O que o barro quer
o barro
toma a forma
que você quiser
você nem sabe
estar fazendo apenas
o que o barro quer
(Leminski)
Repositório de pequenos sonhos, epifanias e certezas transitórias. Espaço de despejo do excesso que pesa na alma. Lugar de ser pequena quando tudo fora é grande demais.
terça-feira, 13 de julho de 2010
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Isso não se faz, senhor Saramago!
Redinha na varanda, na beira do mar, vento batendo, surra de areia vez ou outra, livro de Saramago e cervejinha gelada. Perfeito. Aí você se depara com isso:
Eu sou todas as mulheres, todos os nomes delas são meus, disse lilith, e agora vem, vem depressa, vem dar-me notícia do teu corpo. (...) Desfrutemos então o tempo que nos resta, vem para mim, disse lilith. Abraçaram-se aos beijos, agarrados rolaram na cama de um lado para outro, e quando caim se encontrou sobre lilith e se preparava para a penetrar, ela disse, A marca da tua testa está maior, Muito maior, perguntou caim, Não muito, Às vezes penso que ela irá crescendo, crescendo, alastrando por todo o corpo e me converterei em negro, Era o que ainda me faltava, disse lilith soltando uma gargalhada, a que imediatamente sucedeu um gemido de prazer quando ele, num só impulso, a cravou até o fundo. (Caim)
OK, senhor Saramago. O senhor morreu, bateu as botas, desencarnou. Como ateu, imagino que deve ter acreditado que se desintegraria, deixaria de existir. Não vou aqui discutir esses mistérios insondáveis. Eu tenho lá minhas dúvidas sobre que diabo nos acontece ao morrer. Mas o fato é que outros, como eu, continuam aqui em carne e osso e nervos e boca e cabelos e ouvidos e todo o corpo recoberto por pele e terminações nervosas. Então faça-nos o favor de não nos provocar assim, combinado?
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Vamos a la playa ô ô ô ô ô
Dois biquinis. Uma canga. Dois vestidos. Camisola. Uma toalha. Lençol. O xenhenhém. Protetor solar. Hidratante. Shampoo, condicionador, sabonete. Opti-free. Brincos, só os que já estão na orelha. Anéis, os de sempre. Relógio fica, porque pesa, em vários sentidos. Havaianas, só um par. Caim, do Saramago, ganhado recentemente, direto de Portugal. Amigos, de monte. E uma vontade louca de descansar o corpo, esvaziar a mente e relaxar o coração.
As melhores viagens são as da alma, alguém já disse e eu nem sei quem foi. E eu vou de alma inteira me jogar na areia, tomar banho de mar pra tirar o carrego, comer caranguejo, falar besteira, embaraçar o cabelo com o vento, tirar soneca na rede.
Dá licença que eu vou bem ali fingir que eu não carrego nenhum peso.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
20 anos sem Cazuza
Todo mundo tem um ídolo na adolescência, e às vezes até leva a adoração pra vida adulta, como eu. Eu tive, e tenho, o Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza. Nem lembro bem quando começou minha admiração por ele, mas lembro que quando ele morreu, em 07 de julho de 1990, eu me senti entre órfã e viúva. (Perdoem o drama - meninas de 12 anos são assim mesmo. O bom é que um dia elas crescem. Ou não.)
O que lembro bem é do fascínio que me causavam as músicas dele. Eu gostava de ficar até altas horas da noite trancada no quarto ouvindo as músicas e cantando junto e pensando que a vida era muito, muito louca e triste, e que afinal alguém tinha coragem de dizer, naquele jeito jogado, vomitado, escrachado que só ele tinha, mesmo quando falava de amor. Era tudo tão maldito pela ótica dele, e eu achava que era tão bonito ser intenso assim... E aquela coragem dele de se assumir gay, de se assumir soropositivo - tudo isso me fazia pensar que eu queria ser corajosa assim, se fosse preciso.
Eu tava passando férias em Brasília quando ele morreu. Mas no dia mesmo, em 07 de julho, eu tava na fazenda da minha tia, em Formosa, e nem ouvi falar do fato. Cheguei em Brasília uns dois ou três dias depois. Eu e minhas primas na banca de revista da 205 Norte e eu vejo uma revista (que eu tenho até hoje) com as indicações de data de nascimento e de morte na capa, e a foto dele tão lindo de boina vermelha. Gelei. Olhei em volta e várias publicações traziam a foto do Cazuza. Pronto. Daí desabei a chorar. (Repito: meninas de 12 anos são dramáticas). Muitas lágrimas depois, seguidas de telefonemas pros meus pais em Teresina, e do consolo das minhas primas em Brasília, terminei a noite rindo: minha tia se fantasiou de fantasma do Cazuza e veio na janela do quarto nos assustar.
Duas décadas depois continuo amando essa energia escrachada do Cazuza, e a coragem que às vezes me falta e que nele sempre transbordou. E hoje não canso de pensar na mãe dele, que perdeu seu filho único. É que agora sou mãe, e arranjei outra maneira de exercer o lado dramático da menina de 12 anos que muitas vezes ainda sou.
(Tento desde ontem postar um vídeo do Cazuza aqui, mas simplesmente não carrega. Depois tento de novo)
terça-feira, 6 de julho de 2010
Férias
Última aula do semestre. "Enfim, férias", pensei. (mais ou menos férias, mas vá lá...) Amanhã não tenho que acordar cedo, nem que ficar até altas horas lendo textos e mais textos pra aula do dia seguinte. Oba!
Daí caiu a ficha da Sra. Nostalgia. Então amanhã não vou encontrar meus coleguinhas? Nem tomar baldes de café no corredor em frente à salinha do mestrado? Vou ficar dias sem a once-in-a-life-time identificação e os comentários picantes da Pavoa? Sem a perspicácia e a sempre-preparação da Monstro Antropológico? E sem seu apoio inteligente nas discussões em que sou maldosamente chamada de Clarissa de Beauvoir? E sem o cafuné carinhoso do André? E sem a voz insegura da Thaís, sempre seguida do meu grito: "te solta, criatura!"? Sem a metamorfose estética eterna da Joyce? Sem a voz de veludo e o abraço de urso do Marcão? Sem a pose "vim-da-praia" e a dicção engraçada do Lasanha? (Sem contar que há alguns dias já sumiram os Indiana Jones: Marcela pegou o rumo do Pará, e levou com ela aquele sotaque que eu adoro, e que me lembra tanto D. Lourdes. Eugênio levou seu cheiro não sei pra onde. Julimar deve tá em algum buraco de tatu.)
Quero não! Sou bichinho que se acostuma fácil a gente. E que mais fácil ainda gosta de gente. E vocês ocuparam boa parte das minhas horas esse semestre, e melhoraram meu mau humor matinal dia após dia. Exijo encontros semanais e cervejais, no bar oficial dos alunos do PPGARQ. E pra começar, vamos hoje mesmo orelhar. Já tô indo pra lá.
Fotos gentilmente cedidas pela Pavoa, que nas horas vagas é também fotógrafa oficial da turma.
domingo, 4 de julho de 2010
Los hermanos
Não, eu não devia postar algo assim por aqui. Eu devia respeitar os perdedores e dar graças a Deus que a derrota humilhante da Argentina ao menos nos livrou a todos de ver o Maradona pelado (visão do inferno!). Mas não me habitam os sentimentos nobres, como vocês bem sabem. E, mesmo que eu não ligue pra futebol, é sempre tão bom ver um argentino quebrar a cara... Então desde o dia em que gravei esse vídeo que penso nesse momento: a hora de finalmente trazer a público a certeza que os hermanos tinham de sua superioridade futebolística. Vai que é tua, Ariel!
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Eu mereço
Porque hoje eu tô cansada. Porque ontem eu dormi pouco. Porque tive aula o dia inteiro. Porque foi tão bom almoçar com o pessoal do mestrado. Porque quando eu penso que vou entrar de férias a seleção brasileira atrapalha. Porque eu achei que não teria aula amanhã. Porque eu vou, sim, ter aula, até a hora do jogo. Porque eu queria dormir até tarde. Porque eu tô com dor de cabeça. Porque eu esqueci de comprar o presente que o papai pediu. Porque amanhã isso vai ser motivo de encheção de saco. Porque abriram as portas do meduna. Porque todos os loucos do mundo me adotaram pra Cristo. Porque eu não sou Jó nem tenho parentesco com ele. Porque eu ando meio assustada. Porque minha mãe não chega nunca. Porque eu queria pegar logo a estrada. Porque hoje eu merecia ser dengada.
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