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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Voar é preciso

Medo de avião ela não tem. E nem de voar. Tem um pouco de medo, sim, de pousar naquele aeroporto quase fazendo high five com os moradores do prédios vizinhos. Mas na hora do pouso ela nem pensa nisso e só pede que, se for pra acontecer qualquer coisa, que seja rápido. Filosofia band-aid: puxa logo que é pra doer tudo de uma vez. Morre logo que é pra morrer sem dor. Mas ela não morre. (Às vezes ela chega a pensar que é imortal, de tanto que já pensou que ia morrer e quando olhou ainda tava no mesmo lugar.)
Dentro do avião ela pensa nas coisas que tem a fazer, na programação maluca que decidiu se impôr: rever amigos, Museu da Língua Portuguesa, rever família, Liberdade, tomar um vinho com o amigo querido, parque da Mônica, Sé, visita ao ateliê do amigo, receber o desenho pra sua tatuagem, sebos diversos. E depois, voar pra cidade-avião, reencontrar mais amigos, se aninhar na casa da tia querida, falar besteira com cumpadi Zé e primovisky, conhecer os filhos dos amigos nascidos nesse hiato de tempo em que não se viram, exibir seu próprio rebento, com indisfarçável orgulho. E depois, voar de volta pra casa, mais leve depois da overdose de carinho recebida.
Só de vez em quando, enquanto arrumava a mala, ela lembrava que não era exatamente isso que lhe fazia entrar no avião e pousar no meio dos prédios. Embora criasse outras razões e motivos, ela sabia bem porque voava pr'aquela cidade cinzenta. Havia ali um bairro chamado Liberdade, com uma rua chamada Professor Antonio Prudente, com um prédio enorme e assustador. Era lá que ela iria entrar com um pequeno guerreiro. Ela iria descer uma rampa pro subsolo - metáfora infernal essa, hein?- e entregar seu pequeno guerreiro em mãos nas quais ela confiava. E esperar. (Logo ela, que odiava esperar.) Esse ritual ela já conhecia e, por mais que tentasse se reconfortar lembrando que já havia passado por ele outras vezes, cada vez parecia a descida ao inferno de novo, cada vez outubro de 2007 lhe parecia mais perto. Mas ela sabia que enquanto esperasse, iria tentar encontrar um Deus que ela não sabe onde está, iria rezar o Santo Anjo do Senhor, do jeito que havia ensinado aos filhos, e iria alternar momentos de desesperança e confiança. Essa gangorra era também parte do ritual. Até que a médica de enormes olhos azuis saísse de dentro da sala e lhe dissesse que estava tudo OK, e daí ela já poderia respirar. (Ela sempre achou intrigante que uma oftalmologista oncológica tivesse olhos tão lindos quando todos os seus pacientes perderam ou estão em vias de perder pelo menos um dos olhos. É de uma soberba tão absurda exibir aqueles olhões enquanto aos seus pacientes já lhes satisfaria simplesmente ver, mesmo que com olhos feios, vesgos, caídos.)
Então, até o momento do ritual chegar, ela inventa coisinhas pra fazer, contacta amigos na cidade cinza, compra livros, assiste ao sorriso do pequeno Guerreiro enquanto ele brinca com o primo. Porque foi ele mesmo que ensinou a ela que a graça de tudo, nessas horas, está mesmo nas entrelinhas:
- Na próxima semana vamos a São Paulo pros seus exames.
- Ôba!
- Como assim ôba?
- Vou brincar com o Davi, e com o tio Guga. E vou no parque.
- Mas vai também no hospital, vai ter picadinha, e aquele cheirinho que te faz dormir...
- No hospital tem brinquedoteca, e tem a doutora Vivi.
Ele, muito mais que ela, sabia que era assim que se olhava de frente pra vida. E que é possível da ansiedade e da espera tirar o melhor. Se é ingenuidade ou sabedoria inata ela não sabe, mas é isso que faz dele um Guerreiro.

3 comentários:

vanessa disse...

cumadre,
quando vc desce a rampa do hospital, vc não vai sozinha. leva sempre junto com vc os pensamentos positivos e a fé que nada de ruim vai acontecer com o nosso garotinho. Mesmo que vc veja e não sinta, todas as vezes que vcs vão a São Paulo, nós vamos junto com vcs.
beijos e fique calma.
vanessa - a segunda mãe do guerreiro.

Pavoa disse...

Simplesmente, emocionante!
bj

Penélope Charmosa disse...

Cumade Vanessa, eu sei q vcs todos vem junto. E principalmente vc, segunda mãe do guerreiro.

Pavoa querida, bj pra vc!