Afinidade é um negócio difícil de explicar. Tem gente com quem a gente convive por anos mas que não chega assim tão perto da gente. Tem gente que em cinco minutos vira amiga de infância. Com a Eulália foi assim. Nos conhecemos adultas e viramos amigas de infância. Nossas vidas coincidiram tanto que tem horas que eu conto alguma coisa de um tempo em que ela não estava e ela parece lembrar. Da afinidade pra amizade, nos apoiamos há alguns anos. Coincidimos em profissão, taxa de natalidade acima da média (rs), sonhos, planos, ansiedades... até nossas pesquisas acadêmicas são parecidas. Tão coincidentes nossas vidas que passamos por perrengues com nossos pais ao mesmo tempo. Durante dois dias, meu pai e a mãe dela foram colegas de quarto numa UTI. O meu foi embora, a mãe dela tá aí lutando bravamente. Os muitos quilômetros que separam Teresina e Nagoya não nos impediram de apoiar uma a outra. As mensagens no whatsapp valeram pelos abraços que ela me daria se tivesse aqui.
Já ouvi por aí que não se faz amigos na vida profissional. A competição impediria isso. Ainda bem que nunca acreditei nessa balela. Minha amiga, jornalista como eu, professora como eu, pesquisadora de gênero e redes sociais como eu, me mostra todo dia que é possível ser amigo em meio à busca pela sobrevivência e pelo sucesso. Ao contrário, a gente ajuda uma a outra. Não tem nada que eu já tenha escrito que ela não tenha lido antes. Não tem nenhuma decisão da minha vida profissional que não tenha sido discutida com ela. E há muito espaço no mundo pra nós duas. Ainda bem.
Amigo pra te apoiar na dificuldade é coisa boa. Mas raro, raro mesmo, é amigo que torce por você, que fica feliz pelas tuas conquistas. E com a gente é assim. Se tudo tiver uma merda pra mim, vou ficar feliz de que ao menos pra ela tudo tá indo melhor. E vice-versa.
"A gente não faz amigos, reconhece-os". No território sem lei da internet, já vi essa frase atribuída a Vinícius de Moraes, Caio Fernando Abreu, Luiz Fernando Veríssimo. Sei lá quem disse isso. Mas é a verdade mais óbvia e linda. Amigo a gente reconhece, e fica imaginando porque mesmo aquela pessoa não tava na vida desde sempre.
Pra minha amiga de infância que eu conheci já adulta, desejo todas as coisas melhores da vida, as mesmas que desejo pra mim, as mesmas que quero para nossos filhos. E que volte logo desse doutorado pra gente voltar a comemorar aniversário juntas. Omedeto tanjobi, tomodashi.
Repositório de pequenos sonhos, epifanias e certezas transitórias. Espaço de despejo do excesso que pesa na alma. Lugar de ser pequena quando tudo fora é grande demais.
terça-feira, 29 de julho de 2014
terça-feira, 20 de maio de 2014
Preguiça
Eu ando com muita, muita preguiça. É o peso dos anos, eu sei. Trinta e muitos vividos a mil. Mas não é meu corpo que se ressente desse ritmo, mas minha alma mesmo. Tenho preguiça de tudo. Me incomoda essa história de ter que conhecer pessoas, de falar com pessoas, de me deixar descobrir. As mesmas pessoas estão aqui há anos, e elas me bastam. Eu, que sempre gostei do novo, ando cada vez mais desejosa do que me é familiar.
Tenho preguiça de responder a perguntas, de ouvir respostas, de ver olhares de admiração ou espanto. Como na primeira vez que alguém me vê de óculos, e fica impressionada com o fato de eu ter 7,5 de miopia em cada olho. Ora, mas se você estivesse aqui desde sempre, saberia que uso óculos desde os 12 anos de idade, que a miopia vem da família do meu pai, que eu odeio usar óculos – não por uma questão estética, mas porque não gosto de depender deles ou das lentes de contato e tenho medo do dia em que não encontrá-los.
Se você estivesse por aqui há algum tempo saberia que durmo com os óculos embaixo do travesseiro, às vezes dentro da fronha, porque vai que tem um terremoro e eu tenho que fugir e salvar meus luizes? E saberia também que tenho pavor de acordar e não encontrar os óculos e que aqueles míseros segundos entre o abrir de olhos e o gesto de colocar os óculos no rosto concentram a maior quantidade de tensão e desespero possível. Sim, e a pergunta óbvia que vem agora é: “por que você não faz a cirurgia”, à qual eu teria que responder, já que você não está aqui desde sempre, que eu já tentei, mas por alguma razão a anatomia do meu olho não permite que a tal cirurgia tenha efeito em mim. E, sim, se você estivesse aqui desde sempre saberia também que eu colocava nomes masculinos nos meus óculos, mas todos com Z: tive o Zózimo, o Ziraldo, o Zaratrusta, etc. A mania de nomear os óculos passou, mas continuo nomeando objetos, porque acho que a vida fica mais divertida assim. E eu não teria que te explicar que depois que descobri que Chico Buarque tem essa mesma mania pulei de alegria porque afinal tenho algo em comum com aquele que eu sempre fantasiei ser o homem da minha vida.
E quanto tempo se gasta pra se explicar tanta coisa? Pois é. Muita, muita preguiça. A volta no quarteirão que eu dou antes de chegar no meu destino, caso esteja passando uma música que eu gosto – porque as melhores músicas sempre começam quando a gente tem que parar o carro. Mas isso você só entenderia se estivesse por aqui há um tempo. E eu tenho muita, muita preguiça de me explicar. E principalmente preguiça da previsibilidade das reações que encontro.
Não tem conversa que faça ninguém entender como alguém pode ser tão absolutamente destemida pra tudo mas se trema de pavor ao ver um determinado tipo de flor. E, na verdade, essa é uma pegadinha: não é pra ser entendido. Se você estivesse aqui desde sempre saberia que eu não discuto sobre esse medo, mas espero que meu pavor seja respeitado e não ridicularizado. Tem tantas outras coisas que só quem está aqui desde sempre sabe, porque viveu comigo, porque entendeu sem ter que ser explicado, porque sabe de onde eu vim, e divide a deliciosa dúvida de pra onde mesmo vamos todos nós.
Sim, faz um calor desgraçado, mas eu só durmo de lençol. Porque sem me cobrir me sinto desprotegida, e a hora do sono é sempre a pior do dia pra mim. Eu tenho uma dificuldade enorme pra dormir e também pra me manter dormindo. Eu tenho pesadelos. Ou então sonhos bons, mas intensos demais, que me deixam cansada e triste e ressacada ao acordar. Meus sonhos têm muitas cores e sons, e eu acordo pra uma vida que exige de mim uma postura preto no branco. E até hoje tenho vontade de bater minha cabeça na parede pra parar de pensar. Mas você não entenderia nada disso, porque, pra quem é novo, o outro acabou de nascer. E, ai, já faz tanto tempo que pelejo por aqui que me dá preguiça de explicar de onde vem esses meus gestos e atitudes, que foram construídas por tantas situações, tantas pessoas, tantas gargalhadas.
Sim, eu tenho um sorriso enorme, eu mostro as gengivas, mas também tenho o mau humor mais mau humorado do mundo. Eu sou capaz de azedar leite só de olhar nos dias em que tô virada no cão. Eu fico insuportável e choro porque nem eu me aguento quando sinto dor na alma. E tenho um monte de amigos que me escutam e não acreditam que eu possa ser tão absurdamente boba e dramática assim. Mas eles estão aqui desde sempre e eu nunca preciso explicar os porquês. E esse é o melhor travesseiro pra uma cabeça cheia e uma alma triste.
Eu sempre como o miolo do pão antes. Eu gosto de pizza gelada na manhã da segunda-feira. Eu vivo esquecendo refeições. Eu assisto TV, trabalho, navego e bato papo na internet - tudo ao mesmo tempo agora. E funciono melhor assim. Eu gosto de gatos porque eles são independentes e não se jogam aos pés do dono como cachorros. Eu gosto de cozinhar mas não tenho feito isso muito, não. Eu sinto muito frio, sempre. Mas eu gosto de calor.
Mas você teria que aprender tudo isso, e o exato peso de cada uma dessas pequenas idiossincrasias. E eu tenho muita preguiça de explicar. Seria preciso que você estivesse aqui desde sempre. E seria preciso que eu soubesse me comunicar, o que aliás eu faço muito mal. E você entenderia que essa minha fissura por aprender línguas é reflexo direto da minha vontade de melhor comunicar. Porque eu sei que é preciso buscar em cada palavra o sentido exato, ou buscar, pra cada mínima coisa que se quer dizer, a palavra que lhe traduz, e pra isso é preciso que eu busque em todas as línguas disponíveis, pra que aquilo que eu digo seja não só que eu sinto, mas também seja decodificaco pelo outro como exatamente o que está dentro de mim. Eu quero sintonia. É isso. É por isso que tento aprender línguas. É por isso também que gesticulo tanto, com minhas mãos enormes, tentanto me fazer entender. E é difícl entender, se você chegou agora, que meus gestos são grandes e minhas expressões exageradas exatamente porque sempre me faltam as palavras, mesmo que isso pareça paradoxal, já que eu falo tanto.
Mas você não estava aqui e não tem a menor ideia. E eu tenho toda a preguiça do mundo.
Tenho preguiça de responder a perguntas, de ouvir respostas, de ver olhares de admiração ou espanto. Como na primeira vez que alguém me vê de óculos, e fica impressionada com o fato de eu ter 7,5 de miopia em cada olho. Ora, mas se você estivesse aqui desde sempre, saberia que uso óculos desde os 12 anos de idade, que a miopia vem da família do meu pai, que eu odeio usar óculos – não por uma questão estética, mas porque não gosto de depender deles ou das lentes de contato e tenho medo do dia em que não encontrá-los.
Se você estivesse por aqui há algum tempo saberia que durmo com os óculos embaixo do travesseiro, às vezes dentro da fronha, porque vai que tem um terremoro e eu tenho que fugir e salvar meus luizes? E saberia também que tenho pavor de acordar e não encontrar os óculos e que aqueles míseros segundos entre o abrir de olhos e o gesto de colocar os óculos no rosto concentram a maior quantidade de tensão e desespero possível. Sim, e a pergunta óbvia que vem agora é: “por que você não faz a cirurgia”, à qual eu teria que responder, já que você não está aqui desde sempre, que eu já tentei, mas por alguma razão a anatomia do meu olho não permite que a tal cirurgia tenha efeito em mim. E, sim, se você estivesse aqui desde sempre saberia também que eu colocava nomes masculinos nos meus óculos, mas todos com Z: tive o Zózimo, o Ziraldo, o Zaratrusta, etc. A mania de nomear os óculos passou, mas continuo nomeando objetos, porque acho que a vida fica mais divertida assim. E eu não teria que te explicar que depois que descobri que Chico Buarque tem essa mesma mania pulei de alegria porque afinal tenho algo em comum com aquele que eu sempre fantasiei ser o homem da minha vida.
E quanto tempo se gasta pra se explicar tanta coisa? Pois é. Muita, muita preguiça. A volta no quarteirão que eu dou antes de chegar no meu destino, caso esteja passando uma música que eu gosto – porque as melhores músicas sempre começam quando a gente tem que parar o carro. Mas isso você só entenderia se estivesse por aqui há um tempo. E eu tenho muita, muita preguiça de me explicar. E principalmente preguiça da previsibilidade das reações que encontro.
Não tem conversa que faça ninguém entender como alguém pode ser tão absolutamente destemida pra tudo mas se trema de pavor ao ver um determinado tipo de flor. E, na verdade, essa é uma pegadinha: não é pra ser entendido. Se você estivesse aqui desde sempre saberia que eu não discuto sobre esse medo, mas espero que meu pavor seja respeitado e não ridicularizado. Tem tantas outras coisas que só quem está aqui desde sempre sabe, porque viveu comigo, porque entendeu sem ter que ser explicado, porque sabe de onde eu vim, e divide a deliciosa dúvida de pra onde mesmo vamos todos nós.
Sim, faz um calor desgraçado, mas eu só durmo de lençol. Porque sem me cobrir me sinto desprotegida, e a hora do sono é sempre a pior do dia pra mim. Eu tenho uma dificuldade enorme pra dormir e também pra me manter dormindo. Eu tenho pesadelos. Ou então sonhos bons, mas intensos demais, que me deixam cansada e triste e ressacada ao acordar. Meus sonhos têm muitas cores e sons, e eu acordo pra uma vida que exige de mim uma postura preto no branco. E até hoje tenho vontade de bater minha cabeça na parede pra parar de pensar. Mas você não entenderia nada disso, porque, pra quem é novo, o outro acabou de nascer. E, ai, já faz tanto tempo que pelejo por aqui que me dá preguiça de explicar de onde vem esses meus gestos e atitudes, que foram construídas por tantas situações, tantas pessoas, tantas gargalhadas.
Sim, eu tenho um sorriso enorme, eu mostro as gengivas, mas também tenho o mau humor mais mau humorado do mundo. Eu sou capaz de azedar leite só de olhar nos dias em que tô virada no cão. Eu fico insuportável e choro porque nem eu me aguento quando sinto dor na alma. E tenho um monte de amigos que me escutam e não acreditam que eu possa ser tão absurdamente boba e dramática assim. Mas eles estão aqui desde sempre e eu nunca preciso explicar os porquês. E esse é o melhor travesseiro pra uma cabeça cheia e uma alma triste.
Eu sempre como o miolo do pão antes. Eu gosto de pizza gelada na manhã da segunda-feira. Eu vivo esquecendo refeições. Eu assisto TV, trabalho, navego e bato papo na internet - tudo ao mesmo tempo agora. E funciono melhor assim. Eu gosto de gatos porque eles são independentes e não se jogam aos pés do dono como cachorros. Eu gosto de cozinhar mas não tenho feito isso muito, não. Eu sinto muito frio, sempre. Mas eu gosto de calor.
Mas você teria que aprender tudo isso, e o exato peso de cada uma dessas pequenas idiossincrasias. E eu tenho muita preguiça de explicar. Seria preciso que você estivesse aqui desde sempre. E seria preciso que eu soubesse me comunicar, o que aliás eu faço muito mal. E você entenderia que essa minha fissura por aprender línguas é reflexo direto da minha vontade de melhor comunicar. Porque eu sei que é preciso buscar em cada palavra o sentido exato, ou buscar, pra cada mínima coisa que se quer dizer, a palavra que lhe traduz, e pra isso é preciso que eu busque em todas as línguas disponíveis, pra que aquilo que eu digo seja não só que eu sinto, mas também seja decodificaco pelo outro como exatamente o que está dentro de mim. Eu quero sintonia. É isso. É por isso que tento aprender línguas. É por isso também que gesticulo tanto, com minhas mãos enormes, tentanto me fazer entender. E é difícl entender, se você chegou agora, que meus gestos são grandes e minhas expressões exageradas exatamente porque sempre me faltam as palavras, mesmo que isso pareça paradoxal, já que eu falo tanto.
Mas você não estava aqui e não tem a menor ideia. E eu tenho toda a preguiça do mundo.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
O mundo é bão, Sebastião!
Sou muito, muito pollyanna. E não faço o menor segredo disso. Acho, sim, que as coisas sempre acontecem pro bem, e tenho tido provas disso em acontecimentos sérios e em pequenas coisas do cotidiano. O acaso tem sido sempre bacana comigo. Sorte ou lei do retorno, nem sei. Mas pouco importa.
Tenho preguiça de gente negativa, da hiena Hardy, de quem só vê o mal em tudo. E por isso mesmo faço questão de contar quando alguma coisa bacana e inesperada acontece comigo. Chega de desgraça - tem que divulgar as coisas boas, as ações bacanas, as pessoas do bem. Agenda positiva, mia gente!
De ontem pra hoje, tive mais uma prova de que "o mundo é bão, Sebastião".
Sai de Teresina pra Picos, de ônibus, com duas sacolas de mão, uma sacola térmica, minha bolsa e uma mochila nas costas (com meu notebook). Sim, é coisa demais, eu sei. Mas o que seriam dois volumes viraram cinco depois de passar pela casa da mamãe. Enfim, embarquei em Teresina com tudo isso e desci em Picos com tudo, MENOS a mochila com meu notebook e toda a minha vida acadêmica.
Fui pra casa, tomei banho, jantei, papeei. O ônibus seguiu pra Recife. Já quase indo dormir, dei pela falta da mochila. "Jisus Maria José, meus escritos! Minhas aulas! Meus artigos! Minhas fotos! Minha vida!"
Fui à rodoviária, falei com o funcionário da empresa, peguei o telefone do gerente, etc e tal. Liga de lá, liga de cá. Gerente, guichê em Araripina, guichê em Recife, motorista, garagem em Recife... E o que todo mundo dizia era: "É claro que você não vai achar a tua mochila. Se ao menos tivesse ficado no bagageiro... Mas na cadeira?"
E haja fazer promessa a São Longuinho. E haja responsar Santo Antonio (que dizem que pra marido né bom, não, mas pra achar coisa perdida...).
Hoje de manhã liguei umas três vezes pra garagem em Recife, e nada do ônibus chegar. Já quase desistindo, ligo de novo pro gerente da Progresso em Picos. Ele tinha localizado a mochila, o motorista já tinha guardado e ela já estava a caminho de Picos. Agora há pouco peguei a bichinha de volta no guichê da empresa.
Muita sorte? Talvez. Ou talvez a resolução tenha sido essa porque eu teria feito exatamente a mesma coisa que esse gerente gente boa fez. Um pouquinho de empenho dele e minha vida foi salva.
O mundo é bão, Sebastião!!!
Tenho preguiça de gente negativa, da hiena Hardy, de quem só vê o mal em tudo. E por isso mesmo faço questão de contar quando alguma coisa bacana e inesperada acontece comigo. Chega de desgraça - tem que divulgar as coisas boas, as ações bacanas, as pessoas do bem. Agenda positiva, mia gente!
De ontem pra hoje, tive mais uma prova de que "o mundo é bão, Sebastião".
Sai de Teresina pra Picos, de ônibus, com duas sacolas de mão, uma sacola térmica, minha bolsa e uma mochila nas costas (com meu notebook). Sim, é coisa demais, eu sei. Mas o que seriam dois volumes viraram cinco depois de passar pela casa da mamãe. Enfim, embarquei em Teresina com tudo isso e desci em Picos com tudo, MENOS a mochila com meu notebook e toda a minha vida acadêmica.
Fui pra casa, tomei banho, jantei, papeei. O ônibus seguiu pra Recife. Já quase indo dormir, dei pela falta da mochila. "Jisus Maria José, meus escritos! Minhas aulas! Meus artigos! Minhas fotos! Minha vida!"
Fui à rodoviária, falei com o funcionário da empresa, peguei o telefone do gerente, etc e tal. Liga de lá, liga de cá. Gerente, guichê em Araripina, guichê em Recife, motorista, garagem em Recife... E o que todo mundo dizia era: "É claro que você não vai achar a tua mochila. Se ao menos tivesse ficado no bagageiro... Mas na cadeira?"
E haja fazer promessa a São Longuinho. E haja responsar Santo Antonio (que dizem que pra marido né bom, não, mas pra achar coisa perdida...).
Hoje de manhã liguei umas três vezes pra garagem em Recife, e nada do ônibus chegar. Já quase desistindo, ligo de novo pro gerente da Progresso em Picos. Ele tinha localizado a mochila, o motorista já tinha guardado e ela já estava a caminho de Picos. Agora há pouco peguei a bichinha de volta no guichê da empresa.
Muita sorte? Talvez. Ou talvez a resolução tenha sido essa porque eu teria feito exatamente a mesma coisa que esse gerente gente boa fez. Um pouquinho de empenho dele e minha vida foi salva.
O mundo é bão, Sebastião!!!
sábado, 12 de outubro de 2013
Numa noite qualquer
Ela era inábil com as palavras faladas. Não sabia, não conseguia, se atropelava, atropelava os outros, falava em um milhão de rotações por segundo, abria um zilhão de links e no final não dizia nada. Ela não sabia falar, embora (ou talvez porque) falasse tanto. E certamente por isso escrevia. E, sim, escrevendo sempre conseguiu se entender com outros seres humanos. Até o dia em que travou numa frase dele que piscava na janela do bate-papo. Frase ou intimação? Nem sabia. Apagou. Pra nunca mais ter que ler. Antes, deu pulos de alegria, administrou uma fisgada no estômago e quis ligar pro melhor amigo na Terra. Respirou 457 vezes, não ligou pra ninguém, não respondeu nada e emudeceu. Desligou o computador e o coração. E foi sambar. Porque o que não se resolver com samba, nem reza braba resolve. Convenientemente esqueceu o celular em casa também. Não estava triste, nem com medo, nem sei-lá-o-que-mais poderia estar. Ela simplesmente não estava. Aliás, ela simplesmente não está. E talvez ela simplesmente nunca esteve, embora quisesse tanto estar. As coisas são exatamente o que elas são, independente da nossa necessidade de acreditar que estamos no controle. E ela ultimamente tem optado por não ter controle de mais nada, nem mesmo de seus passos que tentam sambar sem saber. Mas tem ainda uma pontinha dela que desenha porquês nos muros dos sonhos, e que acorda assustada pensando que poderia ser mais simples. Mas que volta a dormir sem resposta e que, no final das contas, entendeu que a incerteza é bem mais rica que qualquer resposta.
sábado, 24 de agosto de 2013
O renascimento do parto
Ontem, finalmente, assisti ao documentário “O renascimento do parto”. A primeira cena já foi de revirar minhas tripas. Ah, não. Não era nada demais. Eram só imagens de uma cesárea, iguais as que eu tenho em casa, em fita VHS. Era a crueza de uma cirurgia de extrair feto, numa linha de montagem hospitalar. Era só uma cesárea, como tantas que acontecem diariamente no nosso brasilzão campeão mundial de cesáreas. Era só uma mãe relatando a dor que foi pra ela abrir mão do parto que queria, como tantas outras nesse brasilzão.
Mas o filme não mostra só isso: mostra, principalmente, como o parto foi transformado em um evento médico/hospitalar no Brasil. E como é possível também reverter isso. Eu sei, eu sei: essa minha conversa de “parto domiciliar”, de “protagonismo feminino”, de “nascer com amor” parece conversa de “hippies que abraçam árvores”. E pode até ser também. Mas vai lá e assiste o documentário que você vai entender.
Vai lá e ouve obstetras, pediatras, obstetrizes, enfermeiras obstetras, com suas vozes legitimadas pela ciência, dizendo que tá tudo errado. Vai lá e ouve também as vozes de mulheres que, como eu, não sabiam que era preciso brigar pelo direito a um parto como queriam. Vai lá e entende que a briga não é CONTRA a cesárea – sim, essa cirurgia pode, sim, salvar a vida de mulheres e crianças – mas a favor do direito de parir. E, principalmente, do direito de parir como quiser. Do direito da mulher decidir sobre o próprio corpo e o próprio parto. Do direito de ser informada de verdade e não apenas enganada e amedrontada com informações do tipo “rebimboca da parafuseta” que mecânicos de ponta de esquina gostam tanto de usar.
Vai lá também pra ver a história de mulheres, de casais, de famílias, que desafiaram o sistema e conseguiram fazer do parto um momento de amor. Vai lá e chora pelos partos que você não teve. Vai lá e cutuca a ferida, menina. Vai lá e vê como teu filho foi maltratado ao nascer em um hospital. Vai lá e pensa porque mesmo ninguém jamais coloca os procedimentos médicos em xeque. Vai lá e assiste as cenas de mulheres parindo amparadas pelos companheiros, em banquetas, em banheiras, onde ELAS se sentiram mais confortáveis, e não onde o médico disse que tinha que ser, e não em uma maca fria, com os pés presos em estribos. Vai lá e pensa que pode ser diferente. Vai lá e pensa fora da caixinha.
Eu fui lá. Eu vi e ouvi tudo aquilo. E lembrei, mais uma vez, que eu não briguei pelos meus partos. Eu, Clarissa, leonina, guerreira, brigona desde sempre, determinada e valente, brochei diante desse sistema. E não pari. Eu vi a mim mesma e a algumas amigas ali. Eu, Clarissa, doutoranda, super informada, classe média, detentora de um bom plano de saúde, me vi ali, como mais uma mulher impotente diante de um sistema que nos trata como incapazes de decidir. Eu, Clarissa, fui, vi, ouvi, chorei litros. E pensei que é preciso mudar a forma de entender gestação e parto, antes sequer de se pensar em mudar todo um sistema. E que, se não há um único vilão nessa história, é preciso que cada um se ocupe do vilão que melhor lhe cabe.
Mas o filme não mostra só isso: mostra, principalmente, como o parto foi transformado em um evento médico/hospitalar no Brasil. E como é possível também reverter isso. Eu sei, eu sei: essa minha conversa de “parto domiciliar”, de “protagonismo feminino”, de “nascer com amor” parece conversa de “hippies que abraçam árvores”. E pode até ser também. Mas vai lá e assiste o documentário que você vai entender.
Vai lá e ouve obstetras, pediatras, obstetrizes, enfermeiras obstetras, com suas vozes legitimadas pela ciência, dizendo que tá tudo errado. Vai lá e ouve também as vozes de mulheres que, como eu, não sabiam que era preciso brigar pelo direito a um parto como queriam. Vai lá e entende que a briga não é CONTRA a cesárea – sim, essa cirurgia pode, sim, salvar a vida de mulheres e crianças – mas a favor do direito de parir. E, principalmente, do direito de parir como quiser. Do direito da mulher decidir sobre o próprio corpo e o próprio parto. Do direito de ser informada de verdade e não apenas enganada e amedrontada com informações do tipo “rebimboca da parafuseta” que mecânicos de ponta de esquina gostam tanto de usar.
Vai lá também pra ver a história de mulheres, de casais, de famílias, que desafiaram o sistema e conseguiram fazer do parto um momento de amor. Vai lá e chora pelos partos que você não teve. Vai lá e cutuca a ferida, menina. Vai lá e vê como teu filho foi maltratado ao nascer em um hospital. Vai lá e pensa porque mesmo ninguém jamais coloca os procedimentos médicos em xeque. Vai lá e assiste as cenas de mulheres parindo amparadas pelos companheiros, em banquetas, em banheiras, onde ELAS se sentiram mais confortáveis, e não onde o médico disse que tinha que ser, e não em uma maca fria, com os pés presos em estribos. Vai lá e pensa que pode ser diferente. Vai lá e pensa fora da caixinha.
Eu fui lá. Eu vi e ouvi tudo aquilo. E lembrei, mais uma vez, que eu não briguei pelos meus partos. Eu, Clarissa, leonina, guerreira, brigona desde sempre, determinada e valente, brochei diante desse sistema. E não pari. Eu vi a mim mesma e a algumas amigas ali. Eu, Clarissa, doutoranda, super informada, classe média, detentora de um bom plano de saúde, me vi ali, como mais uma mulher impotente diante de um sistema que nos trata como incapazes de decidir. Eu, Clarissa, fui, vi, ouvi, chorei litros. E pensei que é preciso mudar a forma de entender gestação e parto, antes sequer de se pensar em mudar todo um sistema. E que, se não há um único vilão nessa história, é preciso que cada um se ocupe do vilão que melhor lhe cabe.
domingo, 4 de agosto de 2013
Mas nada verdade nada esconde essa minha timidez
Cansei. Prontofalei. Cansei da obrigação eterna de ser aquela que fala (não que eu não goste de falar), que diz pra onde ir (não que eu não goste de mandar), que sabe as respostas (não que eu não goste de bancar a fodona). Hoje quero gritar o manifesto do/a falso/a tímido/a. Sim, se existe falsa magra, falso bom moço, falso brilhante, porque não pode existir o falso tímido?
Eu, Clarissa Sousa de Carvalho, brasileira, divorciada, jornalista, professora, residente e domiciliada no Rio de Janeiro (mas com o coração e os dois pés bem fincados em Teresina-Piauí), venho através deste declarar que sou tímida. Falsa tímida, pero tímida. E não me venham cobrar atitudes porque não as terei. E não me venham cobrar eloquência, porque tem hora que meu coração vai pra garganta e trava minha voz. E não me venham, principalmente, esperar coerência, porque entre o querer e o fazer, entre o desejar e o dizer, há léguas de timidez a me emudecer.
Pelo direito de que cada pessoa extrovertida possa exercer livremente sua timidez, nesse país que se diz democrático!Eu, Clarissa Sousa de Carvalho, brasileira, divorciada, jornalista, professora, residente e domiciliada no Rio de Janeiro (mas com o coração e os dois pés bem fincados em Teresina-Piauí), venho através deste declarar que sou tímida. Falsa tímida, pero tímida. E não me venham cobrar atitudes porque não as terei. E não me venham cobrar eloquência, porque tem hora que meu coração vai pra garganta e trava minha voz. E não me venham, principalmente, esperar coerência, porque entre o querer e o fazer, entre o desejar e o dizer, há léguas de timidez a me emudecer.
Todo homem e toda mulher tem direito à liberdade, à busca da felicidade e ao exercício (mesmo que eventual) da timidez.
E tenho dito! Ora mais! Rum!
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Portadores de Saudades Crônica
No
Facebook, uma amiga propunha criar a Associação dos Portadores de Saudade
Crônica. Rapidamente eu e mais uns quinze nos candidatamos a membros da dita
associação. No atual momento, me arrisco a dizer que eu poderia ser a
presidente da APSC. Desde março vivo a uma distância de 2.603 quilômetros dos
meus filhos, da minha casa, dos meus pais, das minhas referências, dos meus
amigos e de tudo o que de mais importante tenho na vida.
Um doutorado me trouxe ao Rio e,
junto com a alegria de estar realizando um sonho, veio também o preço da
realização do mesmo: a saudade. Mas pensando bem, antes mesmo de vir para o Rio
eu já vivia imersa em saudade. Não, a saudade não é coisa nova na minha vida -
faz muito, muito tempo que não vivo sem saudade. Conclusão óbvia: crescer é
aprender a administrar saudades.
Enquanto nosso círculo social e
afetivo é pequeno, restrito à família imediata, é fácil ter todo mundo que a
gente quer bem por perto. Vamos crescendo e multiplicando afetos, construindo
laços e abrindo oportunidades para as saudades. Sim, saudades no plural. Porque
elas são muitas e diversas. A saudade que sentimos de um amor não é a mesma que
sentimos dos nossos pais, nem a mesma que sentimos dos nossos filhos e nem a
mesma que sentimos dos amigos queridos. Existem saudades e saudades – todas
dolorosas, embora algumas sejam mais quietinhas que outras. Tem saudade até da
gente mesmo – de quem a gente já foi e não é mais. Tem saudade do que não
aconteceu, do que a gente queria ter vivido, do que a gente passou tão perto,
bateu na trave e não viveu.
Tem saudade de todo tipo. Só não
existe é saudade boa. Porque saudade é sempre esse grilinho incomodando – tá
você ali todo feliz com uma conquista e pensa como sua avó ia ficar feliz de te
ver chegando onde você queria, ou como aquele seu amigo que sempre torceu por
você está agora tão longe, mas tão longe que você já nem consegue lembrar bem
de seu rosto.
Sim, somos todos membros da
Associação dos Portadores de Saudade Crônica. Esse é parte do preço que pagamos
por crescer, por amar, por partilhar nossa vida e nossos afetos. E, por mais
doloroso que seja, melhor a saudade do que a falta de afeto. Se a saudade é o
efeito colateral de distribuir amor por aí, que venham ainda muitas saudades
pra mim.
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