"O primeiro ano do resto de nossas vidas". Trintões e quarentões devem lembrar desse filme, do final da década de 1980. As angústias do que a gente pensava ser a entrada na vida adulta: saída da faculdade, início da vida profissional, aprender a fazer conta, a fazer o dinheiro chegar ao final do mês. E, no meio disso tudo, os amigos que a gente quer manter, os amores que a gente quer ter, as viagens que a gente planeja, os sonhos que começam a esbarrar na realidade. Assisti esse filme umas mil vezes. E em todas elas me vi, como um personagem ou outro, deslizando entre diferentes angústias. Em algum momento ao longo da vida, me senti adulta e deixei o filme criar poeira na prateleira do escritório e no meu coração. "Já tá tudo resolvido", arrogantemente pensei. Pagamos nossas contas. Machucamos nossos cotovelos. Perdemos o ar no susto de ver a carinha de nossos filhos pela primeira vez. Nós agora somos pais, e não mais filhos. As amizades mais ou menos continuam. Os que são pra ficar, ficaram. Os que sumiram no mundo, sumiram. E tem aqueles que sempre voltam e parece que nunca saíram. Ou os que voltam como o planeta Halley, causando tumulto. Mas tá tudo resolvido. Somos adultos!
Aí vem o ano de 2014 pra mostrar que nada se resolve nunca. Isso sim merecia um filme: "O primeiro ano do fim das nossas vidas". Dramático, né? Mas é bem essa minha sensação. Nunca tantos próximos a mim sofreram tanto. Cruzamos o cabo da Boa Esperança. A pollyanna que sempre morou em mim anda mau humorada. Todo dia espero boas notícias, alegrias gratuitas, gargalhadas cúmplices e tenho encontrado sempre problemas e frustrações, por todo lado. Pais que adoecem, pais que morrem, planos que se desfazem, sonhos que se acabam do nada. Pra todos os lados que eu olho, parece que ninguém tá feliz. Drummond budeja no pé do meu ouvido:
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Os ombros suportam o mundo, mas ele pesa bem mais que a mão de uma criança, caro itabirano. E mesmo ombro a ombro, na nossa marcação cerrada à infelicidade, 2014 tá nos ganhando fácil. Tem como revogar um ano? Medida provisória, projeto de lei, algo que o valha?
Repositório de pequenos sonhos, epifanias e certezas transitórias. Espaço de despejo do excesso que pesa na alma. Lugar de ser pequena quando tudo fora é grande demais.
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
sábado, 9 de agosto de 2014
Feliz Rio
Semana passada peguei um voo pro Rio de Janeiro. O primeiro voo depois daquele 7 de abril. Na hora do check in, a pergunta: contato de emergência? A resposta automática não saiu, e um trailer do que seria emergência passou pela minha cabeça: queda do avião, um mal estar durante o voo, invasão extraterrestre, sequestro terrorista... "Não, nenhum contato de emergência".
Desembarquei naquela cidade que eu aprendi a amar lembrando da conversa que tivemos em fevereiro do ano passado. Eu me preparava pra mudança e pro doutorado como um boi indo pro matadouro. Chorava pelos cantos. Me perguntava o que diabo eu tava fazendo da minha vida. Você, como sempre, não emitia opinião ou, pior, quando dizia alguma coisa era sempre pra zombar do meu drama. Um domingo, enquanto lia o jornal no terraço, me disse duas frases que mudaram meu estado de espírito: "Não tem como você não gostar do Rio de Janeiro. O risco é não querer voltar nunca mais". E daí danou a contar do período em que você viveu na cidade maravilhosa. Eu sabia muito pouco dessa época da sua vida, antes de conhecer a mamãe. Foi nesse dia que me contou que tinha morado no Catete, perto de onde eu moraria, que frequentava o restaurante Calabouço, que adorava o filé Osvaldo Aranha do Lamas. Coincidência feliz: um dos primeiros lugares pra o qual me levaram ao chegar no Rio foi ao Lamas. Coincidência ainda mais feliz: eu morava a poucos metros desse restaurante e curei muita saudade com canja e muita fome com o filé que era seu preferido.
Em julho eu tava em Teresina de férias, feliz pelo descanso mas, principalmente, por não estar na cidade chuvosa e entupida de gente com a chegada do papa Francisco. Eu já achava que o Rio era meu e as hordas de turistas me incomodavam. Eu já tinha aprendido a regular meu humor pelo sol e o Cristo encoberto me deixava de TPM. A chuva, que eu gostava tanto, já tinha ganhado outro significado pra mim. Assistimos à chegada do papa pela TV, em Teresina. Mentira. Você e mamãe assistiram a chegada do papa. Eu assisti vocês assistindo e cantando o hino do Vaticano. E assisti também você falar mais um pouco daquelas ruas por onde o papa móvel passava. Nesse dia, tenho certeza, você falou o nome da rua que morou, no Catete. Mas eu não lembro. Quinta-feira subi e desci as ruas do bairro, tentando ler um nome que acendesse uma lâmpada aqui dentro. Nada. Cansada, decidi que era a Bento Lisboa. Caminhei quase até Laranjeiras achando que em algum prédio seu nome iria piscar pra mim. Sentei na praça São Salvador e chorei pela informação perdida, por essa parte sua que eu não sei. Chorei por todos os outros pedaços da sua vida que eu não tenho mais como saber. Chorei por não ter prestado mais atenção, por não ter insistido mais, por não ter perguntado mais, por ter respeitado demais seu jeito silencioso. Fantasiei que você tinha um diário e que eu ia encontrá-lo e ler tudo da sua vida, desde quando você nasceu. Porque, claro, no meu devaneio, você já nasceu sabendo escrever e com um diário debaixo do braço.
Eu nunca fui à sua sepultura depois do seu enterro, papito. E nem sei se vou amanhã, ou se algum dia vou querer ir. Mas eu transformei o Rio na nossa cidade. E nós nunca estivemos juntos lá. Mas você me deu o Rio, primeiro me ensinado a coragem, e depois me dando suas lembranças. Pra mim, você era muito mais que o contato de emergência. Você era um lugar; muito mais que chão: era uma casa, um lar, paredes, teto, ranger de armadores, xícara suja de café esquecida sobre a mesa. Eu não preciso de contato de emergência. Nem preciso da sua sepultura. Muito menos preciso comprar mais um pijama pra ouvir sua gozação: "pijama de novo!!!" Eu tenho o Rio pra voltar. Eu tenho você tão vivo ali pra mim. Mesmo que parte dessa história eu tenha que adivinhar. Obrigada por me dar o Rio, papito. Feliz dia dos pais.
Desembarquei naquela cidade que eu aprendi a amar lembrando da conversa que tivemos em fevereiro do ano passado. Eu me preparava pra mudança e pro doutorado como um boi indo pro matadouro. Chorava pelos cantos. Me perguntava o que diabo eu tava fazendo da minha vida. Você, como sempre, não emitia opinião ou, pior, quando dizia alguma coisa era sempre pra zombar do meu drama. Um domingo, enquanto lia o jornal no terraço, me disse duas frases que mudaram meu estado de espírito: "Não tem como você não gostar do Rio de Janeiro. O risco é não querer voltar nunca mais". E daí danou a contar do período em que você viveu na cidade maravilhosa. Eu sabia muito pouco dessa época da sua vida, antes de conhecer a mamãe. Foi nesse dia que me contou que tinha morado no Catete, perto de onde eu moraria, que frequentava o restaurante Calabouço, que adorava o filé Osvaldo Aranha do Lamas. Coincidência feliz: um dos primeiros lugares pra o qual me levaram ao chegar no Rio foi ao Lamas. Coincidência ainda mais feliz: eu morava a poucos metros desse restaurante e curei muita saudade com canja e muita fome com o filé que era seu preferido.
Em julho eu tava em Teresina de férias, feliz pelo descanso mas, principalmente, por não estar na cidade chuvosa e entupida de gente com a chegada do papa Francisco. Eu já achava que o Rio era meu e as hordas de turistas me incomodavam. Eu já tinha aprendido a regular meu humor pelo sol e o Cristo encoberto me deixava de TPM. A chuva, que eu gostava tanto, já tinha ganhado outro significado pra mim. Assistimos à chegada do papa pela TV, em Teresina. Mentira. Você e mamãe assistiram a chegada do papa. Eu assisti vocês assistindo e cantando o hino do Vaticano. E assisti também você falar mais um pouco daquelas ruas por onde o papa móvel passava. Nesse dia, tenho certeza, você falou o nome da rua que morou, no Catete. Mas eu não lembro. Quinta-feira subi e desci as ruas do bairro, tentando ler um nome que acendesse uma lâmpada aqui dentro. Nada. Cansada, decidi que era a Bento Lisboa. Caminhei quase até Laranjeiras achando que em algum prédio seu nome iria piscar pra mim. Sentei na praça São Salvador e chorei pela informação perdida, por essa parte sua que eu não sei. Chorei por todos os outros pedaços da sua vida que eu não tenho mais como saber. Chorei por não ter prestado mais atenção, por não ter insistido mais, por não ter perguntado mais, por ter respeitado demais seu jeito silencioso. Fantasiei que você tinha um diário e que eu ia encontrá-lo e ler tudo da sua vida, desde quando você nasceu. Porque, claro, no meu devaneio, você já nasceu sabendo escrever e com um diário debaixo do braço.
Eu nunca fui à sua sepultura depois do seu enterro, papito. E nem sei se vou amanhã, ou se algum dia vou querer ir. Mas eu transformei o Rio na nossa cidade. E nós nunca estivemos juntos lá. Mas você me deu o Rio, primeiro me ensinado a coragem, e depois me dando suas lembranças. Pra mim, você era muito mais que o contato de emergência. Você era um lugar; muito mais que chão: era uma casa, um lar, paredes, teto, ranger de armadores, xícara suja de café esquecida sobre a mesa. Eu não preciso de contato de emergência. Nem preciso da sua sepultura. Muito menos preciso comprar mais um pijama pra ouvir sua gozação: "pijama de novo!!!" Eu tenho o Rio pra voltar. Eu tenho você tão vivo ali pra mim. Mesmo que parte dessa história eu tenha que adivinhar. Obrigada por me dar o Rio, papito. Feliz dia dos pais.
terça-feira, 29 de julho de 2014
Omedeto tanjobi
Afinidade é um negócio difícil de explicar. Tem gente com quem a gente convive por anos mas que não chega assim tão perto da gente. Tem gente que em cinco minutos vira amiga de infância. Com a Eulália foi assim. Nos conhecemos adultas e viramos amigas de infância. Nossas vidas coincidiram tanto que tem horas que eu conto alguma coisa de um tempo em que ela não estava e ela parece lembrar. Da afinidade pra amizade, nos apoiamos há alguns anos. Coincidimos em profissão, taxa de natalidade acima da média (rs), sonhos, planos, ansiedades... até nossas pesquisas acadêmicas são parecidas. Tão coincidentes nossas vidas que passamos por perrengues com nossos pais ao mesmo tempo. Durante dois dias, meu pai e a mãe dela foram colegas de quarto numa UTI. O meu foi embora, a mãe dela tá aí lutando bravamente. Os muitos quilômetros que separam Teresina e Nagoya não nos impediram de apoiar uma a outra. As mensagens no whatsapp valeram pelos abraços que ela me daria se tivesse aqui.
Já ouvi por aí que não se faz amigos na vida profissional. A competição impediria isso. Ainda bem que nunca acreditei nessa balela. Minha amiga, jornalista como eu, professora como eu, pesquisadora de gênero e redes sociais como eu, me mostra todo dia que é possível ser amigo em meio à busca pela sobrevivência e pelo sucesso. Ao contrário, a gente ajuda uma a outra. Não tem nada que eu já tenha escrito que ela não tenha lido antes. Não tem nenhuma decisão da minha vida profissional que não tenha sido discutida com ela. E há muito espaço no mundo pra nós duas. Ainda bem.
Amigo pra te apoiar na dificuldade é coisa boa. Mas raro, raro mesmo, é amigo que torce por você, que fica feliz pelas tuas conquistas. E com a gente é assim. Se tudo tiver uma merda pra mim, vou ficar feliz de que ao menos pra ela tudo tá indo melhor. E vice-versa.
"A gente não faz amigos, reconhece-os". No território sem lei da internet, já vi essa frase atribuída a Vinícius de Moraes, Caio Fernando Abreu, Luiz Fernando Veríssimo. Sei lá quem disse isso. Mas é a verdade mais óbvia e linda. Amigo a gente reconhece, e fica imaginando porque mesmo aquela pessoa não tava na vida desde sempre.
Pra minha amiga de infância que eu conheci já adulta, desejo todas as coisas melhores da vida, as mesmas que desejo pra mim, as mesmas que quero para nossos filhos. E que volte logo desse doutorado pra gente voltar a comemorar aniversário juntas. Omedeto tanjobi, tomodashi.
Já ouvi por aí que não se faz amigos na vida profissional. A competição impediria isso. Ainda bem que nunca acreditei nessa balela. Minha amiga, jornalista como eu, professora como eu, pesquisadora de gênero e redes sociais como eu, me mostra todo dia que é possível ser amigo em meio à busca pela sobrevivência e pelo sucesso. Ao contrário, a gente ajuda uma a outra. Não tem nada que eu já tenha escrito que ela não tenha lido antes. Não tem nenhuma decisão da minha vida profissional que não tenha sido discutida com ela. E há muito espaço no mundo pra nós duas. Ainda bem.
Amigo pra te apoiar na dificuldade é coisa boa. Mas raro, raro mesmo, é amigo que torce por você, que fica feliz pelas tuas conquistas. E com a gente é assim. Se tudo tiver uma merda pra mim, vou ficar feliz de que ao menos pra ela tudo tá indo melhor. E vice-versa.
"A gente não faz amigos, reconhece-os". No território sem lei da internet, já vi essa frase atribuída a Vinícius de Moraes, Caio Fernando Abreu, Luiz Fernando Veríssimo. Sei lá quem disse isso. Mas é a verdade mais óbvia e linda. Amigo a gente reconhece, e fica imaginando porque mesmo aquela pessoa não tava na vida desde sempre.
Pra minha amiga de infância que eu conheci já adulta, desejo todas as coisas melhores da vida, as mesmas que desejo pra mim, as mesmas que quero para nossos filhos. E que volte logo desse doutorado pra gente voltar a comemorar aniversário juntas. Omedeto tanjobi, tomodashi.
terça-feira, 20 de maio de 2014
Preguiça
Eu ando com muita, muita preguiça. É o peso dos anos, eu sei. Trinta e muitos vividos a mil. Mas não é meu corpo que se ressente desse ritmo, mas minha alma mesmo. Tenho preguiça de tudo. Me incomoda essa história de ter que conhecer pessoas, de falar com pessoas, de me deixar descobrir. As mesmas pessoas estão aqui há anos, e elas me bastam. Eu, que sempre gostei do novo, ando cada vez mais desejosa do que me é familiar.
Tenho preguiça de responder a perguntas, de ouvir respostas, de ver olhares de admiração ou espanto. Como na primeira vez que alguém me vê de óculos, e fica impressionada com o fato de eu ter 7,5 de miopia em cada olho. Ora, mas se você estivesse aqui desde sempre, saberia que uso óculos desde os 12 anos de idade, que a miopia vem da família do meu pai, que eu odeio usar óculos – não por uma questão estética, mas porque não gosto de depender deles ou das lentes de contato e tenho medo do dia em que não encontrá-los.
Se você estivesse por aqui há algum tempo saberia que durmo com os óculos embaixo do travesseiro, às vezes dentro da fronha, porque vai que tem um terremoro e eu tenho que fugir e salvar meus luizes? E saberia também que tenho pavor de acordar e não encontrar os óculos e que aqueles míseros segundos entre o abrir de olhos e o gesto de colocar os óculos no rosto concentram a maior quantidade de tensão e desespero possível. Sim, e a pergunta óbvia que vem agora é: “por que você não faz a cirurgia”, à qual eu teria que responder, já que você não está aqui desde sempre, que eu já tentei, mas por alguma razão a anatomia do meu olho não permite que a tal cirurgia tenha efeito em mim. E, sim, se você estivesse aqui desde sempre saberia também que eu colocava nomes masculinos nos meus óculos, mas todos com Z: tive o Zózimo, o Ziraldo, o Zaratrusta, etc. A mania de nomear os óculos passou, mas continuo nomeando objetos, porque acho que a vida fica mais divertida assim. E eu não teria que te explicar que depois que descobri que Chico Buarque tem essa mesma mania pulei de alegria porque afinal tenho algo em comum com aquele que eu sempre fantasiei ser o homem da minha vida.
E quanto tempo se gasta pra se explicar tanta coisa? Pois é. Muita, muita preguiça. A volta no quarteirão que eu dou antes de chegar no meu destino, caso esteja passando uma música que eu gosto – porque as melhores músicas sempre começam quando a gente tem que parar o carro. Mas isso você só entenderia se estivesse por aqui há um tempo. E eu tenho muita, muita preguiça de me explicar. E principalmente preguiça da previsibilidade das reações que encontro.
Não tem conversa que faça ninguém entender como alguém pode ser tão absolutamente destemida pra tudo mas se trema de pavor ao ver um determinado tipo de flor. E, na verdade, essa é uma pegadinha: não é pra ser entendido. Se você estivesse aqui desde sempre saberia que eu não discuto sobre esse medo, mas espero que meu pavor seja respeitado e não ridicularizado. Tem tantas outras coisas que só quem está aqui desde sempre sabe, porque viveu comigo, porque entendeu sem ter que ser explicado, porque sabe de onde eu vim, e divide a deliciosa dúvida de pra onde mesmo vamos todos nós.
Sim, faz um calor desgraçado, mas eu só durmo de lençol. Porque sem me cobrir me sinto desprotegida, e a hora do sono é sempre a pior do dia pra mim. Eu tenho uma dificuldade enorme pra dormir e também pra me manter dormindo. Eu tenho pesadelos. Ou então sonhos bons, mas intensos demais, que me deixam cansada e triste e ressacada ao acordar. Meus sonhos têm muitas cores e sons, e eu acordo pra uma vida que exige de mim uma postura preto no branco. E até hoje tenho vontade de bater minha cabeça na parede pra parar de pensar. Mas você não entenderia nada disso, porque, pra quem é novo, o outro acabou de nascer. E, ai, já faz tanto tempo que pelejo por aqui que me dá preguiça de explicar de onde vem esses meus gestos e atitudes, que foram construídas por tantas situações, tantas pessoas, tantas gargalhadas.
Sim, eu tenho um sorriso enorme, eu mostro as gengivas, mas também tenho o mau humor mais mau humorado do mundo. Eu sou capaz de azedar leite só de olhar nos dias em que tô virada no cão. Eu fico insuportável e choro porque nem eu me aguento quando sinto dor na alma. E tenho um monte de amigos que me escutam e não acreditam que eu possa ser tão absurdamente boba e dramática assim. Mas eles estão aqui desde sempre e eu nunca preciso explicar os porquês. E esse é o melhor travesseiro pra uma cabeça cheia e uma alma triste.
Eu sempre como o miolo do pão antes. Eu gosto de pizza gelada na manhã da segunda-feira. Eu vivo esquecendo refeições. Eu assisto TV, trabalho, navego e bato papo na internet - tudo ao mesmo tempo agora. E funciono melhor assim. Eu gosto de gatos porque eles são independentes e não se jogam aos pés do dono como cachorros. Eu gosto de cozinhar mas não tenho feito isso muito, não. Eu sinto muito frio, sempre. Mas eu gosto de calor.
Mas você teria que aprender tudo isso, e o exato peso de cada uma dessas pequenas idiossincrasias. E eu tenho muita preguiça de explicar. Seria preciso que você estivesse aqui desde sempre. E seria preciso que eu soubesse me comunicar, o que aliás eu faço muito mal. E você entenderia que essa minha fissura por aprender línguas é reflexo direto da minha vontade de melhor comunicar. Porque eu sei que é preciso buscar em cada palavra o sentido exato, ou buscar, pra cada mínima coisa que se quer dizer, a palavra que lhe traduz, e pra isso é preciso que eu busque em todas as línguas disponíveis, pra que aquilo que eu digo seja não só que eu sinto, mas também seja decodificaco pelo outro como exatamente o que está dentro de mim. Eu quero sintonia. É isso. É por isso que tento aprender línguas. É por isso também que gesticulo tanto, com minhas mãos enormes, tentanto me fazer entender. E é difícl entender, se você chegou agora, que meus gestos são grandes e minhas expressões exageradas exatamente porque sempre me faltam as palavras, mesmo que isso pareça paradoxal, já que eu falo tanto.
Mas você não estava aqui e não tem a menor ideia. E eu tenho toda a preguiça do mundo.
Tenho preguiça de responder a perguntas, de ouvir respostas, de ver olhares de admiração ou espanto. Como na primeira vez que alguém me vê de óculos, e fica impressionada com o fato de eu ter 7,5 de miopia em cada olho. Ora, mas se você estivesse aqui desde sempre, saberia que uso óculos desde os 12 anos de idade, que a miopia vem da família do meu pai, que eu odeio usar óculos – não por uma questão estética, mas porque não gosto de depender deles ou das lentes de contato e tenho medo do dia em que não encontrá-los.
Se você estivesse por aqui há algum tempo saberia que durmo com os óculos embaixo do travesseiro, às vezes dentro da fronha, porque vai que tem um terremoro e eu tenho que fugir e salvar meus luizes? E saberia também que tenho pavor de acordar e não encontrar os óculos e que aqueles míseros segundos entre o abrir de olhos e o gesto de colocar os óculos no rosto concentram a maior quantidade de tensão e desespero possível. Sim, e a pergunta óbvia que vem agora é: “por que você não faz a cirurgia”, à qual eu teria que responder, já que você não está aqui desde sempre, que eu já tentei, mas por alguma razão a anatomia do meu olho não permite que a tal cirurgia tenha efeito em mim. E, sim, se você estivesse aqui desde sempre saberia também que eu colocava nomes masculinos nos meus óculos, mas todos com Z: tive o Zózimo, o Ziraldo, o Zaratrusta, etc. A mania de nomear os óculos passou, mas continuo nomeando objetos, porque acho que a vida fica mais divertida assim. E eu não teria que te explicar que depois que descobri que Chico Buarque tem essa mesma mania pulei de alegria porque afinal tenho algo em comum com aquele que eu sempre fantasiei ser o homem da minha vida.
E quanto tempo se gasta pra se explicar tanta coisa? Pois é. Muita, muita preguiça. A volta no quarteirão que eu dou antes de chegar no meu destino, caso esteja passando uma música que eu gosto – porque as melhores músicas sempre começam quando a gente tem que parar o carro. Mas isso você só entenderia se estivesse por aqui há um tempo. E eu tenho muita, muita preguiça de me explicar. E principalmente preguiça da previsibilidade das reações que encontro.
Não tem conversa que faça ninguém entender como alguém pode ser tão absolutamente destemida pra tudo mas se trema de pavor ao ver um determinado tipo de flor. E, na verdade, essa é uma pegadinha: não é pra ser entendido. Se você estivesse aqui desde sempre saberia que eu não discuto sobre esse medo, mas espero que meu pavor seja respeitado e não ridicularizado. Tem tantas outras coisas que só quem está aqui desde sempre sabe, porque viveu comigo, porque entendeu sem ter que ser explicado, porque sabe de onde eu vim, e divide a deliciosa dúvida de pra onde mesmo vamos todos nós.
Sim, faz um calor desgraçado, mas eu só durmo de lençol. Porque sem me cobrir me sinto desprotegida, e a hora do sono é sempre a pior do dia pra mim. Eu tenho uma dificuldade enorme pra dormir e também pra me manter dormindo. Eu tenho pesadelos. Ou então sonhos bons, mas intensos demais, que me deixam cansada e triste e ressacada ao acordar. Meus sonhos têm muitas cores e sons, e eu acordo pra uma vida que exige de mim uma postura preto no branco. E até hoje tenho vontade de bater minha cabeça na parede pra parar de pensar. Mas você não entenderia nada disso, porque, pra quem é novo, o outro acabou de nascer. E, ai, já faz tanto tempo que pelejo por aqui que me dá preguiça de explicar de onde vem esses meus gestos e atitudes, que foram construídas por tantas situações, tantas pessoas, tantas gargalhadas.
Sim, eu tenho um sorriso enorme, eu mostro as gengivas, mas também tenho o mau humor mais mau humorado do mundo. Eu sou capaz de azedar leite só de olhar nos dias em que tô virada no cão. Eu fico insuportável e choro porque nem eu me aguento quando sinto dor na alma. E tenho um monte de amigos que me escutam e não acreditam que eu possa ser tão absurdamente boba e dramática assim. Mas eles estão aqui desde sempre e eu nunca preciso explicar os porquês. E esse é o melhor travesseiro pra uma cabeça cheia e uma alma triste.
Eu sempre como o miolo do pão antes. Eu gosto de pizza gelada na manhã da segunda-feira. Eu vivo esquecendo refeições. Eu assisto TV, trabalho, navego e bato papo na internet - tudo ao mesmo tempo agora. E funciono melhor assim. Eu gosto de gatos porque eles são independentes e não se jogam aos pés do dono como cachorros. Eu gosto de cozinhar mas não tenho feito isso muito, não. Eu sinto muito frio, sempre. Mas eu gosto de calor.
Mas você teria que aprender tudo isso, e o exato peso de cada uma dessas pequenas idiossincrasias. E eu tenho muita preguiça de explicar. Seria preciso que você estivesse aqui desde sempre. E seria preciso que eu soubesse me comunicar, o que aliás eu faço muito mal. E você entenderia que essa minha fissura por aprender línguas é reflexo direto da minha vontade de melhor comunicar. Porque eu sei que é preciso buscar em cada palavra o sentido exato, ou buscar, pra cada mínima coisa que se quer dizer, a palavra que lhe traduz, e pra isso é preciso que eu busque em todas as línguas disponíveis, pra que aquilo que eu digo seja não só que eu sinto, mas também seja decodificaco pelo outro como exatamente o que está dentro de mim. Eu quero sintonia. É isso. É por isso que tento aprender línguas. É por isso também que gesticulo tanto, com minhas mãos enormes, tentanto me fazer entender. E é difícl entender, se você chegou agora, que meus gestos são grandes e minhas expressões exageradas exatamente porque sempre me faltam as palavras, mesmo que isso pareça paradoxal, já que eu falo tanto.
Mas você não estava aqui e não tem a menor ideia. E eu tenho toda a preguiça do mundo.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
O mundo é bão, Sebastião!
Sou muito, muito pollyanna. E não faço o menor segredo disso. Acho, sim, que as coisas sempre acontecem pro bem, e tenho tido provas disso em acontecimentos sérios e em pequenas coisas do cotidiano. O acaso tem sido sempre bacana comigo. Sorte ou lei do retorno, nem sei. Mas pouco importa.
Tenho preguiça de gente negativa, da hiena Hardy, de quem só vê o mal em tudo. E por isso mesmo faço questão de contar quando alguma coisa bacana e inesperada acontece comigo. Chega de desgraça - tem que divulgar as coisas boas, as ações bacanas, as pessoas do bem. Agenda positiva, mia gente!
De ontem pra hoje, tive mais uma prova de que "o mundo é bão, Sebastião".
Sai de Teresina pra Picos, de ônibus, com duas sacolas de mão, uma sacola térmica, minha bolsa e uma mochila nas costas (com meu notebook). Sim, é coisa demais, eu sei. Mas o que seriam dois volumes viraram cinco depois de passar pela casa da mamãe. Enfim, embarquei em Teresina com tudo isso e desci em Picos com tudo, MENOS a mochila com meu notebook e toda a minha vida acadêmica.
Fui pra casa, tomei banho, jantei, papeei. O ônibus seguiu pra Recife. Já quase indo dormir, dei pela falta da mochila. "Jisus Maria José, meus escritos! Minhas aulas! Meus artigos! Minhas fotos! Minha vida!"
Fui à rodoviária, falei com o funcionário da empresa, peguei o telefone do gerente, etc e tal. Liga de lá, liga de cá. Gerente, guichê em Araripina, guichê em Recife, motorista, garagem em Recife... E o que todo mundo dizia era: "É claro que você não vai achar a tua mochila. Se ao menos tivesse ficado no bagageiro... Mas na cadeira?"
E haja fazer promessa a São Longuinho. E haja responsar Santo Antonio (que dizem que pra marido né bom, não, mas pra achar coisa perdida...).
Hoje de manhã liguei umas três vezes pra garagem em Recife, e nada do ônibus chegar. Já quase desistindo, ligo de novo pro gerente da Progresso em Picos. Ele tinha localizado a mochila, o motorista já tinha guardado e ela já estava a caminho de Picos. Agora há pouco peguei a bichinha de volta no guichê da empresa.
Muita sorte? Talvez. Ou talvez a resolução tenha sido essa porque eu teria feito exatamente a mesma coisa que esse gerente gente boa fez. Um pouquinho de empenho dele e minha vida foi salva.
O mundo é bão, Sebastião!!!
Tenho preguiça de gente negativa, da hiena Hardy, de quem só vê o mal em tudo. E por isso mesmo faço questão de contar quando alguma coisa bacana e inesperada acontece comigo. Chega de desgraça - tem que divulgar as coisas boas, as ações bacanas, as pessoas do bem. Agenda positiva, mia gente!
De ontem pra hoje, tive mais uma prova de que "o mundo é bão, Sebastião".
Sai de Teresina pra Picos, de ônibus, com duas sacolas de mão, uma sacola térmica, minha bolsa e uma mochila nas costas (com meu notebook). Sim, é coisa demais, eu sei. Mas o que seriam dois volumes viraram cinco depois de passar pela casa da mamãe. Enfim, embarquei em Teresina com tudo isso e desci em Picos com tudo, MENOS a mochila com meu notebook e toda a minha vida acadêmica.
Fui pra casa, tomei banho, jantei, papeei. O ônibus seguiu pra Recife. Já quase indo dormir, dei pela falta da mochila. "Jisus Maria José, meus escritos! Minhas aulas! Meus artigos! Minhas fotos! Minha vida!"
Fui à rodoviária, falei com o funcionário da empresa, peguei o telefone do gerente, etc e tal. Liga de lá, liga de cá. Gerente, guichê em Araripina, guichê em Recife, motorista, garagem em Recife... E o que todo mundo dizia era: "É claro que você não vai achar a tua mochila. Se ao menos tivesse ficado no bagageiro... Mas na cadeira?"
E haja fazer promessa a São Longuinho. E haja responsar Santo Antonio (que dizem que pra marido né bom, não, mas pra achar coisa perdida...).
Hoje de manhã liguei umas três vezes pra garagem em Recife, e nada do ônibus chegar. Já quase desistindo, ligo de novo pro gerente da Progresso em Picos. Ele tinha localizado a mochila, o motorista já tinha guardado e ela já estava a caminho de Picos. Agora há pouco peguei a bichinha de volta no guichê da empresa.
Muita sorte? Talvez. Ou talvez a resolução tenha sido essa porque eu teria feito exatamente a mesma coisa que esse gerente gente boa fez. Um pouquinho de empenho dele e minha vida foi salva.
O mundo é bão, Sebastião!!!
sábado, 12 de outubro de 2013
Numa noite qualquer
Ela era inábil com as palavras faladas. Não sabia, não conseguia, se atropelava, atropelava os outros, falava em um milhão de rotações por segundo, abria um zilhão de links e no final não dizia nada. Ela não sabia falar, embora (ou talvez porque) falasse tanto. E certamente por isso escrevia. E, sim, escrevendo sempre conseguiu se entender com outros seres humanos. Até o dia em que travou numa frase dele que piscava na janela do bate-papo. Frase ou intimação? Nem sabia. Apagou. Pra nunca mais ter que ler. Antes, deu pulos de alegria, administrou uma fisgada no estômago e quis ligar pro melhor amigo na Terra. Respirou 457 vezes, não ligou pra ninguém, não respondeu nada e emudeceu. Desligou o computador e o coração. E foi sambar. Porque o que não se resolver com samba, nem reza braba resolve. Convenientemente esqueceu o celular em casa também. Não estava triste, nem com medo, nem sei-lá-o-que-mais poderia estar. Ela simplesmente não estava. Aliás, ela simplesmente não está. E talvez ela simplesmente nunca esteve, embora quisesse tanto estar. As coisas são exatamente o que elas são, independente da nossa necessidade de acreditar que estamos no controle. E ela ultimamente tem optado por não ter controle de mais nada, nem mesmo de seus passos que tentam sambar sem saber. Mas tem ainda uma pontinha dela que desenha porquês nos muros dos sonhos, e que acorda assustada pensando que poderia ser mais simples. Mas que volta a dormir sem resposta e que, no final das contas, entendeu que a incerteza é bem mais rica que qualquer resposta.
sábado, 24 de agosto de 2013
O renascimento do parto
Ontem, finalmente, assisti ao documentário “O renascimento do parto”. A primeira cena já foi de revirar minhas tripas. Ah, não. Não era nada demais. Eram só imagens de uma cesárea, iguais as que eu tenho em casa, em fita VHS. Era a crueza de uma cirurgia de extrair feto, numa linha de montagem hospitalar. Era só uma cesárea, como tantas que acontecem diariamente no nosso brasilzão campeão mundial de cesáreas. Era só uma mãe relatando a dor que foi pra ela abrir mão do parto que queria, como tantas outras nesse brasilzão.
Mas o filme não mostra só isso: mostra, principalmente, como o parto foi transformado em um evento médico/hospitalar no Brasil. E como é possível também reverter isso. Eu sei, eu sei: essa minha conversa de “parto domiciliar”, de “protagonismo feminino”, de “nascer com amor” parece conversa de “hippies que abraçam árvores”. E pode até ser também. Mas vai lá e assiste o documentário que você vai entender.
Vai lá e ouve obstetras, pediatras, obstetrizes, enfermeiras obstetras, com suas vozes legitimadas pela ciência, dizendo que tá tudo errado. Vai lá e ouve também as vozes de mulheres que, como eu, não sabiam que era preciso brigar pelo direito a um parto como queriam. Vai lá e entende que a briga não é CONTRA a cesárea – sim, essa cirurgia pode, sim, salvar a vida de mulheres e crianças – mas a favor do direito de parir. E, principalmente, do direito de parir como quiser. Do direito da mulher decidir sobre o próprio corpo e o próprio parto. Do direito de ser informada de verdade e não apenas enganada e amedrontada com informações do tipo “rebimboca da parafuseta” que mecânicos de ponta de esquina gostam tanto de usar.
Vai lá também pra ver a história de mulheres, de casais, de famílias, que desafiaram o sistema e conseguiram fazer do parto um momento de amor. Vai lá e chora pelos partos que você não teve. Vai lá e cutuca a ferida, menina. Vai lá e vê como teu filho foi maltratado ao nascer em um hospital. Vai lá e pensa porque mesmo ninguém jamais coloca os procedimentos médicos em xeque. Vai lá e assiste as cenas de mulheres parindo amparadas pelos companheiros, em banquetas, em banheiras, onde ELAS se sentiram mais confortáveis, e não onde o médico disse que tinha que ser, e não em uma maca fria, com os pés presos em estribos. Vai lá e pensa que pode ser diferente. Vai lá e pensa fora da caixinha.
Eu fui lá. Eu vi e ouvi tudo aquilo. E lembrei, mais uma vez, que eu não briguei pelos meus partos. Eu, Clarissa, leonina, guerreira, brigona desde sempre, determinada e valente, brochei diante desse sistema. E não pari. Eu vi a mim mesma e a algumas amigas ali. Eu, Clarissa, doutoranda, super informada, classe média, detentora de um bom plano de saúde, me vi ali, como mais uma mulher impotente diante de um sistema que nos trata como incapazes de decidir. Eu, Clarissa, fui, vi, ouvi, chorei litros. E pensei que é preciso mudar a forma de entender gestação e parto, antes sequer de se pensar em mudar todo um sistema. E que, se não há um único vilão nessa história, é preciso que cada um se ocupe do vilão que melhor lhe cabe.
Mas o filme não mostra só isso: mostra, principalmente, como o parto foi transformado em um evento médico/hospitalar no Brasil. E como é possível também reverter isso. Eu sei, eu sei: essa minha conversa de “parto domiciliar”, de “protagonismo feminino”, de “nascer com amor” parece conversa de “hippies que abraçam árvores”. E pode até ser também. Mas vai lá e assiste o documentário que você vai entender.
Vai lá e ouve obstetras, pediatras, obstetrizes, enfermeiras obstetras, com suas vozes legitimadas pela ciência, dizendo que tá tudo errado. Vai lá e ouve também as vozes de mulheres que, como eu, não sabiam que era preciso brigar pelo direito a um parto como queriam. Vai lá e entende que a briga não é CONTRA a cesárea – sim, essa cirurgia pode, sim, salvar a vida de mulheres e crianças – mas a favor do direito de parir. E, principalmente, do direito de parir como quiser. Do direito da mulher decidir sobre o próprio corpo e o próprio parto. Do direito de ser informada de verdade e não apenas enganada e amedrontada com informações do tipo “rebimboca da parafuseta” que mecânicos de ponta de esquina gostam tanto de usar.
Vai lá também pra ver a história de mulheres, de casais, de famílias, que desafiaram o sistema e conseguiram fazer do parto um momento de amor. Vai lá e chora pelos partos que você não teve. Vai lá e cutuca a ferida, menina. Vai lá e vê como teu filho foi maltratado ao nascer em um hospital. Vai lá e pensa porque mesmo ninguém jamais coloca os procedimentos médicos em xeque. Vai lá e assiste as cenas de mulheres parindo amparadas pelos companheiros, em banquetas, em banheiras, onde ELAS se sentiram mais confortáveis, e não onde o médico disse que tinha que ser, e não em uma maca fria, com os pés presos em estribos. Vai lá e pensa que pode ser diferente. Vai lá e pensa fora da caixinha.
Eu fui lá. Eu vi e ouvi tudo aquilo. E lembrei, mais uma vez, que eu não briguei pelos meus partos. Eu, Clarissa, leonina, guerreira, brigona desde sempre, determinada e valente, brochei diante desse sistema. E não pari. Eu vi a mim mesma e a algumas amigas ali. Eu, Clarissa, doutoranda, super informada, classe média, detentora de um bom plano de saúde, me vi ali, como mais uma mulher impotente diante de um sistema que nos trata como incapazes de decidir. Eu, Clarissa, fui, vi, ouvi, chorei litros. E pensei que é preciso mudar a forma de entender gestação e parto, antes sequer de se pensar em mudar todo um sistema. E que, se não há um único vilão nessa história, é preciso que cada um se ocupe do vilão que melhor lhe cabe.
domingo, 4 de agosto de 2013
Mas nada verdade nada esconde essa minha timidez
Cansei. Prontofalei. Cansei da obrigação eterna de ser aquela que fala (não que eu não goste de falar), que diz pra onde ir (não que eu não goste de mandar), que sabe as respostas (não que eu não goste de bancar a fodona). Hoje quero gritar o manifesto do/a falso/a tímido/a. Sim, se existe falsa magra, falso bom moço, falso brilhante, porque não pode existir o falso tímido?
Eu, Clarissa Sousa de Carvalho, brasileira, divorciada, jornalista, professora, residente e domiciliada no Rio de Janeiro (mas com o coração e os dois pés bem fincados em Teresina-Piauí), venho através deste declarar que sou tímida. Falsa tímida, pero tímida. E não me venham cobrar atitudes porque não as terei. E não me venham cobrar eloquência, porque tem hora que meu coração vai pra garganta e trava minha voz. E não me venham, principalmente, esperar coerência, porque entre o querer e o fazer, entre o desejar e o dizer, há léguas de timidez a me emudecer.
Pelo direito de que cada pessoa extrovertida possa exercer livremente sua timidez, nesse país que se diz democrático!Eu, Clarissa Sousa de Carvalho, brasileira, divorciada, jornalista, professora, residente e domiciliada no Rio de Janeiro (mas com o coração e os dois pés bem fincados em Teresina-Piauí), venho através deste declarar que sou tímida. Falsa tímida, pero tímida. E não me venham cobrar atitudes porque não as terei. E não me venham cobrar eloquência, porque tem hora que meu coração vai pra garganta e trava minha voz. E não me venham, principalmente, esperar coerência, porque entre o querer e o fazer, entre o desejar e o dizer, há léguas de timidez a me emudecer.
Todo homem e toda mulher tem direito à liberdade, à busca da felicidade e ao exercício (mesmo que eventual) da timidez.
E tenho dito! Ora mais! Rum!
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Portadores de Saudades Crônica
No
Facebook, uma amiga propunha criar a Associação dos Portadores de Saudade
Crônica. Rapidamente eu e mais uns quinze nos candidatamos a membros da dita
associação. No atual momento, me arrisco a dizer que eu poderia ser a
presidente da APSC. Desde março vivo a uma distância de 2.603 quilômetros dos
meus filhos, da minha casa, dos meus pais, das minhas referências, dos meus
amigos e de tudo o que de mais importante tenho na vida.
Um doutorado me trouxe ao Rio e,
junto com a alegria de estar realizando um sonho, veio também o preço da
realização do mesmo: a saudade. Mas pensando bem, antes mesmo de vir para o Rio
eu já vivia imersa em saudade. Não, a saudade não é coisa nova na minha vida -
faz muito, muito tempo que não vivo sem saudade. Conclusão óbvia: crescer é
aprender a administrar saudades.
Enquanto nosso círculo social e
afetivo é pequeno, restrito à família imediata, é fácil ter todo mundo que a
gente quer bem por perto. Vamos crescendo e multiplicando afetos, construindo
laços e abrindo oportunidades para as saudades. Sim, saudades no plural. Porque
elas são muitas e diversas. A saudade que sentimos de um amor não é a mesma que
sentimos dos nossos pais, nem a mesma que sentimos dos nossos filhos e nem a
mesma que sentimos dos amigos queridos. Existem saudades e saudades – todas
dolorosas, embora algumas sejam mais quietinhas que outras. Tem saudade até da
gente mesmo – de quem a gente já foi e não é mais. Tem saudade do que não
aconteceu, do que a gente queria ter vivido, do que a gente passou tão perto,
bateu na trave e não viveu.
Tem saudade de todo tipo. Só não
existe é saudade boa. Porque saudade é sempre esse grilinho incomodando – tá
você ali todo feliz com uma conquista e pensa como sua avó ia ficar feliz de te
ver chegando onde você queria, ou como aquele seu amigo que sempre torceu por
você está agora tão longe, mas tão longe que você já nem consegue lembrar bem
de seu rosto.
Sim, somos todos membros da
Associação dos Portadores de Saudade Crônica. Esse é parte do preço que pagamos
por crescer, por amar, por partilhar nossa vida e nossos afetos. E, por mais
doloroso que seja, melhor a saudade do que a falta de afeto. Se a saudade é o
efeito colateral de distribuir amor por aí, que venham ainda muitas saudades
pra mim.
terça-feira, 9 de abril de 2013
Saudade boa meuzóvo
Tudo começou com uma faxina no meio da madrugada. Limpa daqui, limpa dali e nada do sono chegar. Madrugadas insones foram feitas pra decisões estúpidas: "Já sei! Preciso de cor nesse quarto! Tá muito morto, muito plano, muito sem sal". Por mais imbecil que seja a grande conclusão da madrugada - que tentava resolver um coração torcido de saudade - o fato de ter pelo menos planejado algo já trouxe algum alento. E, meio na marra, o sono veio. Três horas e alguns sonhos intercontinentais depois, levanto, cheia de vontade de encher tudo de cor. Pego ônibus, acerto a parada, acho um edredom multi colorido: fitinhas tipo Senhor do Bonfim, com dizeres super otimistas: bom dia, otimismo, sinceridade, gratidão, felicidade, paz, saúde! "Embrulha, moço, que é esse ai que eu quero na minha cama!"
Caindo de sono, mas me sentindo melhor pela recém aquisição, chego em casa, e abro o enorme edredom na cama. SURPRESA! Tinha uma palavrinha que eu não tinha percebido na loja: saudade. Sim, a palavrinha que me incomoda todo dia estava lá, está ainda aqui, bem do meu ladinho, escrita na listra de cor laranja: SAUDADE. Tirando onda da minha cara, da minha ansiedade, do meu humor.
Antes que você pense aí, na sua cabecinha ufanista e boba, que "saudade só tem em português", digo logo que essa é a maior lorota. Existe o substantivo saudade em turco também. E se duvidar em javanês. Mas, enfim, isso não vem ao caso. O que me irrita é que falem isso como se fosse grande vantagem. Ai, porque que legal que na minha língua existe um nome pra designar essa falta, essa ausência, essa vontade de estar em outro lugar, essa ansiedade pro tempo passar, essa falta de gosto que as coisas têm quando a gente tá longe de quem a gente ama. Saudade boa não existe, minha gente. E quem fala uma besteira dessa nunca sentiu saudade de verdade. E nisso sou categórica. E ninguém tente me convencer do contrário. Ponto. Prego batido e ponta virada. Pegue sua "saudade gostosa" e vá sentir lá na puta que pariu junto com sua "inveja branca", que é outro eufemismo ridículo pra "inveja do caralho".
E eu tô mesmo desbocada e chata, tão chata que eu quase não me aguento. E, sim, eu sinto saudade é porque eu quero. Eu tô aqui é porque eu quero. Ninguém me obrigou, não. Tem voo saindo todo dia bem daqui do Santos Dummont. Mas eu quero é reclamar mesmo porque eu tô chata e tô com saudade e quero meus filhos e quero minha casa e quero minha cama e quero meu travesseiro de pescoço que eu fiz o favor de esquecer e quero que passe essa dor nas costas e quero que passe essa dor no peito e quero parar de sentir culpa e quero aguar minha grama e quero fazer macarronada com manjericão do meu pé e quero ver os meninos andando de bicicleta e quero reclamar do Pedro que entra a noite de farda e quero ouvir o som da guitarra dele invadindo meu quarto e quero ver a filha da vizinha dando tchau pra mim na janela e quero ver aquela carrada de menino invadindo a sala pra jogar Play Station. Eu quero barulho! Quero ouvir as opiniões do Pedro, tão discordantes das minhas, mas sempre tão bem articuladas. Quero morder a língua pra não dizer que um dia ele vai ter minha idade e entender. Quero ver os três implicando uns com os outros. Quero perder a paciência e mandar eles resolverem sozinhos e me chamarem apenas quando tiver sobrado só um em pé. Quero escovar os dentes correndo pra levá-los pra escola com um enorme caneco de café do lado. Quero encarar os milhões de motos descendo da Pedra Mole de manhã cedinho. Quero disputar o som do carro com o Pedro. Quero ceder: a ida com AC/DC pra poder ouvir FM Cultura na volta. Quero perder a paciência no trânsito. Jisus! Até dirigir eu quero.
Quero, quero mesmo que o tempo passe logo, que o tempo passe rápido. Pelo menos daqui pra sexta. Depois pode passar devagar. E depois eu volto e penso no resto. Quero também que eu consiga voltar pra minha rotina que já tava tão estabelecida, tão fechadinha e metodicamente organizada aqui. Mas meu relógio comeu areia e desde segunda que o tempo não passa - não tem mais o que ler, não tem mais o que estudar. Tem muito ainda o que entender, muito mesmo, mas não tem mais cabeça, não tem mais vontade, não tem mais tesão. E né possível que todas as crianças que frequentam o aterro sejam cacheadas! Quero sexta-feira. Quero o aeroporto Petrônio Portela, Quero minha casinha no morro. Aff, que saudade é esse excesso de querer. Saudade é quando a falta excede. E excesso sempre foi meu sobrenome. Excedo, logo existo.
sábado, 30 de março de 2013
O que faz você feliz?
Abraço de filho ao acordar - ou a qualquer hora. Beijo de esquimó. Chocolate - branco, meio amargo, ao leite. Chocolate simplesmente, sem preconceitos. Sorvete de chocolate. Sorvete. Ponto. Qualquer sorvete, sempre. Mas sorvete de açaí mais ainda. Tacacá nos domingos de saudade. Lembranças da minha avó - cheiro de patchuli e conforto que só tinha ali. Abraço de urso que aplaca o frio. Revista nova + cama macia. Cheiro de livro novo. Novas descobertas em livros antigos. A descoberta de uma banda nova que me faz sonhar - o momento em que vale a pena deixar de lado a preguiça do novo. Amigos. Todos. Os melhores do mundo - os meus. Família embaixo da mangueira. Esse lugar pra onde eu sempre vou voltar, e de onde eu só saio porque sei que o fio de Ariadna termina ali. Borboletas no estômago - o toque do celular. Falta de ar. Aquela volta no quarteirão pra esperar a música acabar. Gargalhadas. Cartas, todas as cartas do mundo - as que recebei, as que mandei, as que ficaram guardadas, as que nem sequer foram escritas. Bafinho de filho quando acorda. Aquele momento em que o autor fodão diz aquilo que eu queria dizer mas me achava incapaz de tanto - ai, o orgasmo acadêmico - EUREKA! Chico Buarque como trilha sonora de tudo o que marca. Pedalar no aterro. Acertar o caminho. Descer na parada certa. Promoção de passagem aérea. Escrever - cartas, diários, listas, agendas, compromissos, mensagens de texto. Escrever pra sair de dentro, pra que sirva de registro, pra que eu me lembre sempre porque escrevo, pra não enlouquecer, pra me reconhecer. Escrever pra existir, e pra que o mundo faça sentido. Samba - no coreto, no pub, no largo, no som do carro, na Lapa, na veia. Café. Cafuné. Massagem no pé. Lençol sempre - no frio, no calor, com chuva, debaixo do sol. Lençol com ventinho. Muitos travesseiros. Mar - pra banhar, pra olhar, pra ouvir. Lágrimas quando a tampa da panela tá pra explodir. Cozinhar. Boca ardida - tacos mexicanos. Gargalhadas no quintal: cerveja, comida, amigos, filhos - tudo misturado. Almoço de domingo na casa dos pais. Terraço: pai e mãe lendo o jornal. Banca do Chagas. Fazer supermercado pensando em cada coisa que cada filho vai querer. Meu quarto de solteira, na casa do muro de pedra. A cama que nunca pôde ser tirada do lugar. O melhor sono do mundo. Dormir, dormir bem, dormir muito, dormir tanto que doam as costas. Conversa de mesa de bar. Conversas profundas com pessoas interessantes. Miolo de pote com pessoas interessantes. Criar teorias ridículas na madrugada - teorias inúteis pra explicar desde a unha encravada até a origem dos mitos. Vinho tinto e seco. Sintonia. Chuvinha fina pra dormir. Toró pra correr pelas ruas do macacal. Raios, trovões, barulho da chuva no telhado. Rede com varanda de croché. Vento no cabelo.
segunda-feira, 11 de março de 2013
Em caso de emergência
Felipe Pena tem um livro chamado "O verso do cartão de embarque". Eu ainda não o li, mas lembro de ter lido uma crônica do mesmo autor, tempos atrás, que tinha talvez o mesmo título. Nela, o personagem principal, recém saído de um relacionamento amoroso, se via na situação de fornecer um contato de emergência para a companhia aérea no momento do check in, e se dava conta de que agora não tinha mais aquela pessoa como contato de emergência.
Dias atrás peguei um voo de Teresina pro Rio de Janeiro. Na hora de fornecer um contato, foi seu nome que eu dei e o telefone TIM que você usa há anos. Me dei conta de que, ao longo dos anos, meu contato de emergência tem sido sempre você. Independente do que estivesse acontecendo na minha vida, do país onde eu me encontrasse ou do meu estado civil e/ou emocional, tem sido sempre você a pessoa em quem eu confio pra qualquer emergência, pai. Em todas as agendas, em todos os formulários que já preenchi, tem sido sempre seu nome que eu tenho colocado no campo: Em caso de emergência, favor avisar a.
Eu tenho a sorte de ter uma cambada de gente porreta ao meu redor, e tenho certeza de que pelo menos uma dúzia delas saberia como proceder no caso de uma emergência acontecer comigo. Mas, ainda assim, tem sido sempre você a pessoa que eu acredito que merece ser avisada primeiro - porque você sempre sabe o que fazer. E essa segurança, esse chão firme, eu nunca encontrei em lugar nenhum. Em algum momento - e eu sei que esse momento se aproxima a passos largos e cambaleantes - eu terei que ser seu contato de emergência. E espero conseguir te dar pelo menos um pouco da firmeza e segurança que você tem me dado ao longo da vida. Feliz aniversário, pai.
sábado, 9 de março de 2013
Errejota
Todas as músicas e todos os clichês são poucos: sim, o Rio de Janeiro continua mesmo lindo, minha alma canta na cidade maravilhosa etc e tal. Já faz uma semana que brinco de turista por aqui, enquanto espero as aulas começarem. Carioca way of life.
Um amigo me disse que alguém já falou (teria sido Vinícius de Moraes? não lembro) que todo brasileiro deveria morar no Rio pelo menos uma vez. E agora eu entendo porque.
Como esperado, meu fantástico senso de direção vive me deixando na mão - ou, como diria um amigo, meu "nonsense" de direção. Já andei pelo Flamengo de cima abaixo, já me perdi n vezes, mas me encontrei depois. Tem nada, não. A melhor maneira de conhecer um lugar é mesmo se perdendo pelas suas ruas - inventei essa teoria anos atrás. A boa notícia é que aprendi a usar o Nokia Maps. A péssima notícia é que quando o celular descarrega fico ainda mais perdida. E tem sido quase sempre divertido. Não foi difícil rir de mim mesma quando um francês me ensinou que ônibus pegar, onde descer e por onde seguir da parada até meu destino. É que aqui nessa cidade linda eu sou mais estrangeira que qualquer um. Mas não foi nada engraçado me perder do Largo do Machado pra casa, á noite, sozinha e debaixo de chuva. Eu, meu guarda-chuva vermelho, minhas sandálias encharcadas e o bairro de Laranjeiras todinho pra mim. Tudo porque errei uma rua e segui na direção contrária. Mas quem tem boca vai a Roma ou a qualquer lugar, e eu tenho tido a sorte de encontrar pessoas receptivas ao meu piauiês cada vez mais carregado.
Doismilseiscentosetrês malditos quilômetros me separam de Teresina e dos meus amores, mas não posso negar que o errejota tem me tratado bem. Tem saudade, mas tem chamada por vídeo, tem telefone TIM que, quando tem sinal, liga baratim. Tem frio na barriga e no corpo todinho, mas tem também um calorão que não deixa nada a desejar ao Piauí. Tem amigos, tem encontros e reencontros, tem show do Barão e do The Cure. Tem aulas começando daqui a dois dias. Tem stress - tem que ter, né possível! Tem prazos a cumprir, tem textos a ler, tem discussões, tem tudo o que me move e me mantém viva.
São doismilseiscentosetrês infinitos quilômetros. Tem filho que adoece lá longe, mas tem a pediatra amiga que liga explicando que vai ficar tudo bem. Tem festa de aniversário do filho da amiga lá longe, mas tem o casal de amigos que levam os filhotes. Tem essa palavra enorme, talvez a maior da língua portuguesa: D I S T Â N C I A. Mas tem a certeza de que o que estava por vir já está acontecendo. E eu de fato preciso de bem pouco: tenho pra quem mandar SMS quando me perco, faço questão de ter a quem avisar quando eu finalmente consigo chegar em casa, e eu sei que, se um dia eu não chegar, alguém vai certamente dar pela minha falta. E isso de certa forma me basta.
Doismilseiscentosetrês malditos quilômetros me separam de Teresina e dos meus amores, mas não posso negar que o errejota tem me tratado bem. Tem saudade, mas tem chamada por vídeo, tem telefone TIM que, quando tem sinal, liga baratim. Tem frio na barriga e no corpo todinho, mas tem também um calorão que não deixa nada a desejar ao Piauí. Tem amigos, tem encontros e reencontros, tem show do Barão e do The Cure. Tem aulas começando daqui a dois dias. Tem stress - tem que ter, né possível! Tem prazos a cumprir, tem textos a ler, tem discussões, tem tudo o que me move e me mantém viva.
São doismilseiscentosetrês infinitos quilômetros. Tem filho que adoece lá longe, mas tem a pediatra amiga que liga explicando que vai ficar tudo bem. Tem festa de aniversário do filho da amiga lá longe, mas tem o casal de amigos que levam os filhotes. Tem essa palavra enorme, talvez a maior da língua portuguesa: D I S T Â N C I A. Mas tem a certeza de que o que estava por vir já está acontecendo. E eu de fato preciso de bem pouco: tenho pra quem mandar SMS quando me perco, faço questão de ter a quem avisar quando eu finalmente consigo chegar em casa, e eu sei que, se um dia eu não chegar, alguém vai certamente dar pela minha falta. E isso de certa forma me basta.
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Rebelião de amor
Antonio tem uma queda por uma menina da escola. Normal. Nessa idade sempre tem. Na época do Notre Dame era a Lis. Quando mudou pro Diocesano, reclamou por semanas a falta dela, mas de repente começou a falar muito em uma menina que atende, freudianamente, pelo apelido de Cacá. Mas no segundo semestre, Cacá mudou de turno, e Tonton ficou sem um objeto de paixão.
Pra sua surpresa e felicidade, nesse ano ele e Cacá estão novamente na mesma sala. Todo dia, ele tem uma coisa nova pra contar dela - como ela canta uma música engraçada, como a letra dela é liiinda e por aí vai.
Mas hoje ele se queixou, muito magoado, de que a Cacá disse que ele tem chulé. Eu disse que ele deveria dizer o mesmo sobre ela.
- Mas mãe, ela não tem chulé, não.
- Nem você, Antonio. Talvez ela tenha dito só como brincadeira, pra te provocar.
- Foi não, mãe. Ela até jogou meu tênis lá longe!
Nessa hora, Zé Luiz levanta os olhos da revistinha e sai com essa"
- Ô, Antonio, isso é rebelião de amor!
P.S.: Sim, mas por que mesmo Tonton tinha tirado os tênis? Porque queria que a Cacá fizesse massagem nos pés dele!
Pra sua surpresa e felicidade, nesse ano ele e Cacá estão novamente na mesma sala. Todo dia, ele tem uma coisa nova pra contar dela - como ela canta uma música engraçada, como a letra dela é liiinda e por aí vai.
Mas hoje ele se queixou, muito magoado, de que a Cacá disse que ele tem chulé. Eu disse que ele deveria dizer o mesmo sobre ela.
- Mas mãe, ela não tem chulé, não.
- Nem você, Antonio. Talvez ela tenha dito só como brincadeira, pra te provocar.
- Foi não, mãe. Ela até jogou meu tênis lá longe!
Nessa hora, Zé Luiz levanta os olhos da revistinha e sai com essa"
- Ô, Antonio, isso é rebelião de amor!
P.S.: Sim, mas por que mesmo Tonton tinha tirado os tênis? Porque queria que a Cacá fizesse massagem nos pés dele!
sábado, 19 de janeiro de 2013
Você tem medo de que?
A
conversa no carro outro dia era sobre medos. Tonton, que sempre foi destemido e
durão, anda com medo de dormir no escuro, o que tem causado atrito com Zé, que
só gosta de dormir no breu total. Zé argumentava: “mas Antonio, quando tu fecha
o olho tudo fica escuro mesmo! Pra quê ligar a luminária?” Ah, mas o medo é
algo irracional e Tonton só respondia que não sabia, que tinha medo e pronto e,
por ser tão reconhecidamente valente, se envergonhava de admitir o medo. Eu
intervinha dizendo que é normal ter medo, que aos seis anos a gente tem alguns
medos mesmo, mas que eles vão passando à medida que a gente cresce e etc e tal.
“Então quando a gente fica adulto não sente mais medo?”, Zé perguntou. Agora
danou-se, meu São Jorge! Antonio completa: “Tu não tem medo de nada, mãe?”
O
sinal abre, engato a marcha, o silêncio da mãe tagarela pesa.
[Tenho medo de não estar preparada
quando vocês precisam. Medo de faltar. Medo de exceder. Medo de perder o ponto.
Tenho medo de me perder na teimosia e no orgulho, na arrogância de achar que
tenho as respostas prontas. Tenho medo também de nunca achar as respostas.
Tenho medo das perguntas que não param de mudar. Tenho medo de perder a fé na
humanidade. Tenho medo de que os altos e baixos acabem me levando a mostrar pra
vocês uma imagem ruim do mundo. Tenho medo da arrogância de não reconhecer a
necessidade do outro. Tenho medo, mais ainda, de precisar do outro. Tenho medo
de não saber voltar atrás. Medo de nunca encontrar paz. Tenho medo da solidão.
Medo de não ter pra quem ligar quando me aperrear. Mais medo ainda tenho de
vocês se sentirem sós quando eu não bastar mais. Medo, muito medo de não ser
suficiente pra vocês. Medo do dia em que vocês não precisarem mais de mim. Medo
de não aceitar as impossibilidades, de dar murro em ponta de faca. Medo de
aceitar o mundo como se fosse assim mesmo. Medo de não achar a medida. Medo de
não encontrar serenidade. Medo também da apatia.]
-
MÃÃÃE, de quê tu tem medo?
-
Do engarrafamento aí na frente que vai fazer a gente demorar a chegar em casa e
daí vocês vão acabar dormindo dentro do carro e eu vou ter que carregar cada um
escada acima.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Pode vir quente, 2013
Eu não vou fingir que acredito que tudo será
lindo e novo e maravilhoso só porque em algum momento da história alguém
convencionou que um ano terminaria e outro começaria. Nem vou fazer de conta
que não estou morrrta de medo do ano que se inicia e do passo maior que a perna
que resolvi dar. Mas como boa pollyanna, sei que vou dar meus pulos e encontrar
meu jeito de colocar tudo no lugar. Aprendi faz tempo: é preciso perder o chão
pra ganhar asas.
Não
tem como terminar o ano sem lembrar do anterior, sem fazer um balanço. No noves
fora zero, 2012 foi produtivo e intenso. E valeu muito a pena. Teve choro,
desespero e certeza de não dar conta. Mas no final das contas, teve defesa de
dissertação aprovada com louvor. Teve comemoração com Paul McCarney, Chico
Buarque e Manu. Teve conversinha de amigas que não se viam há anos. Teve a CER-TE-ZA,
assim mesmo em letras garrafais, de que “não, nunca mais quero isso
pelamordedeus preciso respirar vou descansar quero sombra e água fresca”. Teve
mudança de ideia, teve um “quem sabe”, teve afinal a decisão de tentar. Teve
inúmeras viagens, teve provas, teve unhas roídas, teve apoio dos meus tão fieis
e pacientes amigos. Teve “ai, meu deus, cá estou eu de novo!”. Teve aprovação.
Teve a certeza ainda maior, substituindo aquela certeza antiga, de que estou no
caminho certo e de que a velocidade é essa, porque é a minha. 200 km/h na
tomada de 220 volts. Essa sou eu. Teve a felicidade de me ver cada vez mais
perto de ser quem eu quero ser.
Não
me iludo: esse não será um ano fácil. Mas será o ano em que continuo a me
transformar no que eu quero ser. O Rio me espera, o doutorado me chama, a
saudade vai ser de lascar, mas é bem por isso que eu vou fazer valer a pena.
Venha preparado, 2013, que eu tô com um quente e dois fervendo pra você. "Eu acho é pouco, eu quero é mais, se não aguenta por que veio?"
Feliz 2013!
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Tempo mano velho
O tempo é o cara em quem a gente deposita todas as nossas esperanças. É o depositário dos nossos sonhos - que a gente jura que se realizarão, e o guardião das chaves daquele baú onde as soluções de nossos problemas repousam adormecidas. Não sabe o que fazer? Dê tempo ao tempo. Outro dia, Tati Bernardi tuitou algo assim: "Coitado do tempo, sentadão na cadeira dele cheio de problemas pra resolver".
O fato, meus queridos, é que o tempo não resolve nada, coitado. Logo ele, tão atarefado em empurrar os ponteiros dos relógios para que as horas virem dias, os dias virem noites, que as estações se sucedam umas às outras, mesmo nesse lugar onde o calor é sempre o mesmo e nos envolve numa sensação de que nada muda.De fato, coitado do tempo, sempre responsabilizado por tudo.
Faz tempo que me dei conta de que o tempo sozinho não faz nada, e que o que transforma a gente é o uso que a gente faz do tempo. Ou não. Por que o tal do tempo tem uma mania besta de brincar com a gente, de fazer ele voltar sem que a gente perceba. E eu juro que eu penso em Einstein e sua teoria da relatividade quando um minuto qualquer se torna exatamente igual a outro minuto qualquer de uma década passada.
E eu que nem lembrava que hoje era dia de São Francisco, me deparei com várias mensagens a respeito nas redes sociais.Imediatamente, senti uma fisgada na boca do estômago, e meus olhos se encheram de lágrimas. O pensamento racional veio depois, pra dar sentido à ânsia de vômito que se seguiu. Foi num dia de São Francisco, há exatos 5 anos, que eu vi a procissão passando na avenida Frei Serafim, de dentro do carro. Tudo muito marrom e borrado - visão de olhos míopes onde as lentes se perderam de tanto boiar em lágrimas. Lembro da cantiga bonita enchendo tudo, do engarrafamento, do carro parado. E de pensar lá longe que eu nem queria que o carro andasse, que o tempo passasse, que a vida seguisse. Tonton tava no meu colo dormindo e eu nem articulava ainda um porquê pra tudo aquilo. Eu só olhava a procissão e pensava que eu queria que todas aquelas rezas, aquelas velas, aqueles marrons, aquelas pessoas, aquelas energias se voltassem pra ele. E eu tinha certeza que eu nunca ia ter força de sair daquele carro e enfrentar o monstro que nos esperava. Brincadeira ou sabedoria do tempo, o engarrafamento me deu o tempo de ver a procissão, de cantar com voz embargada a canção de São Francisco e de lembrar que coragem eu tenho de sobra. Desci do carro com Tonton nos braços e uma certeza louca de que era preciso ganhar tempo, correr contra o tempo, pra ganhar a batalha. Ganhamos. No final das contas, senhor tempo, fora esses sustinhos que o senhor me dá de vez em quando, dando loopings nos anos e retornando a pontos passados, eu tenho sempre te ganhado. Xeque mate!
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
"Tô sem saco de ficar falando meu histórico o tempo todo. Vou andar com um cv no bolso, quando começarem as mesmas perguntas, entrego e digo 'tó, estuda e depois a gente conversa'" Com seu humor especial, meu amigo me contava da impaciência de conhecer gente nova, da qual compartilho sem reservas.
Só com amigos antigos é possível uma conversa assim, em que a gente lembra de quando tínhamos 14 ou 15 anos e de todo o tempo que passou de lá pra cá. E a gente se reconhece igual em tanta coisa, mas mais forte e capaz em muitas outras.
Nessa vida doida de linda, mas também doída e exigente, é preciso ter esses espelhos onde a gente se vê: os amigos das antigas, os desde sempre, os que viram tudo começar, que viram a gente virar gente. É preciso o outro pra gente se reconhecer, às vezes.
Com meu amigo, compartilho a certeza de que estamos mais felizes hoje do que jamais fomos, como no nome daquele bar que ficava na Miguel Sady. "Nunca fomos tão felizes", embora estivéssemos ambos reclamando de um aspecto ou outro da vida que não caminhava como queríamos. Uma hora é o trabalho que tá sugando nossas forças, na outra um amor mal resolvido, a transferência que nunca sai, os pais que começam a envelhecer, o filho que adoece, as contas que não cessam de chegar e o salário que vem só uma vez por mês.
Já perdemos algumas ilusões a essa altura: não seremos rock stars nem artistas de cinema. Não daremos a volta ao mundo, morando cada ano em um país diferente. Não aprenderemos 300 línguas diferentes só pra dizer eu te amo em toda elas. Já concluímos que fazer bem feito entre o nascer e o pôr do sol já é extraordinário. Da nossa época, quem conseguiu emprego estável, salário razoável e uma família relativamente feliz já fez bastante.
Vai ver que é ai que mora o extraordinário, as estrelas com as quais sempre sonhamos: fazer tudo igualzinho, mas com o encanto de quem não conhece o caminho.
Só com amigos antigos é possível uma conversa assim, em que a gente lembra de quando tínhamos 14 ou 15 anos e de todo o tempo que passou de lá pra cá. E a gente se reconhece igual em tanta coisa, mas mais forte e capaz em muitas outras.
Nessa vida doida de linda, mas também doída e exigente, é preciso ter esses espelhos onde a gente se vê: os amigos das antigas, os desde sempre, os que viram tudo começar, que viram a gente virar gente. É preciso o outro pra gente se reconhecer, às vezes.
Com meu amigo, compartilho a certeza de que estamos mais felizes hoje do que jamais fomos, como no nome daquele bar que ficava na Miguel Sady. "Nunca fomos tão felizes", embora estivéssemos ambos reclamando de um aspecto ou outro da vida que não caminhava como queríamos. Uma hora é o trabalho que tá sugando nossas forças, na outra um amor mal resolvido, a transferência que nunca sai, os pais que começam a envelhecer, o filho que adoece, as contas que não cessam de chegar e o salário que vem só uma vez por mês.
Já perdemos algumas ilusões a essa altura: não seremos rock stars nem artistas de cinema. Não daremos a volta ao mundo, morando cada ano em um país diferente. Não aprenderemos 300 línguas diferentes só pra dizer eu te amo em toda elas. Já concluímos que fazer bem feito entre o nascer e o pôr do sol já é extraordinário. Da nossa época, quem conseguiu emprego estável, salário razoável e uma família relativamente feliz já fez bastante.
Vai ver que é ai que mora o extraordinário, as estrelas com as quais sempre sonhamos: fazer tudo igualzinho, mas com o encanto de quem não conhece o caminho.
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Pelo dia do amigo
Pessoas normais são boas em algumas coisas, péssimas em outras e excelentes em uma ou outra coisa. Pessoas como eu e você - regular, average people - dão conta de ser excelentes mesmo em pouquíssimas coisas. Nas outras coisas, a gente faz o básico, sem contar aquelas coisas em que somos mesmo muito, muito ruins. Ok, existem os geniozinhos que são bons em tudo o que se propõem a fazer, mas desses eu quero distância porque me causam uma inveja danada, e inveja é, sem dúvida, meu pecado preferido.
Mas daí que, das poucas coisas que eu faço muito bem na vida, uma delas é ser amiga. Sem falsa modéstia, eu sou muito boa amiga. E tenho os melhores amigos do mundo.
Tenho amigos que me acompanham desde que eu era criança e amigos recentes. Tenho amigos loucos e amigos caretas. Tenho amigos que me puxam a orelha e amigos que batem nas minhas costas de forma condescendente. Independente do estilo de cada um, tenho amigos que sabem ser amigos.
Amigo defende amigo, mesmo quando ele tá errado. A sós a gente briga, e diz pro amigo que absurdo ele ter agido daquela forma. Mas pro resto do mundo, ele tá certo, e eu defendo ele do colega de trabalho sacana, da língua maldosa do vizinho e até do Papa ou da Scotland Yard se for preciso. A isso se chama lealdade, coisa absolutamente necessária numa amizade. Se você não sabe vestir a camisa de alguém, desista: você jamais vai ser ou ter um amigo.
Então, meus amigos, que fique claro: por vocês não me jogo na frente do trem; eu paro o trem com as mãos, bato no maquinista e expulso os outros passageiros. Feliz dia do amigo pra vocês, amigos de sempre e de agora.
terça-feira, 19 de junho de 2012
Trilha sonora
Dizem que quando você morre, naqueles
segundos finais entre o viver e o morrer, o filme da sua vida passa na sua
cabeça. O cinema e a teledramaturgia já mostraram isso inúmeras vezes: amores, nascimentos dos filhos, grandes e pequenas vitórias rodados em Super8, com as cores amareladas pelo tempo.
Não, eu nunca estive perto de morrer, mas vi
o filme da minha vida, editado sem efeitos especiais, mas com as melhores e
piores cenas, no dia 22 de abril de 2012. Chico Buarque se apresentava no
Centro de Convenções de Recife, e eu, sentada ao lado da amiga de longas datas,
assistia quase sem respirar, como quem tem medo de perder o momento, como quem
tem medo de morrer bem ali, de tanta emoção.
As músicas do Chico foram, e são ainda,
trilha sonora de momentos especiais pra mim, momentos bons e momentos ruins.
Mesmo quando não havia música no ambiente, havia Chico cantando dentro de mim,
e há sempre Chico a embalar tudo o que há de bonito e marcante na minha vida.
Todo vestido de preto, ele entrou no palco
com seu caminhar de menino, com os braços meio pra trás, e abriu o show com O VelhoFrancisco, e eu, ainda
tímida, cantava “Hoje é dia de visita, vem aí meu grande amor”. Meu coração deu
pulos com os versos de De volta ao samba: “Acenda o refletor / apure o tamborim /
aqui é o meu lugar / eu vim”. Do disco novo, cantei a plenos pulmões: “Hoje
afinal conheci o amor / e era o amor uma obscura trama” e cantei também a urgência
de exibir o amor nos versos de Rubato: “mas só se for agora / venha ouvir sem
mais demora a nossa música / que estou roubando de outro compositor”.
Das antigas, Choro bandido, que já ouvi em seresta há tantos anos
atrás: “Mesmo que você fuja de mim / por labirintos e alçapões / saiba que os
poetas como os cegos podem ver na escuridão”.
Do disco novo, a primeira que me conquistou
foi Se eu soubesse, que fez meu coração fazer pom-pom-pom: “Mas acontece que eu sai por
aí e aí la-rá-ri lá-rá-rá”. Tipo um baião quase me fez levantar da cadeira pra melhor cantar os versos mais
coloridos que já ouvi: “É São João / vejo tremeluzir / seu vestido através / da
fogueira. / É carnaval / e seu vulto a sumir / entre mil abadas / na ladeira”.
Mas chorar, chorar mesmo, de cair lágrima,
só mesmo quando Chico cantou Todo sentimento, música que ficou conhecida na interpretação de Verônica Sabino, na
novela Vale Tudo, e que já foi tema de amor na minha vida também: “pretendo
descobrir / no último momento / um tempo que refaz o que desfez / que recolhe
todo sentimento / e bota no corpo uma outra vez”.
“O meu amor tem um jeito manso que é só
seu...” embalou um amor que só agora, com o benefício do tempo decorrido,
consigo ver pelo retrovisor como uma história bonita e delicada.
E aquela adrenalina de ligar pra alguém que
você nem sabe se ainda vai querer te atender, o coração batendo, as pernas
bambas quando se ouve a voz... Quem nunca? “Te ligo ofegante / e digo confusões
no gravador / É desconcertante / rever o grande amor”. Daria pra atualizar a
letra de Anos Dourados trocando ligação por SMS. (E, sim, eu acho que celular deveria ter
bafômetro.)
Não faz muito tempo eu enrubescia ouvindo
uma pessoa especial me dizer como ficava feliz ao me encontrar no trânsito, e
como torcia pelas coincidências das primeiras horas da manhã. Nesse momento,
que era pura delicadeza de dedos entrelaçados, Chico cantava ValsaBrasileira no meu coração:
“rodava as horas pra trás / roubava um pouquinho / e ajeitava o meu caminho /
pra encostar no teu”.
E quantas mil vezes na vida me vi tentando
explicar minha intensidade, meu comportamento colérico com os versos de Baioque?
“Quando eu amo / eu devoro / todo o meu coração / Eu odeio / eu adoro / numa
mesma oração”.
Assim, de verso em verso, vi
minha vida passar num filme, enquanto Chico cantava. Ao invés da morte, no fim
desse túnel, encontrei mais vida, mais amor, mais certeza de que quero muitos e
muitos outros momentos que serão embalados por essa trilha sonora.
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