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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Samui desu

Fazia frio, muito frio no meu sonho. Outro dia uma pessoa me disse sentir cheiro em sonhos e eu morri de inveja. Não, meus sonhos não têm cheiro, mas têm muita cor, muito movimento, muito som. Meus sonhos gritam comigo me mandando acordar. Mesmo os sonhos bons me exigem que eu abra os olhos, levante e siga.
E essa noite no meu sonho fazia um frio lascado. E eu esfregava uma mão na outra pra tentar esquentar e procurava umas luvas que não achava. E do lado de cá do sonho, puxava o lençol cada vez mais pra ver se o frio passava.
Tinha música no meu sonho. Uma música alta e repetitiva, mas que mesmo assim eu não sabia cantar. E muita gente. Meus sonhos são sempre mega povoados. É sempre a Índia ou a China, de tanta gente que entra e sai desses sonhos. Mas nunca é lugar nenhum e parece sempre ser todos.
"Que drogas você toma antes de dormir pra ter sonhos assim?", me perguntaram um dia. Não, eu não tomo nenhuma droga. Mentira. Às vezes eu tomo Guaraná Diet. Droga pesada, eu sei. Mas não, eu não tinha tomado guaraná ontem, nem suco de caju, nem goiabada para sobremesa. Eu simplesmente dormi. E sonhei que fazia muito frio. E que eu não achava minhas luvas. E ninguém me dava luvas. E a música tava alta demais. E eu nem tentava falar com ninguém. E mesmo que eu tentasse ninguém ia mesmo me ouvir. E eu puxava o lençolzinho fino e ridículo, ridiculamente tentando me aquecer. E quando enfim abri o olho - aí sim veio a surpresa - o frio ainda tava aqui. Teresina, 7 horas de uma manhã de agosto - e o frio continuava. Desliguei o ar-condicionado. "Essa porra só pode tá desregulada" Que nada! No escritório fazia frio também. E na sala. E nos quartos vazios dos meninos. E na cozinha. E no banheiro. Abri a janela já com medo de ver neve lá fora. Sei lá. Tem tanta coisa que os ambientalistas dizem que eu tenho medo de qualquer dia desses ser saudada por uma nevasca no Piauí. Mas o sol já tava aberto. E um vento frio entrou quarto adentro. E eu esfreguei o coração nas tripas, pra ver se faço dele qualquer coisa, sorri amarelo e pensei: "hoje tem Beatles". É , o frio vai já passar.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Feliz aniversário, Arela!

Ela é cinco anos mais nova que eu. Ela tirou meu reinado de única filha mulher. Quando mamãe e papai saíram pra maternidade, de madrugada, eu e Ziza pensamos que estavam fugindo. Eu tinha certeza de que ia ser abandonada com a vovó depois que ela nascesse. Quando a vi pela primeira vez pensei que seu umbigo de recém-nascido fosse um bicho, e passei tempos sem querer chegar perto dela. Ela cresceu me desafiando e enchendo meu saco. Eu cresci tendo ela como saco de pancadas preferido. Dividimos um quarto e disputamos espaço durante anos: eu, organizada; ela, largada; eu mandona; ela turrona.
E qual não foi meu susto ao descobrir que meus pais tinham acertado tanto na escolha de seu nome: Ângela é mesmo o anjo da família. Quando todos brigam, ela aparta; quando todos se estressam, ela acalma; quando tudo parece irremediavelmente perdido, ela sugere saídas. É que ela tem uma sabedoria só dela, uma sabedoria de espírito que já nasceu com ela. E, com o tempo, eu - que tenho tantos amigos que viraram irmãos - descobri na minha irmã minha melhor amiga.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Tecnobrega

Só porque deu vontade de estar em Belém de novo. Só porque deu preguiça de voltar à vidinha normal. Só porque eu tava dançando "faz o S, faz o S, faz o S" na frente do espelho. Mas já passou,gente, já passou.

Ó o Dj Cremoso aí!

Nail crisis mode on

WARNING: Se você for um homem hétero, feche essa janela agora e vá ali ao lado coçar o saco, soltar um pum e cuspir de lado. Caso contrário, você corre o risco de morrer de tédio com o texto que se segue. Tá avisado!


Eu não tenho muita paciência pra salão de beleza (lembrei do Zeca Baleiro: baby, você não precisa de uma salão de beleza...). Mas se eu não fizer as unhas elas quebram horrivelmente. Então lá fui eu hoje cortar o cabelo e fazer as unhas. Normal - o salão nem cheio tava.
Enquanto uma criatura lixava as unhas das mãos e a outra esfolava meus pés, eu tentava ler um texto pra aula de sábado. Até aqui, normal também. O problema veio na hora da pergunta habitual: qual esmalte você vai querer? Eu uso sempre as mesmas cores nas unhas, e pouco me importa que a Risqué tenha lançado toda uma linha de cores liiiiiindas, como me disse outro dia a manicure. Não, eu não saio do habitual, até porque até outro dia nem pintar as unhas eu pintava, então pra quê inventar de ter unhas de cores diferentes toda semana? Comigo o processo é simples: se estão curtas, renda ou marítima; se estão longas, vermelho ou café. E pronto.
Pois hoje eu inventei de inovar (isso nunca dá certo pra mim, e eu já devia saber). Nem a manicure acreditou quando eu resolvi olhar a bandeijinha de esmaltes. Decidi por um tal de Arábia. (Não, não foi só o nome que me impressionou - eu tinha visto alguém usando essa cor e achei bonita.) Pois taí no que dá inovar: tô aqui com umas unhas cinzentas hor-ro-ro-sas. É nisso que dá ficar no salão lendo Saussure ao invés da Caras! É nisso que dá!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Não troco jamais!

40 graus na sombra. Vento, nem em sonho. Não tem cinema 3D. Falta opção de lazer e cultura. Pra criança, então, é um exercício de criatividade descolar coisas legais pra fazer. Eu sei que tudo isso é verdade sobre Teresina, mas é minha cidade e eu amo morar nela, com todos os problemas que ainda apresenta.


Minha relação com Teresina é simples: amo a cidade e não penso nunca em morar em outro lugar, pelo menos de maneira fixa. Se pudesse, todo ano saía, passava um ou dois meses fora, e voltava de novo pra cá, onde eu de fato pertenço e onde me sinto acolhida.


Na verdade não sou teresinense. Nasci em Porto Alegre por uma circunstância da vida dos meus pais, mas voltei pra cá (porque ainda fui fabricada aqui) antes dos dois anos de idade. Nos trinta e um anos que se seguiram, morei ou passei períodos curtos em cidades diferentes, mas sempre sabendo que era pra cá que eu queria voltar.


Aqui tive quase toda a minha educação formal - da pré-escola até o mestrado, que ainda está em curso. Aqui dei meu primeiro beijo, tive meu primeiro amor e alguns dos outros amores que vieram depois. Aqui tenho amigos que me conhecem desde criança, e que valem mais que qualquer outra amizade que eu tenha feito depois. Aqui pari meus três filhos, e tento ensiná-los esse amor por Teresina, pelo que é nosso. Aqui também tenho uma família enorme, linda, acolhedora e festeira.


Confesso que nem sempre gostei de Teresina assim. Na adolescência, queria "vazar" daqui o mais rápido que pudesse pra o lugar mais longe que meus pés pudessem me levar. Rebeldia típica da idade: eu não gostava era de mim, e por isso queria ficar longe dos pais, da família, das origens. Quando morava em Brasília (cidade onde eu amei morar), contava os dias para as férias: Teresina era o lugar onde todos se encontravam, e podiam conversar sobre a nova vida que cada um levava longe dos pais, em novas cidades, nas faculdades pelo Brasil afora. Mas não durou muito e voltei, achando que ia odiar ter que voltar a morar aqui. Que nada! Teresina me acolheu de novo como filha, e assim tem sido ao longo dos anos, quando saio e volto, só pra ter certeza de que aqui sou mais feliz que em qualquer lugar.


Então hoje, no aniversário de 158 anos da minha cidade, eu só desejo que esses probleminhas que ainda temos sejam aos poucos resolvidos (o calor não será jamais, mas paciência...). Ah! E desejo também, do fundo do meu coração, que parem de fazer rimas cachorrras com o nome da cidade, especialmente a famigerada Teresina/menina, até porque aos 158 anos a cidade já deixou de ser menina faz tempo, hein?

sábado, 14 de agosto de 2010

Porra, Nina Lemos!

Eu já ia até dormir. Eu juro que ia. Mas daí fui dar a voltinha habitual em uns bloguinhos. E achei mais um texto da Nina Lemos que eu queria ter escrito. Vai pensar como eu assim lá na caixa-prego, tá, mocinha?



Pequenos conselhos para jovens amigos

É assim que a banda toca. Há que ter carinho e delicadeza e cuidado. Sempre. As amigas a gente pega em casa. Ou deixa que elas nos peguem. Nunca se larga uma moça na roubada na noite. Nunca. Por mais bêbados que eles estejam, os amigos a colocam dentro de um taxi e ainda dizem para o taxista: cuida bem dela que essa menina vale ouro. Nós, garotas, passamos de táxi e ligamos do caminho e dizemos para as amigas: "pode descer". E fazemos o mesmos com os nossos amigos homens.
Aprendam, garotos, aprendam. Cuidado, carinho, respeito. Aprendam. Não sei se é da época de vocês, mas nunca se esqueçam dos Saltimbancos, que não, não são os Trapalhões, como você, menino, acha. É CHICO BUARQUE. Decorem o mantra: "todos juntos somos fortes, somos flecha e somos arco.. ao meu lado há um amigo que é preciso proteger". Aprendam. Faça a coisa certa. Ou meio certa que seja. Mas não deixem as meninas "se virando" depois que vocês já resolveram entre homens todo um esquema. Não é assim. E meninas, exijam, sim, carinho, delicadeza, cuidado. De todos. Sempre. É o que todo mundo merece. E a gente que vive no mundo Saltimbancos acha que é assim, sempre, com qualquer um. Mas não. Nem sempre é. Se não te tratarem com cuidado, querida, não se submeta. Explique. Diga que assim não. E isso é quase uma questão política. Mas é assim que a banda toca, meu tão jovem amigo. É assim que a banda toca. (Por Nina Lemos)

P.S: Não, ninguém me destratou ou me tratou com pouco cuidado. É só que ontem eu parecia ser a única preocupada em saber como a amiga tri-bêbada chegou em casa (teria chegado mesmo?). E mais, ainda me chateei comigo mesma por ter, de novo, estragado meu humor resgatando uma outra pessoa que está sempre em apuros. E creditei isso a exagero e super proteção da minha parte. É não, Nina Lemos. Você tem toda a razão. E exigir cuidado dos amigos é, sim, uma questão política. (Ai, que engraçado ser mulherzinha e assumir que não me basto!)

Paleta

O dia começou branco - é assim que começam os sábados, esperando para serem preenchidos. Supermercado com as crianças, contas a pagar, almoço na casa da mãe, preparações para a feira de ciências do filho.
Depois do almoço, o dia já era verde. Telefonemas, mensagens - o que fazer à noite, pra onde ir, etc e tal, mais tarde combinamos, pra praça não vou hoje de novo nem a pau, vamos fazer um brownie mais tarde, depois da aula eu penso, por que não comer caranguejo?
Na Wizard, o dia é sempre azul. Aulinha tranquila, alunos atentos. Hora de ir embora e quando saí do shopping já era noite e eu nem tinha percebido.
Na indecisão sobre aonde ir, acabei decidindo ficar em casa e fazer a faxina no escritório que há dias prometo. Mas foi só começar que tudo ficou vermelho. Antonio e Zé que brincavam lá embaixo subiram chorando. De longe ouvi o choro alto e escandaloso do Zé, com o Antonio como backing vocal. "Terão brigado?", pensei. Nos braços da Ana, Antonio vinha tingido de vermelho, com o sangue escorrendo da testa. Zé seguia branco atrás e chorava muito mais que o irmão menor.
Acalmar o Zé era claramente a primeira medida a ser tomada: "mãe, eu derrubei o Tontom e o célebro dele tá saindo pela testa". E Antonio, assustado e sentindo dor, ainda dizia, no meio do choro: "Foi sem querer, Zé, eu sei que foi."
Boto Antonio embaixo do chuveiro. O sangue era tanto que pensei que nunca iria parar. Depois, correr pro Prontomed e me orgulhar mais uma vez da coragem do meu Guerreiro, que não chorou nem meia vez enquanto levava três pontinhos na testa.
Uma cicatriz com certeza vai ficar, como um terceiro olho (ou um segundo, no caso dele?). Mas vai ficar também como uma marca desse amor tão lindo dos dois: o sangue que escorria da testa do Antonio deixava pálido era o Zé.
E o dia terminou foi cor-de-rosa, que deve mesmo ser a cor do amor.