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domingo, 12 de setembro de 2010

Uma questão de referencial

Conheci Ferreira Gullar em 1994, através de um professor de literatura que eu amava. Conheci é maneira de dizer, obviamente. Fui apresentada pra sua obra por esse professor. Na verdade, ele me mostrou a poesia abaixo pra me convencer a esquecer meus preconceitos contra poesia rimada (sim, um dia eu pensei que tudo que rimava era chato). Foi a porta de entrada que eu precisava pra conhecer o poeta Ferreira Gullar, e depois o cronista, e depois o escritor de livros infantis (se você é, como eu, uma apaixonada por gatos e/ou por literatura infantil, leia "Um gato chamado Gatinho"). E lá se vão anos que eu leio e releio o moço. E o poema abaixo, mostrado pelo professor, me encantou ainda adolescente, muito por causa de uma paixonite que ostentava olhos verdes e pele morena.
DOIS E DOIS SÃO QUATRO
Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena
Como é azul o oceano
e a lagoa, serena
como os teus olhos são claros
e a tua pele morena
Como um tempo de alegria
por trás do terror me acena
e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena
Sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.
E daí que hoje eu acordei pensando nesse poema. Na verdade, acordei com vontade de ler Ferreira Gullar. E como a minha vida está toda encaixotada, nem tive coragem de tentar achar nada. Mas tomei café-da-manhã pensando nesse poema. E em como ele tinha me encantado há uns bons quinze anos atrás, e em como continuava me encantando. E em como as razões pro encantamento vão mudando com o passar do tempo. Parece que só agora entendo como o pão é caro e a liberdade pequena. E como mesmo assim a gente encontra no meio do terror diário a alegria pra seguir vivendo e sorrindo e brincando de ser gente. Otimismo em estado puro, mas não o otimismo besta pollyanna. Otimismo gullariano - isso sim! E por mais que eu queira acreditar que agora definitivamente achei o sentido pro poema, sei que talvez, aos setenta anos, eu passe a gostar dele de novo por causa de algum moço de olhos verdes e pele morena. O importante é que sempre existe uma razão pra se gostar do Ferreira Gullar.
P.S: Meu telefone acaba de tocar. Do outro lado da linha a amiga, indignada, pergunta: "que diabo de professor de literatura de olhos verdes é esse que eu não lembro?" Hahahaha! Confusãozinha básica: o professor não era o alvo da paixonite, dã! Acho que ficou parecendo isso aí em cima, mas no ensino médio era contra a minha religião ficar com professor. Equívoco esclarecido, amiga, apesar da preguiça de mexer no texto pra deixá-lo mais claro.

sábado, 11 de setembro de 2010

De volta pra casa

Cansada. Acabada. Exausta. Hecha mierda, como diriam los hermanos. Mas tão feliz de estar em casa, no meu calorzinho amado, com meus homenzinhos amados. Depois falo do Rio. Agora eu queria mesmo era poder dormir até não poder mais. Mas... luizes não deixam, o trabalho daqui a pouco não deixa. Só sei que tô feliz de tá em casa. Não queria ter que viajar de novo tão cedo. Qualquer dia desses eu me convenço a ficar bem paradinha aqui assim. Qualquer dia desses.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

É hoje o dia...

Ai, minha gente, eu nem ia passar por aqui hoje. Correndo como uma louca pra deixar tudo fechadinho antes de embarcar pro Rio. Mas... acabo de saber que hoje é dia do sexo. Vejam bem: hoje, 06/09, tipo 69, é dia do sexo. Coisinha sugestiva, hein? Será que todo mundo comemora o dia do sexo como comemora o do trabalho, sem exercê-lo? (perguntinha retórica, ninguém precisa responder). Pois eu sou contra o dia do sexo. Porque, veja bem, pra que seja preciso eleger um dia é porque a coisa tá meio por baixo, né não? (isso não é um trocadilho infame). Será que essa data foi inventada por alguém completamente a perigo, na seca do deserto? Sei não. Só sei que o Dia do Orgasmo é 31 de julho, o dia do meu aniversário. Ho ho ho! Pronto, já vou!

domingo, 5 de setembro de 2010

Sem-vergonhice

Não é nada disso que você e sua mente imunda estão pensando, não. O que eu queria dizer é que ando num movimento de assumir até mesmo as coisas que me dão vergonha. Ando me assumindo mulherzinha, ando chorando quando tenho vontade, ando fazendo o que me dá vontade, ando ligando pra quem me dá vontade na hora que a vontade bate, ando falando o que quero na lata. E tem sido engraçado e libertador. Pode ser que amanhã ou depois eu acorde de novo cheia de vergonha na cara e com a culpa de estimação que costumava me acompanhar. Mas por enquanto tô achando tudo isso muito divertido!
E como eu gosto de fechar o domingo com música, lá vai mais uma humilhação pública: eu AMO o Sidney Magal. Prontofalei! E tem coisa mais pretenciosa e absurda que um cara que diz que tem "um mundo de sensações e de vibrações pra te oferecer". Tem que rir, meu povo. Mas eu aposto que o Magal tem mesmo! Boa semana pra todos nós.

sábado, 4 de setembro de 2010

Maravilha a girar

Não, ver Jorge Benjor não é suficiente. Não é suficiente ir ao show vê-lo todo de branco, de óculos escuros e esquecendo a simpatia. Foi preciso antes fazer a base na casa da Jana e Tamar. Foi preciso cantar e dançar de testa pro palco, olhando pra cima até o pescoço doer. Foi preciso soletrar cada letra de música, com os lábios e com o corpo, que não conseguia ficar parado. Foi preciso ter muitos amigos por perto. Foi preciso quase perder a voz. Foi preciso euforia. Foi preciso lembrar de como eu gostava de ouvir Alcohol quando era adolescente. Foi preciso ouvir um roteiro de novela de Manoel Carlos, mas com um toque trash de novela mexicana. (É incrível como tem gente que tem o dom de falar as coisas mais absurdas como se pedisse uma coca-cola ao garçon. Realismo fantástico total.) Foi preciso me perder umas dez vezes, e me reencontrar com pessoas queridas em cada uma delas. Foi preciso constatar que era festa do advogado mas o que mais tinha era jornalista (que bom!). Foi preciso ser uma noite saltimbancos. Salve Jorge.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Sempre mais do mesmo

Eu já estaria milionária se ganhasse um real pra cada vez que ouço alguma das frases abaixo:

- Mãããããe!
- Foi ele que começou!
- Ô, professora, deixa eu entregar o trabalho amanhã?
- Minha impressora deu pau.
- O cachorro comeu meu trabalho.
- O pendrive não abre.
- Você tá tensa?
- Tá na TPM?
- Dá pra traduzir esse resumo? É pequenininho. E é pra hoje à tarde.

Mau humor mode on! E olha que hoje é sexta-feira, um dia que eu costumo amar! Imagina só o domingo como vai ser! Se você tiver o azar de encontrar comigo pela rua, mude de calçada, que hoje eu tô mordendo e arrancando pedaço.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

E nem é novidade

É sempre possível ser um pouquinho mais idiota do que já se foi. É sempre possível ir além na própria imbecilidade, e depois contemplar da janela a ferida da alma sangrando como uma hemorragia. É sempre possível abrir o alçapão que leva ao sótão para onde os monstros foram empurrados a força. É sempre possível vê-los sair gritando e pulando. É sempre possível se colocar na posição de alvo fácil. É sempre possível fingir que está acima do bem e do mal, e se ver novamente transbordando de dor. Basta querer. E basta não haver distância nenhuma entre o querer e o fazer. Basta a arrogância de se sentir intocável. Basta o otimismo idiota. Basta apagar da memória o que não interessa. Basta pouco, né?