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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

M³ num país pertinho de você

Minha amiga Grosélia sempre escolhe um cantor/banda pra ser trilha sonora durante o processo de produção de um trabalho. Quando estávamos produzindo o livro M³-Mulher, Mãe, Moderna, ela escolheu Piazzolla para os momentos em que pensava sobre o design do livro, encaixava as ilustrações, definia formato, e paria o design esquizofrênico e lindo do nosso livro. Cada uma em sua casa, eu, Danda e ela passamos noites discutindo o livro pelo gtalk e ouvindo Piazzolla. Durante esse período, nos falávamos o dia inteiro - por telefone e via internet - tentando resolver tudo ao mesmo tempo agora, ao ponto de um dia a Danda me ligar pela milésima vez na mesma manhã e dizer as palavras que eu pensei em falar: "quando essa história desse livro acabar, vou me divorciar de ti, viu?"
Lançamos o livro no início de junho e, pelo menos pra mim, ficou um vazio de não ter mais esse projeto pra me dedicar, de não ter necessidade constante de falar com as duas, de não ver soluções nascerem de uma equipe que trabalhava em perfeita harmonia. Lançado o livro, cada uma voltou a dar atenção às outras áreas das nossas vidas que tinham sido negligenciadas durante o processo. Passamos a nos ver menos e nos falar menos. Normal.
Mas agora temos um outro motivo pra botar o Dream Team em funcionamento de novo: M³-Mulher, Mãe, Moderna será lançado em Buenos Aires, na Fundación Centro de Estudos Brasileiros, no dia 13 de outubro. Sim, lançaremos nosso filhote lá na terra de Piazzolla, aquele que embalou a feitura do nosso bebê. Se eu tô feliz??? Tô dando pulos de alegria, daquele jeito eufórico que eu tenho quando consigo uma coisa que eu nem imaginava.
Pra não correr o risco de algo dar errado, Grosélia e eu já compramos as passagens hoje à tarde. E pra Danda, tem uma reserva que vale até amanhã. Bora, mulé! Quando a gente chegar tu se divorcia da gente de novo. Bora chutar o pau da barraca, que é por uma ótima causa!

terça-feira, 31 de agosto de 2010

ECT

Saturno tem anéis. Dezoito no total. "Por você vou roubar os anéis de Saturno", canta Rita Lee. Tolkien escreveu "O Senhor dos Anéis", que virou filme pelas mãos de Peter Jackson (e eu não gostei de nenhum dos filmes). Quando eu era criança, gostava de brincar de "passa anel", na praça Isaías Coelho em Simplício Mendes. "Vão-se os anéis, ficam os dedos", dizem os mais velhos. Meus anéis foram, meus dedos ficaram pelados. Agora os anéis voltaram, inscrevendo energia, força, amor e equilíbrio na minha pele. Gestinho delicado esse.

sábado, 28 de agosto de 2010

Atualizando

Muito caro pagar deslocamento pra receber ligação. Então aproveito esse espaço pra justificar o fato de não estar atendendo o celular. Já em Brasília, cercada de amigos, esquentando os tamburins pra ir pro Suvaco da Asa comemorar que Antonio tá muito bem, sem sinal de câncer. E dra. Martha já considera a possibilidade de tornar o check-up dele anual, mesmo que seja pela vida toda. E vamo que vamo, que o samba já vai começar!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Voar é preciso

Medo de avião ela não tem. E nem de voar. Tem um pouco de medo, sim, de pousar naquele aeroporto quase fazendo high five com os moradores do prédios vizinhos. Mas na hora do pouso ela nem pensa nisso e só pede que, se for pra acontecer qualquer coisa, que seja rápido. Filosofia band-aid: puxa logo que é pra doer tudo de uma vez. Morre logo que é pra morrer sem dor. Mas ela não morre. (Às vezes ela chega a pensar que é imortal, de tanto que já pensou que ia morrer e quando olhou ainda tava no mesmo lugar.)
Dentro do avião ela pensa nas coisas que tem a fazer, na programação maluca que decidiu se impôr: rever amigos, Museu da Língua Portuguesa, rever família, Liberdade, tomar um vinho com o amigo querido, parque da Mônica, Sé, visita ao ateliê do amigo, receber o desenho pra sua tatuagem, sebos diversos. E depois, voar pra cidade-avião, reencontrar mais amigos, se aninhar na casa da tia querida, falar besteira com cumpadi Zé e primovisky, conhecer os filhos dos amigos nascidos nesse hiato de tempo em que não se viram, exibir seu próprio rebento, com indisfarçável orgulho. E depois, voar de volta pra casa, mais leve depois da overdose de carinho recebida.
Só de vez em quando, enquanto arrumava a mala, ela lembrava que não era exatamente isso que lhe fazia entrar no avião e pousar no meio dos prédios. Embora criasse outras razões e motivos, ela sabia bem porque voava pr'aquela cidade cinzenta. Havia ali um bairro chamado Liberdade, com uma rua chamada Professor Antonio Prudente, com um prédio enorme e assustador. Era lá que ela iria entrar com um pequeno guerreiro. Ela iria descer uma rampa pro subsolo - metáfora infernal essa, hein?- e entregar seu pequeno guerreiro em mãos nas quais ela confiava. E esperar. (Logo ela, que odiava esperar.) Esse ritual ela já conhecia e, por mais que tentasse se reconfortar lembrando que já havia passado por ele outras vezes, cada vez parecia a descida ao inferno de novo, cada vez outubro de 2007 lhe parecia mais perto. Mas ela sabia que enquanto esperasse, iria tentar encontrar um Deus que ela não sabe onde está, iria rezar o Santo Anjo do Senhor, do jeito que havia ensinado aos filhos, e iria alternar momentos de desesperança e confiança. Essa gangorra era também parte do ritual. Até que a médica de enormes olhos azuis saísse de dentro da sala e lhe dissesse que estava tudo OK, e daí ela já poderia respirar. (Ela sempre achou intrigante que uma oftalmologista oncológica tivesse olhos tão lindos quando todos os seus pacientes perderam ou estão em vias de perder pelo menos um dos olhos. É de uma soberba tão absurda exibir aqueles olhões enquanto aos seus pacientes já lhes satisfaria simplesmente ver, mesmo que com olhos feios, vesgos, caídos.)
Então, até o momento do ritual chegar, ela inventa coisinhas pra fazer, contacta amigos na cidade cinza, compra livros, assiste ao sorriso do pequeno Guerreiro enquanto ele brinca com o primo. Porque foi ele mesmo que ensinou a ela que a graça de tudo, nessas horas, está mesmo nas entrelinhas:
- Na próxima semana vamos a São Paulo pros seus exames.
- Ôba!
- Como assim ôba?
- Vou brincar com o Davi, e com o tio Guga. E vou no parque.
- Mas vai também no hospital, vai ter picadinha, e aquele cheirinho que te faz dormir...
- No hospital tem brinquedoteca, e tem a doutora Vivi.
Ele, muito mais que ela, sabia que era assim que se olhava de frente pra vida. E que é possível da ansiedade e da espera tirar o melhor. Se é ingenuidade ou sabedoria inata ela não sabe, mas é isso que faz dele um Guerreiro.

sábado, 21 de agosto de 2010

Dado, porradas e a suprema arrogância feminina

As revistas de celebridade são óbvias, como são óbvias as notícias sobre as celebridades. Fulana e Fulano casaram com pompa e circunstância, em recepção para mil talheres em um castelo com nome afrescalhado na Cornuália. Fulano e Fulana se separaram. Fulana foi visto com Beltrano no restaurante carésimo. "Somos apenas bons amigos" diz a manchete. E por aí vai. Mas esses dias a notícia óbvia de que Dado Dolabella (ator? cantor? bad boy?) agrediu a esposa salta, mesmo sem pop up, das homepages dos principais portais de notícias. Eu jurei que não comentaria sobre isso aqui, que esse Dado e sua digníssima não ocupariam meu espaço. Mas às vezes o óbvio merece ser falado.


Vamo lá: o cara tem o maior histórico de brigão, filhinho da babãe (que certamente é a única mulher que merece ser respeitada no mundo. Aliás ele deve ter uma tatuagem do tipo "Mother"ou "Love you, mom", assim em inglês mesmo, que é pra ser chique), o cara bateu na ex-namorada (toda a minha antipatia à Luana Piovanni não me impede de reconhecer o absurdo disso) e na camareira dela, o cara foi condenado e etc e tal. Daí a mocinha inocente resolve que ele é um partidão e, além de namorá-lo, ainda engravida e casa com ele. Roteiro de filme de terror. Agora chegou o grand finalle.


Ai, querida. Você não é culpada de ter sido agredida, mas como diz um amigo meu, entrou sabendo. Eu sabia. Seus pais certamente sabiam. O padeiro também. O porteiro do seu prédio. Seus amigos. Qualquer pessoa que passe por uma banca de jornais sabe que "encrenca" está escrito na testa desse rapaz. Mas você achou por bem encarar. Sabe por quê? Não é só porque você deve ser uma menininha romântica e que estava cega de amor. Nem porque você tava desesperada pra casar com o primeiro que topasse. Ou porque você gostasse mesmo de apanhar. Não, não é nada disso. O que acontece é que você certamente sofre da síndrome da suprema arrogância feminina.


Todas as mulheres do mundo, em menor ou maior grau, sofrem dessa síndrome - isso é fato. Os sintomas são clássicos:

1. acreditar no poder do amor, que é capaz de modificar qualquer brucutu e transformá-lo num urso de pelúcia de dia e numa sex machine à noite;

2. acreditar que a sua presença na vida do outro será um divisor de águas

3. dizer coisas do tipo: "ah! mas ele fazia isso com as outras porque não as amava de verdade! Comigo é diferente, porque ele agora encontrou o amor"


Ai, isso é tão clichê que dá até preguiça! Toda mulher já caiu numa esparrela dessas. Toda mulher já teve seu cafa - o cara que ela teima que vai se tornar outro pelo poder transformador do amor. Normal. E la nave va. Mas o problema é quando o brucutu em questão é um cara-que-bate-em-mulher. Aí, querida, não dá. Porque se o que os outros vão te causar é apenas uma sensação de impotência e a certeza de que seus beijos não transformam sapos em príncipes (a sua imaginação fértil é que faz isso), o cara-que-bate-em-mulher, além dos óbvios danos físicos, ainda vai te fazer sentir uma merda só porque você tem uma vagina e não tem metade da força dele. E nada mais importa - seu amor, sua inteligência, sua delicadeza, sua beleza, seus carinhos, ou seja lá o que você tenha; o simples fato de ser mulher já te faz valer menos e não merecer respeito nem mesmo à sua integridade física.


E, não, eu repito, não quero de maneira alguma dizer que você foi culpada. E acho que ele merece ser preso e torturado. Acho mesmo. Acho que ele merece se sentir impotente e fraco diante de outra pessoa, porque é assim que você deve ter se sentido quando foi agredida por ele. Mas acho que se nós mulheres fôssemos menos prepotentes, menos arrogantes, menos confiantes na nossa capacidade de mudar o outro, nos protegeríamos mais. Não, esses caras não deixariam de existir por isso. Mas deixaríamos de ser vítimas fáceis deles.

All U neeed is love

Ah, mas tem que falar. Tem que falar pra todo mundo que a bandinha na qual eu não botava a menor fé, a tal da banda cover oficial dos Beatles, arrasou ontem à noite. Trabalho bem feito tem que ser elogiado, gente. Mesmo que signifique dar a mão a palmatória. Sim, eu achava meio sem rumo esse negócio de ir ver show cover. Mas fui mesmo assim. Até porque nasci um pouco atrasada e dos Beatles eu só podia ver mesmo era cover. Mas eu ia me conformar em ouvir as músicas enquanto dirijo e a ver os vídeos no Youtube. Eu não queria um cover, um fake, uma imitação. E daí minha amiga, imperativamente como ela costuma fazer, me ligou e disse que tava fechando sei-lá-quantas mesas pro show. "Amanhã vou comprar. Passo na tua casa e pego o dinheiro" Nem deu tempo de eu contar pra ela que eu não sabia se queria ver o Beatles cover. Eu só concordei. E fui pro show. E fiquei fascinada. Sabe uma produção cuidada nos mínimos detalhes? Caracterização impecável, instrumentos da época, repertório bem escolhido. E os cabelos de John, Ringo, Paul e George? Dancei até minhas pernas doerem, e daí dancei mais ainda. Minha única queixa: não tocaram Strawberry Fields Forever. Mas tudo bem, fica pra uma próxima.