente

é o céu chorando,
desaguando, limpando
e agente aqui embaixo
querendo se desaguar também

quando chove assim
as lembranças
lavam a gente por dentro,
de dentro pra fora:
tripas, víceras, coração


(Tentei, Anucha)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Enquanto isso na sala de justiça...

Nem doida nem santa. Nem de esquerda nem de direita. Nem nunca jamais em cima do muro. Frágil, não. Isso eu não sou. Escalo degraus sem nem sentir. Caio, me arrebento, levanto e assumo que dói pra caralho. E ainda consigo fazer graça de mim. Longe, muito longe da ilusão de ser sempre a mesma, completa e perfeitinha. Tô dispensando a coerência. E passei da fase de apenas me aceitar assim - na verdade hoje amo minhas incoerências e transitoriedades. Cansei de fingir força e é bem por isso que me sinto incrivelmente invencível. Troquei a fantasia de Mulher Maravilha pela pele da Mulher Elástica. E tem me servido bem.

domingo, 17 de outubro de 2010

Coragem

Eu já falei antes que minha irmã é um anjo na terra. Em um domingo difícil, de um humor esquisito, paciência zero e pequenas frustrações acumuladas, recebo um e-mail que trazia, além de suas palavras, as de Guimarães Rosa traduzindo a gangorra da vida, e lembrando que coragem é o que nunca pode faltar. Aqui não falta não, mana. Coragem temos todos aos montes. E pode vir quente que eu estou fervendo, vida.


"O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem"

(Guimarães Rosa)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Porque uma imagem vale mais...

É assim que se brinda à felicidade.
É assim que se brinda à melhor companhia do mundo pra viajar.
É assim que se brinda ao lançamento internacional.
É assim que se brinda ao reencontro depois de quase dez anos.
É assim que se brinda às conversas de amigos antigos, o retorno ao que foi vivido juntos.
É assim que se brinda à acolhida digna de hotel cinco estrelas, mas com afeto de família.
É assim que eu quero sempre brindar.

De volta, mas rapidinho

Viajar é bom demais. Voltar pra casa é melhor ainda. Ter que se empacotar toda pra me mudar é assustador. Nem sei quando posso voltar aqui de novo, mas vou tentar. Muito, muito, muito a contar sobre Buenos Aires, sobre o lançamento do livro, sobre as viagens internas. Mas não hoje.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Boca da Noite

na calada          em silêncio
grandes               lábios
 se abrem         em sim
 
Alice Ruiz

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Bate papo literário

Sabe que mãe adoooora falar sobre seus filhotinhos, né? Pois hoje à noite Elizângela Carvalho, Josélia Neves e essa blogueira que vos fala estaremos conversando sobre nosso filhote, o livro M³ - Mulher, Mãe, Moderna. Vai ser a partir das 19:30h, na Praça de Eventos do Teresina Shooping. Vai lá, gente! Vamo bater papo, vamo?

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Time completo

Pois num é que quando a gente nem pensava mais que o dream team fosse viajar completo pra Buenos Aires, o imprevisto aconteceu e a Danda vai também? Eu disse - ninguém sabe o que o calado quer! Então vai ser assim: lançamento portenho do livro M³ - Mulher, Mãe, Moderna na Fundación Centro de Estudos Brasileiros, comigo, Danda e Grosélia. Coisa boa é surpresa boa! E manda as ruins pra puta que pariu!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

diz aí

Eu só queria dizer que às vezes eu fico sem palavras. E que esse emudecer é uma das coisas mais lindas que podem me acontecer. É só que eu - verborrágica antes mesmo de aprender a falar - fico assim perplexa de não conseguir me articular. E adoro essa falta do verbo, esse embaraço raro, esse não saber onde pôr as mãos (no bolso? no cigarro? na bolsa? cadê meu celular?). Sou eu mesma? E que bom se não for, né não? E melhor ainda se for mais ainda de mim nascendo.

domingo, 3 de outubro de 2010

Apurando

Pra me despedir do apartamento: amigos, violão, tacos, cantoria. Pra não dormir, boa companhia. Pra acordar, bom dia. Pra espantar o cansaço de um noite pouco dormida, sorriso de orelha a orelha. Pra almoçar, macarronada improvisada. Pra votar, papito. Pra boca de urna, picorruchos. Pro calor da sessão eleitoral, encontro. Pra estressar, apuração pela internet. Pra não conseguir acompanhar os resultados, Divulga 2010. Pra domar a tensão, escrita. Pra não roer as unhas, dedos ocupados no teclado.

sábado, 2 de outubro de 2010

Ela disse e eu queria ter dito

Na verdade a única coisa que estou sempre esperando e querendo é ir embora. De todos os lugares, de todas as pessoas. Eu não estou esperando nada a não ser o tempo todo sair de onde eu estou. 

Foi a Tati Bernardi que disse, mas bem que poderia ter sido eu.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Desidratando

Pois pronto, agora vou confessar: sou uma chorona convicta. Ou melhor, tornei-me uma adepta das lágrimas: pra desaguar a tristeza, pra comemorar a felicidade, pra celebrar a beleza. De uns tempos pra cá venho chorando por tudo. Mas acho que hoje bati meu próprio recorde. Passei o dia pensando na colação de grau dos meus alunos que aconteceria à noite. Por dois motivos essa colação vinha mexendo comigo: por ter sido uma das professoras escolhidas para serem homenageadas pela turma (isso SEMPRE me emociona), e também por causa de uma menina que eu adoro, minha orientanda linda, que vem passando por uns percalços sem baixar a cabeça, de um jeito que eu nem sei se eu saberia ensiná-la, mas que ela jura que aprendeu comigo.
À tarde eu estava fazendo as unhas no salão e uma dessas criaturas ultra-comunicativas que habitam esse tipo de ambiente começou a conversar comigo e a perguntar aonde eu iria à noite. Eu tentei três vezes dizer que ia a uma colação, mas toda vez minha voz embargava no meio da frase. Eu sei, eu não sou normal. E nem é TPM.
Á noite fui pra tal da colação. Ainda bem que não sei me maquiar mesmo porque senão teria estragado todo o trabalho: chorei baldes e baldes durante o discurso da minha orientanda. Fui embora leve e feliz. A caminho de casa, começa a tocar "Wonderwall" do Oasis, e eu cantei e chorei, achando tão linda essa música que eu escolhi pra ser minha anos atrás, embalada por sentimentos que nem sequer existem mais. Outra música começa a tocar e meu celular dispara a tocar também. Um amigo me liga contando que tinha acabado de ler um livro que eu tinha comentado, e que, sim, eu deveria ter escrito tudo aquilo. Tá bom, é sempre possível exercitar os dutos lacrimais mais um pouco. "O que aconteceu?  Por que diabo tu tá chorando, criatura?" Nada aconteceu, querido. É só que quando a beleza invade minha vida assim eu fico assustada.
Isso devia ser o suficiente pra um dia, né? Mas quando eu chego em casa, encontro um e-mail da amiga dominicana que não vejo há quase uma década e com quem sonhei essa semana. "Puta que pariu, essa saudade eu tinha guardado em alguma gaveta! Não basta as que eu sinto diariamente?" E haja lágrimas pra ler seu longo e significativo e-mail, pra lembrar nossas conversas no banquinho da OIC, pra visualizar direitinho seus gestos estúpidos quando reclamava da minha dureza. Ah, se ela soubesse o quanto amoleci de dez anos, dez meses pra cá... Amadurecer deve ser isso, né?

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Ciber divagações

Eu adoro o ciberespaço. É o não-lugar mais legal do mundo, na minha opinião. Poder continuar conectada às pessoas, ao mundo, ao que acontece fora desse escritório, enquanto estudo, trabalho, escrevo é pra mim um grande barato. Outro dia eu tava escrevendo um artigo pra um congresso - ops! - eu tava na verdade editando um Frankstein enquanto conversava no MSN. É muito, mas muito mais divertido trabalhar assim. Eu preciso, tenho necessidade mesmo de fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. E poder escrever enquanto converso, navegar enquanto estudo, falar besteiras e não-besteiras enquanto produzo é o céu pra mim.
Além de que eu sou a pessoa mais gregária que existe: preciso de gente perto de mim, de muita gente, de barulho, de calor, de interrupção. Não funciono no silêncio e tenho um medo horrível de solidão. E a sensação de que tem pessoas bem ali à distância de um clique me deixa mais tranquila.
Mas tem uma coisa engraçada: eu nunca, nunquinha fiz amigos na internet. Eu, a própria miss sociabilidade, nunca tive um único amigo virtual. Na verdade, na internet me relaciono com as pessoas que já fazem parte da minha vida, mesmo que muitas delas permaneçam muito mais no ciberespaço que no mundo offline. Mas deve ser mesmo porque eu sou muito de pele, de olho, de cheiro. Sempre escolhi meus amigos assim, mesmo que de maneira inconsciente: pelo que me fazem sentir, pela companhia que me faz bem, pela conversa que me faz abrir o coração, pelo cheiro, pelo olhar que me conforta ou me desconcerta.  E nisso o ciberespaço é (ainda) falho. E agora, boa noite pra meus amigos offline que andam por aqui.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Tem que ser selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado, se quiser voar

Todo mundo adora dizer que detesta burocracia. Já virou um daqueles clichês que nem precisam mais ser repetidos. Duvido que alguém chegue numa roda e diga: "adoro ir à Secretaria de Fazenda/DETRAN/cartório pra resolver pepinos" ? Pois é, como todo mundo, eu também odeio ter que resolver essas coisinhas. Mas acho que no meu caso chega a ser uma coisa patológica, quase uma fobia de repartição pública.
Passei mais de três anos com minha carteira de motorista vencida, por pura preguiça de ir renovar. Tá, não era só preguiça, não. A certeza da impunidade também era uma grande estímulo. Durante todo esse tempo dirigi por Teresina sem que ninguém me parasse em blitz por causa das mágicas cadeirinhas de bebê que carrego no banco de trás. Sabe como é que é, né? Mãe de família = pessoa do bem. Além disso eu tenho uma mandinga da capa de Abraão que funciona que é uma beleza, e uma cara limpa pra ser a primeira a parar na blitz, sem que me mandem parar. Mas um dia nada disso funcionou. Eu tava no carro do meu pai (sem cadeirinhas mágicas, portanto), vestida de She-ra, a caminho de uma aula da saudade. Pois bem na frente do Jockey uma blitz me parou. E eu com a cara mais séria possível de mãe de família, montada de She-ra, com direito a tiara na cabeça e tudo. E quando eu finalmente encontrei o documento do carro e mostrei ao guarda, ele resolveu me deixar passar sem cobrar minha habilitação, mas não sem a piadinha: "Da próxima vez, venha no cavalo alado que não precisa ter carteira!" Então tá, seu guarda, vou fazer assim da próxima vez!
Agora tô enrolada com três documentos ao mesmo tempo. Tenho que tirar a segunda via do meu título de eleitor, porque agora resolveram que precisa dele pra votar. Tenho que tirar passaporte (que venceu) ou R.G. (que tem mais de dez anos de emissão e não serve pra entrar na Argentina). Pra tirar o passaporte, preciso ter o título, que eu não tenho ainda. Vou tentar amanhã tirar o R.G. Mas que saco isso, né? Podia ser tudo nas digitais e pronto!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

[de tanto não poder dizer
meus olhos deram de falar
só falta você ouvir]

Alice Ruiz

Chatinha

Ora mais, o meu domingo foi ótimo. O dia todo de molho na piscina com as crianças, na companhia de amigos. A noite do domingo era só pra estudar mas - ora mais - ainda teve recreio com direito a sorvete do Pura Fruta e Diamante Negro guardado pro dia seguinte.

E, ora mais, eu dormi cedo e bem. Acordei cedo e mais lenta que o normal. Hoje eu passei o dia entre mau humorada e slow motion. Não sei se foi o calor da sala de vídeo do DCS. Não sei se foi o DVD que não funcionava. Não sei se foi o Zezinho que resolveu não abrir a xérox hoje. Não sei se foi a eletricidade que resolveu dar pane na Santo Agostinho. Não sei se foi o frio na barriga da confirmação do bate papo literário no Teresina Shopping. Ora mais, isso devia era me deixar feliz. Sei o que é, não. Só sei que não respondo mais pra ninguém que não, eu não tô na TPM porque eu não tenho TPM. Tem dia que eu fico assim infarenta, com preguicinha de viver. Óu quei?

Freezer

Em cada isopor, uma etiqueta: paixão, ódio, amor, paz, festa, ternura, saudade. Dentro de cada um, um coração. Trocado por ela ao sabor da conveniência. Difícil era voltar pra casa com o coração-paixão quando queria ter levado o coração-desprezo. Mas estava providenciando uma bolsa térmica.

(André Gonçalves. Coisas de Amor Largadas na Noite)

sábado, 25 de setembro de 2010

Sábado com Paralamas

Sim, eu sei que o vídeo é de péssima qualidade técnica, tá sem sincronia e ainda tá cortado no final. Mas vale pela música e pela prova de que o tempo deixa a gente bem melhor - como era esquisito o Herbert Viana na década de 80!

Apologizing

Eu até que acordei cedo e ainda consegui pegar o bonde andando. Eu até que acordei bem disposta e sorridente, mesmo sendo ainda tão cedo. Eu até que queria parar por aqui mais um pouquinho e escrever umas coisas que eu venho pensando. Mas tem tempo, não. O tempo ruge e a Sapucaí é grande. E só posso é pedir desculpas para meus queridos leitores que andam reclamando da falta de atualização. Vocês tem toda razão em reclamar. E eu garanto que na próxima semana eu me organizao pra estar mais presente aqui. Ah! E eu ainda acordei cantando Validuaté: "chove chuva chove chuva! chove chuva chove chuva!"

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Bom dia com Leminski

pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

13

Era uma vez uma menina que gostava de assistir a procissão de São Pedro, com seus barquinhos coloridos. Era uma vez a mãe da menina que contava a história do Pedro Pescador, e que a menina pedia sempre pra repetir. Essa menina adorava chuva e raio, e sempre visualizava São Pedro mexendo em alavancas, sentando numa cadeira de espaldar alto, toda vez que se anunciava chuva na Chapada do Corisco. E era uma vez um tal de Monteiro Lobato, que criou um menino chamado Pedrinho, que vivia no Sítio do Pica-Pau Amarelo e tinha uma irmã de nariz arrebitado como o da menina.
Era uma vez um susto. E uma alegria sem medida. Era uma vez um filho na barriga. Era uma vez a certeza de que ele só podia ser Pedro. Era uma vez um choro alto. Era uma vez um menino vermelho de dedos roxos. Era uma vez o maior amor do mundo - era invasão de amor entrando em todos os poros. Era uma vez a perplexidade - e existe amor assim?
Era uma vez uma menina que virou mãe e mulher. Era uma vez um filho que já nasceu adulto. Era uma vez a necessidade de ser sempre melhor pra ele. Era uma vez a certeza de que o aprendizado seria constante.
E é agora o menino que toca guitarra, que anda de skate, que emociona a mãe com suas palavras bem escritas. É agora o menino cuidadoso e preocupado, que chegou a oferecer à mãe as mesadas guardadas pra ajudar no tratamento do irmão. É agora o menino pirracento e de gênio difícil, igual ao da mãe. É agora o aluno exemplar, mas que não é CDF. É agora o menino argumentador, pra quem tudo tem que ter uma explicação. É agora o menino que joga um futebol de encher os olhos. É agora o menino com quem a mãe adora conversar. É agora o menino que divide com a mãe a paixão pelo mar. É agora o menino que quer liberdade e a mãe que não sabe como dar. É agora, oficialmente, o adolescente. E a mãe ainda tentando aprender como é que se cria gente que já nasceu criada. Parabéns, Pedroca.

domingo, 19 de setembro de 2010

Bom dia pra quem?

Além de dinâmica, folclórica e levemente frenética, naquele momento a vida lhe pareceu também excessivamente colorida. Caio Fernando Abreu


Bom dia pra você que acordou cheio de energia no domingão. (Mentira - odeio gente que acorda cheia de energia, especialmente no domingo.) Bom dia pra você que tem certeza que o roteirista que escreve sua série anda tomando umas coisas esquisitas. Bom dia pra você que só consegue definir a noite de ontem como surreal. Bom dia pra você que esqueceu as suas falas e teve que improvisar da pior maneira possível. Bom dia pra você que achou que bateu o carro mas na verdade só fez um barulhão. Bom dia pra você que atrai psicopatas. Bom dia pra você que tem amigas super animadas. Bom dia pra você que passou por N lugares, dançou ao som de música boa em péssimo som, e ainda assim não ficou cansada. Bom dia pra você que encontrou um e-mail de derreter corações de uma recém-conquistada amiga. Bom dia pra você que se sentiu especial nas palavras dela que te fizeram lembrar que é de carne e osso e outras pequenas substâncias que se faz uma mulher louca e feliz. Bom dia pra você que em 140 caracteres consegue vir de um lado ao outro. Bom dia pra você que rompe barreiras do tempo e faz hoje parecer igualzinho a todos os dias de anos anteriores. Bom dia pra você que tem o prazer de às vezes ver Caio Fernando Abreu levantar dos mortos e falar pra você. Bom dia!

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Hoje é Clarice


"(...)sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações. faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente de Deus, não Lóri mas o seu nome secreto que ela por enquanto ainda não podia usufruir, faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos de perplexidade quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que ela era sábia bastante para desfazer os nós de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua pois ela era lunar, faz de conta que ela fechasse os olhos e seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos de gratidão, faz de conta que tudo o que tinha não era faz de conta, faz de conta que se descontraía o peito e uma luz douradíssima e leve guiava por uma floresta de açudes mudos e de tranqüilas mortalidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro."

Clarice Lispector

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Pra começar o dia bem

Quando eu crescer, quero ser igual à Cristiana Guerra. Olha que lindo!
Boa quinta-feira pra quem tá perto, pra quem tá longe e pra quem mora sempre aqui dentro.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Você já tomou o seu no fi-ó-fó hoje?

Eu escrevo todo dia, um pouco por necessidade, um pouco por compulsão. Escrevo aqui e em outros blogs, escrevo no diário, escrevo cartas vez ou outra, escrevo longos e-mails que viajam o mundo na velocidade que eu queria poder viajar, escrevo a coluna do jornal. Eu escrevo talvez porque me expresse muito mal ao falar. Escrevo porque com a letra impressa posso suprimir, cortar, mudar um parágrafo de lugar, tomar um atalho e nunca chegar. Mesmo sendo minha escrita sempre "de tirada", de uma vez só, ainda assim acho que na fala me atropelo bem mais, falo muito e não digo quase nada.
Mas a verdade é que quando escrevo não faço nenhuma distinção entre o que é verdade e o que é ficção. Jogo luz no que me interessa, encho alguns fatos de fermento e solenemente ignoro outros. Pego emprestados pontos de vista que não são meus e ideias jogadas por outros na mesa do bar, na sala de aula, no telefone. A vida é minha, o roteiro deve ser também. E se Deus ou sei lá quem, do alto de sua suprema ironia, insiste em escrever minha história como quer, eu me dou ao menos o direito de editá-la ao meu bel prazer.
É claro que às vezes alguém se reconhece no que escrevo. É claro que isso já me trouxe um ou outro probleminha. Mas nada demais, até porque ninguém nunca é identificado aqui nem em nenhum outro lugar onde escrevo. E tem tanto de ficção nas minhas palavras que seria até difícil saber de quem mesmo tirei esse ou aquele traço. (Mesmo assim, resolvi moderar os comentários aqui, porque não quero mais ter a infeliz surpresa de achar meu blog cheio de comentários esquisitos, ou de ter de lidar com trolls. E quer saber? Sou autoritária mesmo: o blog é meu, comenta quem eu quero. Ponto.)
Eu sei que a gente se apropria dos outros pra escrever o que quer. E não vejo nada de errado nisso, desde que se assuma que o que se escreve é SEMPRE ficção, e de que se proteja as identidades dos indivíduos usados como matéria-prima pra suas histórias. Mas tô mordida com a notícia de que eu sou uma das personagens do livro de um "amigo". A obra atende pelo "lisonjeiro" título "As mulheres que não comi". Favor não rir. Eu tô fazendo um mega esforço pra não usar nenhuma daquelas palavras que fariam a mamãe lavar minha boca com água sanitária. Ainda não li, mas já detestei. E queria agorinha mesmo escrever um livro chamado "Os homens que não amei" e colocar o infeliz como personagem principal. Melhor ainda: "O homem que não amei". Pronto, infeliz, já disse o que eu queria sem sequer tocar no seu nome. É assim que se faz, viu? Por enquanto é assim que eu faço.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Rapidinha

TÁ CHOVENDO! E tá cheirando a terra molhada. E tá fazendo barulhinho bom. E agora eu tenho que terminar um artigo até meia-noite. E vai ser tão bom fazer isso com chuva. E eu vou fazer uma prece a Deus Nosso Senhor pra chuva continuar molhando minha rua. Pronto, acabou o momento rain freak!

domingo, 12 de setembro de 2010

Uma questão de referencial

Conheci Ferreira Gullar em 1994, através de um professor de literatura que eu amava. Conheci é maneira de dizer, obviamente. Fui apresentada pra sua obra por esse professor. Na verdade, ele me mostrou a poesia abaixo pra me convencer a esquecer meus preconceitos contra poesia rimada (sim, um dia eu pensei que tudo que rimava era chato). Foi a porta de entrada que eu precisava pra conhecer o poeta Ferreira Gullar, e depois o cronista, e depois o escritor de livros infantis (se você é, como eu, uma apaixonada por gatos e/ou por literatura infantil, leia "Um gato chamado Gatinho"). E lá se vão anos que eu leio e releio o moço. E o poema abaixo, mostrado pelo professor, me encantou ainda adolescente, muito por causa de uma paixonite que ostentava olhos verdes e pele morena.
DOIS E DOIS SÃO QUATRO
Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena
Como é azul o oceano
e a lagoa, serena
como os teus olhos são claros
e a tua pele morena
Como um tempo de alegria
por trás do terror me acena
e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena
Sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.
E daí que hoje eu acordei pensando nesse poema. Na verdade, acordei com vontade de ler Ferreira Gullar. E como a minha vida está toda encaixotada, nem tive coragem de tentar achar nada. Mas tomei café-da-manhã pensando nesse poema. E em como ele tinha me encantado há uns bons quinze anos atrás, e em como continuava me encantando. E em como as razões pro encantamento vão mudando com o passar do tempo. Parece que só agora entendo como o pão é caro e a liberdade pequena. E como mesmo assim a gente encontra no meio do terror diário a alegria pra seguir vivendo e sorrindo e brincando de ser gente. Otimismo em estado puro, mas não o otimismo besta pollyanna. Otimismo gullariano - isso sim! E por mais que eu queira acreditar que agora definitivamente achei o sentido pro poema, sei que talvez, aos setenta anos, eu passe a gostar dele de novo por causa de algum moço de olhos verdes e pele morena. O importante é que sempre existe uma razão pra se gostar do Ferreira Gullar.
P.S: Meu telefone acaba de tocar. Do outro lado da linha a amiga, indignada, pergunta: "que diabo de professor de literatura de olhos verdes é esse que eu não lembro?" Hahahaha! Confusãozinha básica: o professor não era o alvo da paixonite, dã! Acho que ficou parecendo isso aí em cima, mas no ensino médio era contra a minha religião ficar com professor. Equívoco esclarecido, amiga, apesar da preguiça de mexer no texto pra deixá-lo mais claro.

sábado, 11 de setembro de 2010

De volta pra casa

Cansada. Acabada. Exausta. Hecha mierda, como diriam los hermanos. Mas tão feliz de estar em casa, no meu calorzinho amado, com meus homenzinhos amados. Depois falo do Rio. Agora eu queria mesmo era poder dormir até não poder mais. Mas... luizes não deixam, o trabalho daqui a pouco não deixa. Só sei que tô feliz de tá em casa. Não queria ter que viajar de novo tão cedo. Qualquer dia desses eu me convenço a ficar bem paradinha aqui assim. Qualquer dia desses.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

É hoje o dia...

Ai, minha gente, eu nem ia passar por aqui hoje. Correndo como uma louca pra deixar tudo fechadinho antes de embarcar pro Rio. Mas... acabo de saber que hoje é dia do sexo. Vejam bem: hoje, 06/09, tipo 69, é dia do sexo. Coisinha sugestiva, hein? Será que todo mundo comemora o dia do sexo como comemora o do trabalho, sem exercê-lo? (perguntinha retórica, ninguém precisa responder). Pois eu sou contra o dia do sexo. Porque, veja bem, pra que seja preciso eleger um dia é porque a coisa tá meio por baixo, né não? (isso não é um trocadilho infame). Será que essa data foi inventada por alguém completamente a perigo, na seca do deserto? Sei não. Só sei que o Dia do Orgasmo é 31 de julho, o dia do meu aniversário. Ho ho ho! Pronto, já vou!

domingo, 5 de setembro de 2010

Sem-vergonhice

Não é nada disso que você e sua mente imunda estão pensando, não. O que eu queria dizer é que ando num movimento de assumir até mesmo as coisas que me dão vergonha. Ando me assumindo mulherzinha, ando chorando quando tenho vontade, ando fazendo o que me dá vontade, ando ligando pra quem me dá vontade na hora que a vontade bate, ando falando o que quero na lata. E tem sido engraçado e libertador. Pode ser que amanhã ou depois eu acorde de novo cheia de vergonha na cara e com a culpa de estimação que costumava me acompanhar. Mas por enquanto tô achando tudo isso muito divertido!
E como eu gosto de fechar o domingo com música, lá vai mais uma humilhação pública: eu AMO o Sidney Magal. Prontofalei! E tem coisa mais pretenciosa e absurda que um cara que diz que tem "um mundo de sensações e de vibrações pra te oferecer". Tem que rir, meu povo. Mas eu aposto que o Magal tem mesmo! Boa semana pra todos nós.

sábado, 4 de setembro de 2010

Maravilha a girar

Não, ver Jorge Benjor não é suficiente. Não é suficiente ir ao show vê-lo todo de branco, de óculos escuros e esquecendo a simpatia. Foi preciso antes fazer a base na casa da Jana e Tamar. Foi preciso cantar e dançar de testa pro palco, olhando pra cima até o pescoço doer. Foi preciso soletrar cada letra de música, com os lábios e com o corpo, que não conseguia ficar parado. Foi preciso ter muitos amigos por perto. Foi preciso quase perder a voz. Foi preciso euforia. Foi preciso lembrar de como eu gostava de ouvir Alcohol quando era adolescente. Foi preciso ouvir um roteiro de novela de Manoel Carlos, mas com um toque trash de novela mexicana. (É incrível como tem gente que tem o dom de falar as coisas mais absurdas como se pedisse uma coca-cola ao garçon. Realismo fantástico total.) Foi preciso me perder umas dez vezes, e me reencontrar com pessoas queridas em cada uma delas. Foi preciso constatar que era festa do advogado mas o que mais tinha era jornalista (que bom!). Foi preciso ser uma noite saltimbancos. Salve Jorge.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Sempre mais do mesmo

Eu já estaria milionária se ganhasse um real pra cada vez que ouço alguma das frases abaixo:

- Mãããããe!
- Foi ele que começou!
- Ô, professora, deixa eu entregar o trabalho amanhã?
- Minha impressora deu pau.
- O cachorro comeu meu trabalho.
- O pendrive não abre.
- Você tá tensa?
- Tá na TPM?
- Dá pra traduzir esse resumo? É pequenininho. E é pra hoje à tarde.

Mau humor mode on! E olha que hoje é sexta-feira, um dia que eu costumo amar! Imagina só o domingo como vai ser! Se você tiver o azar de encontrar comigo pela rua, mude de calçada, que hoje eu tô mordendo e arrancando pedaço.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

E nem é novidade

É sempre possível ser um pouquinho mais idiota do que já se foi. É sempre possível ir além na própria imbecilidade, e depois contemplar da janela a ferida da alma sangrando como uma hemorragia. É sempre possível abrir o alçapão que leva ao sótão para onde os monstros foram empurrados a força. É sempre possível vê-los sair gritando e pulando. É sempre possível se colocar na posição de alvo fácil. É sempre possível fingir que está acima do bem e do mal, e se ver novamente transbordando de dor. Basta querer. E basta não haver distância nenhuma entre o querer e o fazer. Basta a arrogância de se sentir intocável. Basta o otimismo idiota. Basta apagar da memória o que não interessa. Basta pouco, né?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

M³ num país pertinho de você

Minha amiga Grosélia sempre escolhe um cantor/banda pra ser trilha sonora durante o processo de produção de um trabalho. Quando estávamos produzindo o livro M³-Mulher, Mãe, Moderna, ela escolheu Piazzolla para os momentos em que pensava sobre o design do livro, encaixava as ilustrações, definia formato, e paria o design esquizofrênico e lindo do nosso livro. Cada uma em sua casa, eu, Danda e ela passamos noites discutindo o livro pelo gtalk e ouvindo Piazzolla. Durante esse período, nos falávamos o dia inteiro - por telefone e via internet - tentando resolver tudo ao mesmo tempo agora, ao ponto de um dia a Danda me ligar pela milésima vez na mesma manhã e dizer as palavras que eu pensei em falar: "quando essa história desse livro acabar, vou me divorciar de ti, viu?"
Lançamos o livro no início de junho e, pelo menos pra mim, ficou um vazio de não ter mais esse projeto pra me dedicar, de não ter necessidade constante de falar com as duas, de não ver soluções nascerem de uma equipe que trabalhava em perfeita harmonia. Lançado o livro, cada uma voltou a dar atenção às outras áreas das nossas vidas que tinham sido negligenciadas durante o processo. Passamos a nos ver menos e nos falar menos. Normal.
Mas agora temos um outro motivo pra botar o Dream Team em funcionamento de novo: M³-Mulher, Mãe, Moderna será lançado em Buenos Aires, na Fundación Centro de Estudos Brasileiros, no dia 13 de outubro. Sim, lançaremos nosso filhote lá na terra de Piazzolla, aquele que embalou a feitura do nosso bebê. Se eu tô feliz??? Tô dando pulos de alegria, daquele jeito eufórico que eu tenho quando consigo uma coisa que eu nem imaginava.
Pra não correr o risco de algo dar errado, Grosélia e eu já compramos as passagens hoje à tarde. E pra Danda, tem uma reserva que vale até amanhã. Bora, mulé! Quando a gente chegar tu se divorcia da gente de novo. Bora chutar o pau da barraca, que é por uma ótima causa!

terça-feira, 31 de agosto de 2010

ECT

Saturno tem anéis. Dezoito no total. "Por você vou roubar os anéis de Saturno", canta Rita Lee. Tolkien escreveu "O Senhor dos Anéis", que virou filme pelas mãos de Peter Jackson (e eu não gostei de nenhum dos filmes). Quando eu era criança, gostava de brincar de "passa anel", na praça Isaías Coelho em Simplício Mendes. "Vão-se os anéis, ficam os dedos", dizem os mais velhos. Meus anéis foram, meus dedos ficaram pelados. Agora os anéis voltaram, inscrevendo energia, força, amor e equilíbrio na minha pele. Gestinho delicado esse.

sábado, 28 de agosto de 2010

Atualizando

Muito caro pagar deslocamento pra receber ligação. Então aproveito esse espaço pra justificar o fato de não estar atendendo o celular. Já em Brasília, cercada de amigos, esquentando os tamburins pra ir pro Suvaco da Asa comemorar que Antonio tá muito bem, sem sinal de câncer. E dra. Martha já considera a possibilidade de tornar o check-up dele anual, mesmo que seja pela vida toda. E vamo que vamo, que o samba já vai começar!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Voar é preciso

Medo de avião ela não tem. E nem de voar. Tem um pouco de medo, sim, de pousar naquele aeroporto quase fazendo high five com os moradores do prédios vizinhos. Mas na hora do pouso ela nem pensa nisso e só pede que, se for pra acontecer qualquer coisa, que seja rápido. Filosofia band-aid: puxa logo que é pra doer tudo de uma vez. Morre logo que é pra morrer sem dor. Mas ela não morre. (Às vezes ela chega a pensar que é imortal, de tanto que já pensou que ia morrer e quando olhou ainda tava no mesmo lugar.)
Dentro do avião ela pensa nas coisas que tem a fazer, na programação maluca que decidiu se impôr: rever amigos, Museu da Língua Portuguesa, rever família, Liberdade, tomar um vinho com o amigo querido, parque da Mônica, Sé, visita ao ateliê do amigo, receber o desenho pra sua tatuagem, sebos diversos. E depois, voar pra cidade-avião, reencontrar mais amigos, se aninhar na casa da tia querida, falar besteira com cumpadi Zé e primovisky, conhecer os filhos dos amigos nascidos nesse hiato de tempo em que não se viram, exibir seu próprio rebento, com indisfarçável orgulho. E depois, voar de volta pra casa, mais leve depois da overdose de carinho recebida.
Só de vez em quando, enquanto arrumava a mala, ela lembrava que não era exatamente isso que lhe fazia entrar no avião e pousar no meio dos prédios. Embora criasse outras razões e motivos, ela sabia bem porque voava pr'aquela cidade cinzenta. Havia ali um bairro chamado Liberdade, com uma rua chamada Professor Antonio Prudente, com um prédio enorme e assustador. Era lá que ela iria entrar com um pequeno guerreiro. Ela iria descer uma rampa pro subsolo - metáfora infernal essa, hein?- e entregar seu pequeno guerreiro em mãos nas quais ela confiava. E esperar. (Logo ela, que odiava esperar.) Esse ritual ela já conhecia e, por mais que tentasse se reconfortar lembrando que já havia passado por ele outras vezes, cada vez parecia a descida ao inferno de novo, cada vez outubro de 2007 lhe parecia mais perto. Mas ela sabia que enquanto esperasse, iria tentar encontrar um Deus que ela não sabe onde está, iria rezar o Santo Anjo do Senhor, do jeito que havia ensinado aos filhos, e iria alternar momentos de desesperança e confiança. Essa gangorra era também parte do ritual. Até que a médica de enormes olhos azuis saísse de dentro da sala e lhe dissesse que estava tudo OK, e daí ela já poderia respirar. (Ela sempre achou intrigante que uma oftalmologista oncológica tivesse olhos tão lindos quando todos os seus pacientes perderam ou estão em vias de perder pelo menos um dos olhos. É de uma soberba tão absurda exibir aqueles olhões enquanto aos seus pacientes já lhes satisfaria simplesmente ver, mesmo que com olhos feios, vesgos, caídos.)
Então, até o momento do ritual chegar, ela inventa coisinhas pra fazer, contacta amigos na cidade cinza, compra livros, assiste ao sorriso do pequeno Guerreiro enquanto ele brinca com o primo. Porque foi ele mesmo que ensinou a ela que a graça de tudo, nessas horas, está mesmo nas entrelinhas:
- Na próxima semana vamos a São Paulo pros seus exames.
- Ôba!
- Como assim ôba?
- Vou brincar com o Davi, e com o tio Guga. E vou no parque.
- Mas vai também no hospital, vai ter picadinha, e aquele cheirinho que te faz dormir...
- No hospital tem brinquedoteca, e tem a doutora Vivi.
Ele, muito mais que ela, sabia que era assim que se olhava de frente pra vida. E que é possível da ansiedade e da espera tirar o melhor. Se é ingenuidade ou sabedoria inata ela não sabe, mas é isso que faz dele um Guerreiro.

sábado, 21 de agosto de 2010

Dado, porradas e a suprema arrogância feminina

As revistas de celebridade são óbvias, como são óbvias as notícias sobre as celebridades. Fulana e Fulano casaram com pompa e circunstância, em recepção para mil talheres em um castelo com nome afrescalhado na Cornuália. Fulano e Fulana se separaram. Fulana foi visto com Beltrano no restaurante carésimo. "Somos apenas bons amigos" diz a manchete. E por aí vai. Mas esses dias a notícia óbvia de que Dado Dolabella (ator? cantor? bad boy?) agrediu a esposa salta, mesmo sem pop up, das homepages dos principais portais de notícias. Eu jurei que não comentaria sobre isso aqui, que esse Dado e sua digníssima não ocupariam meu espaço. Mas às vezes o óbvio merece ser falado.


Vamo lá: o cara tem o maior histórico de brigão, filhinho da babãe (que certamente é a única mulher que merece ser respeitada no mundo. Aliás ele deve ter uma tatuagem do tipo "Mother"ou "Love you, mom", assim em inglês mesmo, que é pra ser chique), o cara bateu na ex-namorada (toda a minha antipatia à Luana Piovanni não me impede de reconhecer o absurdo disso) e na camareira dela, o cara foi condenado e etc e tal. Daí a mocinha inocente resolve que ele é um partidão e, além de namorá-lo, ainda engravida e casa com ele. Roteiro de filme de terror. Agora chegou o grand finalle.


Ai, querida. Você não é culpada de ter sido agredida, mas como diz um amigo meu, entrou sabendo. Eu sabia. Seus pais certamente sabiam. O padeiro também. O porteiro do seu prédio. Seus amigos. Qualquer pessoa que passe por uma banca de jornais sabe que "encrenca" está escrito na testa desse rapaz. Mas você achou por bem encarar. Sabe por quê? Não é só porque você deve ser uma menininha romântica e que estava cega de amor. Nem porque você tava desesperada pra casar com o primeiro que topasse. Ou porque você gostasse mesmo de apanhar. Não, não é nada disso. O que acontece é que você certamente sofre da síndrome da suprema arrogância feminina.


Todas as mulheres do mundo, em menor ou maior grau, sofrem dessa síndrome - isso é fato. Os sintomas são clássicos:

1. acreditar no poder do amor, que é capaz de modificar qualquer brucutu e transformá-lo num urso de pelúcia de dia e numa sex machine à noite;

2. acreditar que a sua presença na vida do outro será um divisor de águas

3. dizer coisas do tipo: "ah! mas ele fazia isso com as outras porque não as amava de verdade! Comigo é diferente, porque ele agora encontrou o amor"


Ai, isso é tão clichê que dá até preguiça! Toda mulher já caiu numa esparrela dessas. Toda mulher já teve seu cafa - o cara que ela teima que vai se tornar outro pelo poder transformador do amor. Normal. E la nave va. Mas o problema é quando o brucutu em questão é um cara-que-bate-em-mulher. Aí, querida, não dá. Porque se o que os outros vão te causar é apenas uma sensação de impotência e a certeza de que seus beijos não transformam sapos em príncipes (a sua imaginação fértil é que faz isso), o cara-que-bate-em-mulher, além dos óbvios danos físicos, ainda vai te fazer sentir uma merda só porque você tem uma vagina e não tem metade da força dele. E nada mais importa - seu amor, sua inteligência, sua delicadeza, sua beleza, seus carinhos, ou seja lá o que você tenha; o simples fato de ser mulher já te faz valer menos e não merecer respeito nem mesmo à sua integridade física.


E, não, eu repito, não quero de maneira alguma dizer que você foi culpada. E acho que ele merece ser preso e torturado. Acho mesmo. Acho que ele merece se sentir impotente e fraco diante de outra pessoa, porque é assim que você deve ter se sentido quando foi agredida por ele. Mas acho que se nós mulheres fôssemos menos prepotentes, menos arrogantes, menos confiantes na nossa capacidade de mudar o outro, nos protegeríamos mais. Não, esses caras não deixariam de existir por isso. Mas deixaríamos de ser vítimas fáceis deles.

All U neeed is love

Ah, mas tem que falar. Tem que falar pra todo mundo que a bandinha na qual eu não botava a menor fé, a tal da banda cover oficial dos Beatles, arrasou ontem à noite. Trabalho bem feito tem que ser elogiado, gente. Mesmo que signifique dar a mão a palmatória. Sim, eu achava meio sem rumo esse negócio de ir ver show cover. Mas fui mesmo assim. Até porque nasci um pouco atrasada e dos Beatles eu só podia ver mesmo era cover. Mas eu ia me conformar em ouvir as músicas enquanto dirijo e a ver os vídeos no Youtube. Eu não queria um cover, um fake, uma imitação. E daí minha amiga, imperativamente como ela costuma fazer, me ligou e disse que tava fechando sei-lá-quantas mesas pro show. "Amanhã vou comprar. Passo na tua casa e pego o dinheiro" Nem deu tempo de eu contar pra ela que eu não sabia se queria ver o Beatles cover. Eu só concordei. E fui pro show. E fiquei fascinada. Sabe uma produção cuidada nos mínimos detalhes? Caracterização impecável, instrumentos da época, repertório bem escolhido. E os cabelos de John, Ringo, Paul e George? Dancei até minhas pernas doerem, e daí dancei mais ainda. Minha única queixa: não tocaram Strawberry Fields Forever. Mas tudo bem, fica pra uma próxima.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Samui desu

Fazia frio, muito frio no meu sonho. Outro dia uma pessoa me disse sentir cheiro em sonhos e eu morri de inveja. Não, meus sonhos não têm cheiro, mas têm muita cor, muito movimento, muito som. Meus sonhos gritam comigo me mandando acordar. Mesmo os sonhos bons me exigem que eu abra os olhos, levante e siga.
E essa noite no meu sonho fazia um frio lascado. E eu esfregava uma mão na outra pra tentar esquentar e procurava umas luvas que não achava. E do lado de cá do sonho, puxava o lençol cada vez mais pra ver se o frio passava.
Tinha música no meu sonho. Uma música alta e repetitiva, mas que mesmo assim eu não sabia cantar. E muita gente. Meus sonhos são sempre mega povoados. É sempre a Índia ou a China, de tanta gente que entra e sai desses sonhos. Mas nunca é lugar nenhum e parece sempre ser todos.
"Que drogas você toma antes de dormir pra ter sonhos assim?", me perguntaram um dia. Não, eu não tomo nenhuma droga. Mentira. Às vezes eu tomo Guaraná Diet. Droga pesada, eu sei. Mas não, eu não tinha tomado guaraná ontem, nem suco de caju, nem goiabada para sobremesa. Eu simplesmente dormi. E sonhei que fazia muito frio. E que eu não achava minhas luvas. E ninguém me dava luvas. E a música tava alta demais. E eu nem tentava falar com ninguém. E mesmo que eu tentasse ninguém ia mesmo me ouvir. E eu puxava o lençolzinho fino e ridículo, ridiculamente tentando me aquecer. E quando enfim abri o olho - aí sim veio a surpresa - o frio ainda tava aqui. Teresina, 7 horas de uma manhã de agosto - e o frio continuava. Desliguei o ar-condicionado. "Essa porra só pode tá desregulada" Que nada! No escritório fazia frio também. E na sala. E nos quartos vazios dos meninos. E na cozinha. E no banheiro. Abri a janela já com medo de ver neve lá fora. Sei lá. Tem tanta coisa que os ambientalistas dizem que eu tenho medo de qualquer dia desses ser saudada por uma nevasca no Piauí. Mas o sol já tava aberto. E um vento frio entrou quarto adentro. E eu esfreguei o coração nas tripas, pra ver se faço dele qualquer coisa, sorri amarelo e pensei: "hoje tem Beatles". É , o frio vai já passar.