Eu queria escrever um post alegre, ou pelo menos leve. Tem tanta coisa boa acontecendo na minha vida esses dias, mas tem também uma ansiedade à qual eu vinha me recusando a dar nome. E a verdade é mesmo que eu não ando nada, nada leve. De uns meses pra cá eu vinha dormindo bem, sono pesado, sonhos bons. Sono daqueles que quando a gente acorda se estica toda e sente aquela cãimbra gostosa na batata da perna, e acorda renovada pela fisgada. (Sim, eu adoro cãimbra, até porque eu criei a teoria de que as preocupações vão pra batata da perna e são dispersadas na dor). Mas nos útimos dias, nenhuma fisgadinha na batata da perna, nenhuma noite de sono reparadora. Semana passada tive um pesadelo, do qual não lembrei de manhã. O namorado me contou que a noite eu chorava que nem bebê, que acordei assustada, disse duas palavras emboladas e dormi de novo. De manhã eu lembrava da sensação de impotência e desespero, de um não poder resolver, de um não ser suficiente que me exasperava, mas segui a vida sem lembrar de nada. Nem precisa ser Carl Jung pra saber que eu tô engolindo algum sapo e nem quero assumir que o cururu tá entalado. Hoje, ao receber uma correspondência, lembrei do sonho, enxerguei a aflição, dei nome aos bois. Eo pior: descobri que eu sou muito mais covarde do que eu me desenhei. A verdade é que eu queria mesmo uma varinha mágica pra resolver as coisas que eu não tenho peito pra encarar. E isso me coloca no lugar que eu tanto critico e do qual eu semprei jurei fugir: o de covarde.
Repositório de pequenos sonhos, epifanias e certezas transitórias. Espaço de despejo do excesso que pesa na alma. Lugar de ser pequena quando tudo fora é grande demais.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
terça-feira, 19 de julho de 2011
Corpo-espinho
Enquanto estudo, Tonton desenha, sentado num cantinho da minha cama, agora tomada por livros, xérox, cadernos, agenda, lápis, post-it, marcadores de texto, fichas de várias cores, notebook. (Sim, essa cama já foi mais divertida). Enquanto eu escavo no meio dos livros e anotações, tentando seguir o código de cores que criei pra não enlouquecer, Tonton brinca de destampar cada uma das suas canetinhas, uma por vez: tira do estojo, destampa, desenha, tampa, guarda, pega outra e recomeça o ritual.
- Mãe, olha o que eu fiz!
Ele me mostra um desenho ultracolorido que me faz confundir mais uma vez meu inútil código de cores.
- Tonton, isso é um prédio? Que lindo!
- É, sim, mãe. É o prédio que a gente morava.
- E quem é esse cara verde aqui?
- O corpo!
- Corpo?
- Sim, o corpo-espinho!
- Corpo o quê?
- Corpo-espinho, mãe, um homem que é cheio de espinhos mas que não é um porco, entendeu?
Entendi, não, filho. Até hoje, aliás, não entendi porque eu escrevo sobre maternidade ao invés de simplesmente ficar aqui ouvindo as histórias do corpo-espinho.
terça-feira, 12 de julho de 2011
ÉÉÉÉÉ'GUA!
Dez unhas roídas. Vários cigarros fumados. Algumas barras de Diamante Negro. Uma caixa de Ferrero Rocher. Litros e litros de coca-cola. Baldes de café, porque ele não costuma faiá. O namorado semi abandonado (você vai pro céu, querido, enquanto eu, calçando tênis apertado, acompanho o trio elétrico tocando forró universitário, no inferno). A penteadeira que virou escrivaninha. O quarto que virou escritório. As férias que viraram trabalho sem fim. E eu que não consegui virar nada, porque continuo ao que parece no mesmo lugarzinho infeliz. Impaciência. Incompetência. Da tela do computador pro mural, meus olhos lêem e relêem a mesma frase: "o desespero é pior nessa situação que já não está boa". (Sim, eu gosto de colocar no mural o que quer que me inspire, nem que me cutuque e doa.) Todas as redes sociais abertas ao mesmo tempo enquanto tento escrever. Toda as tentativas do mundo de sentir pessoas amigas perto de mim. Um parágrafo e lá vou eu falar com a amiga no gtalk. Mais outro parágrafo e eu abro o MSN. "Respira no saco!", diz a amiga no facebook. E eu queria era asfixiar alguém com um saco. "Grita ÉÉÉÉÉGUA!", diz a outra. E eu? Eu só quero gritar égua, puta que pariu, caralho de asa, que porra é essa, quanto incompetência a minha, eu mereço mesmo me dar muito muito mal, por que pra todo mundo é mais fácil que pra mim, ai, que vontade de ser uma vítima da vida, do mundo, etc etc e tal.
Agora deixa de ser babaca, fecha o blogger, abre a janelinha da dissertação, concentra, escreve, envia. E aprende um mantra, faz yoga, fica zen, porque fogo amigo é que dói gostoso.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Avental todo sujo de ovo
Fato: o mundo à minha volta está grávido. Prima grávida, amiga grávida, colegas de profissão grávidas. Pra onde eu me viro, respiro maternidade. O dia inteiro me divido entre meus meninos (de férias e cheios de energia) e a tela do computador com esse cursor que pisca insistente pedindo que eu escreva sobre... maternidade. Sim, o mundo anda exalando maternidade perto de mim. Não, eu não estou grávida e nem vou ficar. A única coisa que eu pretendo parir nos próximos meses é um dissertação, o que tem me rendido contrações dolorosas, sem anestesia, com a possibilidade real de uso de fórceps.
Outro dia minha amiga linda que carrega Pilar no bucho (sim, é uma menina, só porque eu quero que seja!) me falava aquele texto típico da grávida de primeira viagem: "será que eu vou saber o que fazer?" Eu fiz o que todas nós fazemos: disse que sim, que a gente aprende, que o filho ensina, que a mãe atrapalha, que a gente erra mesmo, e que massa que a gente erra! Mas na horinha mesma em que dizia isso, eu já sabia que estava mentindo. A verdade, Bee, é que a gente nunca sabe. Quando a gente aprender a dar banho, eles param de curtir a água; quando a gente aprende a defendê-los das quedas durante os primeiros passinhos, eles aprendem a correr... E por aí vai. É que esse negócio de ser mãe se tornou tão complicado... E não é só porque a gente ama demais e amor demais faz um mal desgraçado. É principalmente porque as crianças foram seccionadas em tantos pedaços a serem analisados, detalhados, cuidados que - sei lá - acho que as mães não sabem mais de nada mesmo. Aí você tem que ouvir o que diz o pediatra, a psicanalista, a professora, a psicopedagoga, a sua mãe (que logicamente vai se intrometer), o padeiro, o amigo, a vizinha, enfim, os especialistas por formação e os especialistas por pura intromissão. E dá uma vontade danada de apelar pr'aquele tal de instinto materno - que, sim, eu SEI que não existe - e dizer: "é assim porque eu sinto assim". Mas não, crianças são agora projetos, produtos a serem elaborados pro futuro e você não pode basear sua linha de produção em sentimentos, feeling, sexto sentindo, não é mesmo? Dá vontade de voltar ao dia em que eu estava numa indecisão danada em relação a um dos meninos e minha mãe disse simplesmente: "o que o seu coração tá dizendo?" E meu coração disse certo. Agora eu só queria que meu coração falasse. E eu nem ia chamar isso de instinto.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Sem açucar e com afeto
Se você vive em Teresina, já deve ter ouvido falar da campanha Assina Elmano, capetaneada pela minha amiga Jeane Melo. A causa é nobre, a solução é simples: basta uma assinatura do nosso prefeito Elmano Ferrer. O que Jeane e outros pais de diábéticos e diabéticos pedem é que o prefeito sancione a Lei Enzo, que foi aprovada na Câmara Municipal e que agora só precisa dessa bendita (e custosa) assinatura. Com essa lei aprovada, os diabéticos de Teresina passam a ter garantido um kit de aplicação de insulina que facilitaria, e muito, a vida deles.
Todo mundo falando da Lei Enzo, do Assina Elmano, e eu queria mesmo era falar da Jeane Melo, essa jornalista/publicitária/mãe-guerreira/praticante de boxe/designer de bolsas/alto-astral que conheci meio por acaso há uns anos atrás.
Eu estava na Wizard um dia quando um buchudinha entrou pra falar com uma colega de trabalho. Jeane trazia Enzo na barriga e uma sacola de bolsas Sinhazinha pra vender, que logo viraram paixão pra mim - ela e as bolsas.
Tempos depois me deparo com uma mensagem linda, em meia página de jornal, agradecendo aos médicos pela recuperação do Enzo. Foi assim que fiquei sabendo de seu diabetes, que tinha acabo de ser diagnosticado, depois de uma crise braba. Mais que qualquer coisa, me chamou a atenção a maneira como aquela mãe decidiu agradecer aos anjos (como ela chamou) que salvaram seu filho: Jeane usou sua melhor arma - a palavra. Redatora publicitária de talento, escreveu uma mensagem pros médicos-anjos e publicou na edição de domingo de um jornal. Lembro que liguei pra ela logo em seguida pra saber como estava o Enzo, e ela novamente me surpreendeu com um otimismo que eu (ainda) não sabia ser possível diante de um filho doente.
Tempos depois fui eu a levar um susto e tanto com meu Antonio. E Jeane - talvez até sem saber - me ajudou, com seu exemplo, a colocar os pés no chão e entender que era preciso bom humor e coragem pra defender nossas crias.
Vejo agora Jeane novamente utilizando suas armas do bem pra aprovar a lei que foi apelidada com o nome do seu filho: twitts diários, mobilização de diabéticos e não-diabéticos na caminhada Assina Elmano, entrevistas, matérias...
E pra quem fala em impacto financeiro ou seja lá o que mais a equipe de gestores municipais esteja alegando, eu digo que o movimento liderado pela Jeane é uma das coisas mais lindas que já vi na minha cidade. Ao invés de se unirem pra seguir o trio na Micarina, jovens, crianças, idosos, diabéticos e não-diabéticos, Enzos, Josés, Carlas e Marias praticam a democracia de forma doce, pacífica e bem-humorada. Então, Elmano, vai assinar?
P.S.; Tentei vááárias vezes carregar o vídeo com jingle da campanha. Infelizmente ha um problema entre a cadeir e o computador e eu não consegui. ;)
P.S.; Tentei vááárias vezes carregar o vídeo com jingle da campanha. Infelizmente ha um problema entre a cadeir e o computador e eu não consegui. ;)
terça-feira, 7 de junho de 2011
Sem palavras
É raro, mas às vezes fico sem palavras. Obrigada, meninos e meninas. Esse tipo de reconhecimento compensa qualquer dificuldade da profissão.
http://www.umestranhonocovil.blogspot.com/
http://www.umestranhonocovil.blogspot.com/
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Posta restante
Mais cedo eu comecei a escrever um post sobre o frio - não deu tempo de terminar porque tive que sair e enfrentar o frio lá fora pra assistir um debate sobre televisão, no Congresso Internacional de Jornalismo Cultural. Durante o debate, me enchi de ideias que eu queria escrever aqui - vinha no metrô pensando sobre um milhão de coisas que eu queria falar sobre o consumo dos produtos televisivos, sobre indústria cultural, sobre a influência da televisão no nosso cotidiano, sobre gente surtada que se propõe ao debate pra causar polêmica, raiva, estranhamento... ou simplesmente pra "causar", como a "galera" anda dizendo por aí.
Mas daí... inventei de dar uma olhada no tal do Orkut, aquele site de relacionamentos que já tá quase abaixo de sete palmos, sabe? Pois encontrei o melhor presente da minha semana, e o melhor assunto sobre o qual escrever. Meu amigo Eugene me mandou uma mensagem depois de tempos. Nem sei onde ele tá agora no mundo, mas há dias venho pensando nele e me cobrando escrever uma carta ou um longo e-mail pra saber da vida dele, pra contar da minha, mas principalmente, pra lembrar como é bom a gente junto. E foi exatamente o que ele fez na curta mensagem: lembrou do início da nossa amizade, em 2006 (ou foi 2005?), das nossas conversas, das indas e vindas dele a Teresina. Me contou que está feliz e me pareceu muito, muito bem. Saudade boa é essa que tem eco, que encontra resposta. É clichê, eu sei, mas amizade mesmo é essa que quando se reencontra (mesmo que virtualmente) parece igual ao início ou ao ano passado ou a ontem ou ao futuro. É o amor que subverte essa noção linear de tempo: ontem, hoje, amanhã - tudo deliciosamente igual.
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