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quarta-feira, 24 de março de 2010

Companheirismo

Você pode até tentar. Você pode mesmo se esforçar. Você pode se ocupar e correr e nunca parar. Mas uma hora, no meio do trânsito, na sala de aula ou quando encostar a cabeca no travesseiro, ela vai pular no seu colo, invadir suas entranhas, escavar sua alma. Sim, a dor sempre vem, por mais que você fuja dela. Meu conselho? Entregue-se, curta sua dor, dê as mãos a ela, passeie com sua dor, leve-a ao supermercado, ao posto de gasolina, ao banheiro, à festa, ao bar. E no final você pode até não conseguir domá-la, mas pelo menos ela terá se tornado uma companheira pra sua solidão.

sábado, 13 de março de 2010

Só pra traduzir

Minha alma tem o peso da luz.
Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita,
prestes quem sabe a ser dita.
Tem o peso
de uma lembrança.
Tem o peso de uma saudade.
Tem o peso de um olhar.

Pesa como pesa uma ausência.
...e a lágrima que não se chorou.
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.


Clarice Lispector

terça-feira, 2 de março de 2010

Den Den Town

A noite em Den Den Town é o que se chama, em um clichê, de vibrante. Muita gente caminhando, japoneses em ebulição, cabelos e roupas extravagantes, letreiros enormes capazes de fazer Kassab se arrepiar. Luz, muita luz! A idéia de que japonês é tudo igual vai por água abaixo em Den Den Town: tem japa de cabelo louro, tem japa de cabelo Chitãozinho e Xororó, tem japa tatuado e japa com piercing. Tem japa embriagado e japa chapado. Tem muito, muito japa e muitos estrangeiros também.
E ontem fui a Den Den Town, pra tentar comprar uma máquina fotografica (consegui!), pra passear um pouco, pra não me trancar no meu quarto, pra comer no restaurante italiano que meus colegas tanto recomendavam, pra passar um tempo com os colegas que nunca mais vou ver.
Mas no meio da balbúrdia e excitação de Den Den Town, havia um silêncio que era mais ensurdecedor que o rock inglês que tocava insistente de dentro das lojas, mais alto que o "Iashamasen" gritado em voz estridente por cada atendente de cada loja, numa voz tão aguda que só quem já entrou numa loja japonesa pode entender. Havia um silêncio que não era de tristeza, mas de falta. E, contraditório como seja, era também um silêncio de presença, de olhar em volta e sentir em tudo, mesmo quando tudo a volta era completamente diferente do que se via antes.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Buaaaaaa 2

Esses dias ando chorona: saudade de casa, cansaço dos horários apertados, saudades do calor, abuso de tanto frio, vontade de correr de short e camiseta, agonia de tanta roupa e de tanta coisa pesando em cima de mim, cansaço de tanta japonice, de tanta rigidez, saudade do meu Brasil do improviso.
Sim, eu continuo chorando, e cada dia mais. Porque meu coração aperta quando bate e quando volta, dormindo ou acordada. Porque nenhum ângulo de nada me parece correto, e não importa que eu esteja de óculos ou não, tudo o que olho me parece vazio e incompleto.
Segundo os termômetros a temperatura em Osaka subiu. Mas na minha pele eu sinto mais frio que nunca. No tempo cronológico, estou bem perto da hora de ir embora. No tempo da minha alma, o tempo podia nunca ter saído do dia em que ele começou a ser contado. Nem passado, nem futuro. Quero mesmo é tempo parado.
Uma planta, um chocolate, uma música. Qualquer coisa ameaça minha frágil estabilidade.
Panquecas sem gosto, conversas sem sabor, água muito quente, excesso de cobertor, calor a noite. Dor de cabeça ao acordar. E quando abro a janela de manhã? Frio pra me saudar! Bom dia, estúpida, dormiu bem?
Continuo sem saber pegar o metrô direito. Continuo me perdendo e pretendo continuar. E quer saber: perdida, chorando, com frio, ainda vou dar meu jeito, meu bom e improvisado jeitinho brasileiro.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Buaaaaa

Às vezes a gente chora sem saber porquê. A torneira da alma abre e vaza um monte de dor e tristeza, desentupindo encanações que a gente insiste em bloquear com tudo o que encontra pela frente: papel, palavras perdidas, promessas antigas, gestos e atitudes.
Outro dia chorei na estação de Osaka, a caminho do trem. Pensei que chorava de frio, de raiva de estar mais uma vez perdida, da sensação de incapaz que só o analfabeto conhece bem. Mas na verdade eu chorava mesmo era de solidão, de saber que só a tinha a mim mesma pra contar. Desamparo de não ter pra quem ou como pedir ajuda.
Outro dia chorei num longo vôo e em vários aeroportos em países diferentes. Pensei que fosse de medo do que vinha, de ansiedade pelo desconhecido, da incerteza sobre minha decisão. Mas eu chorava mesmo era por saber que aquele vôo nao tinha volta, e que ele fechou a porta pra uma outra dimensão, onde um dia fui feliz.
Outro dia, chorei de raiva, de muita raiva. Toda a água do rio Amazonas não seria suficiente pra diluir tanto sentimento. E eu sabia bem porque chorava.
Outro dia chorei dentro do ônibus, a caminho da OSIC. Mas não era só de saudade dos meninos que eu chorava, era também de apreensão e de medo pelo futuro deles.
Outro dia, chorei na estação de ônibus de Nagoya. Esse choro eu sabia que era de uma saudade que ainda vem, de um gostar que exige convivência, de uma impossibilidade de se estar perto dos amigos que a gente ama. Mas era também um choro de saudade antiga, de saudade de mim, de saudade do que nós todos já fomos e nunca mais seremos. Era um choro de saudade de tantos planos. Mas era também de orgulho, de admiração: pelo menos alguns planos são concretizados, alguns sonhos se tornam reais.
E prevejo que ainda tenho muitas lágrimas pela frente. Espero pelo menos saber reconhecer que canos estão sendo desentupidos.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Leminski

-- que tudo se foda,
disse ela,
e se fodeu toda

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Assim falou a Wikipedia...

Ansiedade, ânsia ou nervosismo é uma característica biológica do ser humano, que antecede momentos de perigo real ou imaginário, marcada por sensações corporais desagradáveis, tais como uma sensação de vazio no estômago, coração batendo rápido, medo intenso, aperto no tórax, transpiração etc.
É isso o que diz a wikipedia.
Eu prefiro definí-la assim:
1. palpitação a mil do coração, mas sem que ele esteja no peito
2. criação de roteiros completos de longa-metragem pra própria vida, com falas, casting, iluminação e trilha sonora
3. impossibilidade de dormir
4. medo de sonhar, dormindo ou acordada
5. medo de nunca mais sonhar
Obs: independente de sua localização física, a ansiedade sempre faz com que sua alma se desloque do corpo.