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segunda-feira, 26 de março de 2012

A confiança no próprio taco (ou a certeza de ser muito amado)

Zé Luiz (7) e Antonio (5)  foram passar a tarde na casa de um colega. Lá, o pai dos meninos permitiu que eles jogassem um jogo de Play Station que é proibido pra eles aqui em casa.
Zé: "Mas, mãe, tu disse que na casa das pessoas eu tenho que obedecer as regras delas. Então... O pai do Leozinho que botou GTA pra gente jogar. Eu não podia desobedecer..."
Antonio vai só repetindo e concordando com o irmão.
O caminho pra casa é longo e antes mesmo de chegar na nossa rua, eles já tinham me convencido de que podem jogar o jogo aqui, sim, desde que mude umas configurações tais pra que não seja tão violento. Mas daí eles perceberam um segundo problema: o jogo é do Pedro. E se ele não topar emprestar?
Zé Luiz, sempre mais dramático, sai com essa:
- Ah, não! A gente convenceu a mamãe e mesmo assim não vai poder jogar. O Pedro NUNCA vai deixar...
Tonton, cheio de confiança no próprio taco, me sai com essa, com sua voz rouca e seu sotaque portenho:
- Calma, Zé. Fica tranquilo que eu já sei o que fazer. EU vou pedir pro Pedro. Ele me adora porque eu sou o mais pequeno. Ele faz tudo o que eu quero. Pode deixar comigo...

sábado, 17 de março de 2012

Foi em 16 de maio do ano passado que Cristiana Guerra escreveu isso lá no Amor e Ponto. Eu li, achei lindo - como tudo o que ela escreve - mas não entendi.

Assombro.

O amor assusta porque ao nascer já anuncia: posso acabar. Pior: o amor do outro pode acabar. Ou nada disso: pode a vida e o dia e as horas serem mais fortes que qualquer impulso, e o que era um-mais-um torna-se um a um. E o que resta é cada um levando como pode o que pulsa em si.

O amor é ter a perder.

Ou não ter nada. É tudo e todo o medo e todos os perigos. Ou nada e paz. Ou nada.

O amor que nasce é assustadoramente amor. O amor que segue sozinho é assustadoramente só. Não há meio-termo porque o que o amor quer é coragem, o amor quer entrega, o amor sempre quer. Nem sempre é harmonia, nem sempre delicadeza. Mas sempre amor. Até não mais. E isso demora.

É maior que nós, o amor. Faz sombra e assusta. Até que se veja dele o seu verdadeiro tamanho. A sombra do amor assusta. Até que se entenda que ela é sombra e só.

O amor nos pede a escolha: ser do tamanho do medo ou da coragem.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Pelo dia da poesia

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Ferreira Gullar

quinta-feira, 8 de março de 2012

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Para Marcella

Eu adoro histórias de amor. Desidrato de tanto chorar em comédias românticas. Sou mesmo o que se pode chamar de mulherzinha boba. E tenho muito orgulho dessa condição que foi conquistada a duras penas. Minha ingenuidade e fé no amor foram construídas ao longo de desamores e perdas, dores e lágrimas. Ao invés de endurecer, decidi que a vida me faria mais capaz da entrega que o amor exige.
Mais que a ficção, os amores reais me emocionam, com seus personagens de carne e osso, suas angústias verdadeiras, suas histórias de vida comuns, e essa certeza tão irracional dos amantes de que o único lugar que nos cabe é junto daquele pessoa.
Hoje chorei litros ao conversar com uma ex-aluna, ex-orientanda que conquistou um lugar enorme no meu coração. Ela é protagonista de mais uma dessas histórias de amor que acontecem todo dia, mas que é tão linda em sua simplicidade e previsibilidade. Enquanto ela me contava sobre o apartamento que está organizando pra começar a nova vida, eu lembrava de como todos somos tão iguais e tão óbvios quando amamos. E como é bom nos reconhecer assim nas tantas histórias de amor que acontecem todo dia mas que são tão especiais e únicas pra quem está vivendo.
Pra eles, que decidiram ser tanto um pro outro, desejo toda sorte e toda coragem que é necessária pra viver um amor de verdade. 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sobre BBB, estupro, machismo e redes sociais

Eu não assisto BBB. Não porque eu seja uma intelectualóide que ache que esse tipo de programa não mereça minha audiência. Tem coisas bem mais trash que merecem o comando do meu controle remoto - basta lembrar que fui universitária no Show do Milhão, nos idos do ano 2000. Pra mim, o consumo de programas de TV, assim como de filmes e de livros têm propósitos variados - às vezes assisto um filme simplesmente pra não pensar, ou leio um livro simplesmente pra passar o tempo. Nem tudo tem quer intelectualmente instigante e profundo, graças a Deus. Nem todos os filmes do mundo tem que ser do Almodóvar, nem todos os livros do Saramago, nem todos os programas de TV têm que ser Café Filosófico ou documentários do History Channel, graças a Deus. Eu não assisto BBB unicamente pelo fato de que não acho divertido. Simples assim.
Mas essa semana eu procurei o vídeo que estava sendo comentado nas redes sociais, sobre o abuso ou estupro (não dá pra saber exatamente) de uma das integrantes. O vídeo é nojento - um cara bolinando uma menina por baixo do edredon enquanto ela estava desacordada e inerte. O que ele fez exatamente embaixo do edredon não dá pra saber - mas que ele fez alguma coisa fica óbvio pra quem assiste.
Desde domingo as pessoas comentam o caso no Twitter e Facebook e só ontem, depois de uma visitinha da polícia à casa e de muita repercussão na internet, a Globo resolveu expulsar o rapaz por "grave comportamento inadequado".
Algumas considerações sobre o fato e sobre sua repercussão. Já que é preciso desenhar, vamos lá: 
1. o corpo de uma pessoa pertence a ela, mesmo que ela esteja bêbada, mesmo que ela tenha te dado bola, mesmo que você ache que ela é fácil, etc.
2. Assim, quando você mexe no corpo de uma pessoa que está desmaiada, sem possibilidades de consentir ou negar, você está invadindo propriedade alheia
3. O que é grave, nesse caso, é exatamente o fato de que ela não estava em condições de consentir nada. Portanto, parem, pelamordedeus, de falar que "em outras edições do BBB's coisas muito mais sérias aconteceram". Certamente que aconteceu sexo em outros BBB's e de forma mais explícita, mas o que faz esse caso grave é o não-consentimento por uma das partes.
4. Sim, a repercussão nas redes sociais foi linda, mas infelizmente ainda tive que ler comentários do tipo "cu de bêbo não tem dono", e declarações misóginas quanto ao comportamento da moça (sim, se ela é fácil/puta/bêbada/atirada/vadia ________________ [insira aqui o adjetivo pejorativo de sua preferência] ela merece ser estuprada)
5. Aos pseudo-intelectualóides de esquerda que dizem "eu ignoro BBB. Isso pra mim não existe", eu queria lembrar que não estamos aqui discutindo o BBB, mas valores machistas que permitem que coisas assim aconteçam, como se fosse "natural". Ah! E sendo tão declaradamente de esquerda, deviam aproveitar o caso ao menos pra baixar a lenha na Globo pela irresponsabilidade e omissão (que foi corrigida ontem por causa da força das mídias sociais - disso não tenho dúvida)

PRONTOFALEI!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

prrrrrrrrrrrrrr....

Eu odeio aquele ditado infame de que ser mãe é padecer no paraíso. Eu discordo. Eu acho que amar, qualquer tipo de amor que seja, requer sempre um envolvimento tão intenso e descabido que às vezes chega, sim, a doer. Mas que só vale mesmo se for assim.
Eu rejeito qualquer tipo de vitimização materna, como rejeito qualquer tipo de vitimização a qualquer amor. Amar é uma decisão, por mais frio que isso possa parecer. Existe, sim, o clique, a sorte, o cheiro, a vontade que não se explica, mas existe a decisão sempre, em qualquer tipo de amor, inclusive no materno. (Pronto, podem jogar pedras na mãe desnaturada que está assumindo que não ama aos próprios filhos incondicionalmente!) Em minha defesa, eu poderia dizer que amo meus luizes incondicionalmente, porque decidi assim, porque sempre fui mãe mesmo antes de ser, porque eles me enchem os olhos de lágrimas (de felicidade, de espanto, de surpresa, de tristeza - porque é disso tudo e mais que o amor é feito), mas que como todos os outros amores do mundo, meu amor por eles foi -e é ainda e segue sendo, porque é sempre obra em construção - decisão.
Por isso, bem por isso mesmo, rejeito essa ideia de padecer no paraíso, essa capa de culpa e dor que algumas mães gostam de vestir pra se sentirem honradas. 
Mas hoje, só hoje, eu queria dizer que eu tô muito cansada de ser mãe. (Falem baixo, alguém da patrulha das mães abnegadas pode nos ouvir e me marcar com o carimbo da péssima mãe - horror! horror!). Hoje eu não tô cansada de ser mãe-torista, nem de inventar mil maneiras de distrair três filhos em férias enquanto estudo, nem de preparar o que cada um quer pro jantar, nem de adular um fiapinho de gente pra comer. Tudo isso cansa, claro, mas se resolve facilmente. 
Eu ando cansada mesmo é de não ter as respostas e de nem sempre saber a quem recorrer. É de ter que seccionar as crianças em departamentos para que os especialistas possam me ensinar como agir. Eu ando farta dessa minha bússola quebrada que nunca aponta o norte. E hoje, só hoje, eu vou sentir inveja da minha avó e vou repetir aquela ideia infame de que já foi mais fácil criar filhos. Amanhã, tudo normal de novo.