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segunda-feira, 3 de maio de 2010

Tudo truncado

"EU SABIA! EU SABIA! AGORA VOU SER UM CAFAJESTE!" Era esse o texto da mensagem que recebi no celular hoje à tarde. Não conhecia o número e fiquei me perguntando se aquela mensagem não tinha errado de endereço. Daqui a pouco toca meu telefone - ligação do mesmo número. Era um amigo que há tempos não vejo, dizendo que tinha lido a coluna M³ do domingo e que tinha entendido que bom mesmo era ser cachorro com as mulheres. (Na verdade, ele só queria justificar o que sempre foi e usou minhas palavras e da Danda como argumento.) Claro que dei uma boa gargalhada da desfaçatez da figura. E lembrei que na sexta outro amigo dizia algo parecido.
Em volta da mesa na irmandade Orelha, meu amigo cabeludo dizia que a partir de agora ia usar uma máscara de cafajeste, pra assim atrair mais mulheres e se tornar o projeto de vida de uma. Quando ele tirasse a máscara de vadio e passasse a ser o que sempre foi - um fofo - ela acharia que tinha conseguido mudá-lo e passaria a amá-lo muito. Um plano torto desses só podia vir daquela mente criminosa alimentada diariamente com suco de caixinha. Mas tenho que falar que nesse dia ele tomava Coca-cola, algo muito, muito forte pra ele. E deve ter sido por isso que bolou um plano tão desengonçado. Pensando agora na figura, fico imaginando como ele poderia enganar alguém, com aquele olhar angelical e aquele jeito manso, com a fala compassada e a voz que nunca vi levantar.
Mas o que ficou claro mesmo é que não, os homens não entendem nada do que a gente diz. E pouco importa se vem impresso num jornal e eles podem ler e reler. De tão óbvia que estava a coluna desse domingo, ainda assim dois espécimes insistiram em entendê-la errado. E eu fico cada vez mais inclinada a aderir a tese daquele amigo - a da incomunicabilidade dos sexos.

domingo, 2 de maio de 2010

Para a primovisky

Ela, de quem eu tanto gosto, me disse estar tão triste nesse domingo. "Normal, domingo é pra isso mesmo", pensei - mas não disse. Ela que tem uma alegria explosiva tão parecida com a minha e que agora se acha na obrigação de estar sempre sorrindo, sempre bombando, sempre a mil. Ela, que eu bem sei que não está triste por ser domingo, mas que deixou acumular pra esse dia inútil e modorrento a tristeza não sentida de vários dias, e que agora re-aparece com juros.
O que eu quis te dizer, querida, é que a alegria não pode ser um dever, mesmo que sua busca o seja. Lembre-se: somos feitas da mesma matéria, a matéria das mulheres Mesquita. Fomos forjadas em concreto armado e sonhos, misturados a purpurina e música. E lá no meio dessa mistura, em alguns pontinhos pequenos, temos nossas zonas sombrias.
Eu sempre gostei de flertar com essas sombras, e sempre voltei melhor a cada vez. Por que você não experimenta se deitar encolhida num cantinho escuro da alma e chorar? As lágrimas deixam a pele mais bonita e nossos olhos passam a enxergar melhor depois que a gente se permite chorar.
Faz assim: deita numa rede macia, que é o lugar propício pra se chorar dor-de-cotovelo, bota a Canção da Tristeza da Dolores Duran pra tocar, e pensa em todas essas coisas que você vem evitando pensar, afrouxa tudo o que aperta pra vazar. E cutuca a ferida mais uma vez e mais outra e mais quantas forem necessárias até ela sangrar. E ouve tambem Luz Negra cantada pelo Cazuza: impossível se sentir mais miserável e infeliz.
Depois você levanta, toma um banho, vai trabalhar, vai pra rua, vai dançar, vai beijar na boca, sei lá! Sai como o Menino Maluquinho de dentro do quarto, em cima de um foguete. Mas vai leve, sem aquele peso que as pessoas que se negam a sofrer tem, sem aquele olhar rancoroso das pessoas que não sabem o valor de um lágrima.
Amanhã a gente bomba pelo mundo, querida. Hoje, permita-se sofrer. E divirta-se com o seu pranto.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Quem lê um conto...

Hoje eu li e reli o mesmo conto umas cinco ou seis vezes. Não era nenhum grande exemplo da literatura mundial, não era um García Marquez, não era um Machado. Mas era um conto que eu vivi, e que eu escrevi, e que gostei de vivê-lo e de destrinchá-lo em palavras.
Quem me conhece sabe: tenho mania de repetição. Às vezes leio o mesmo livro duas vezes seguidas. Sempre ouço as mesmas músicas repetidamente até que um dos meus filhos reclame que não aguenta mais. No tempo da fita cassete, eu gravava um lado inteiro com uma música pra ouvir sem parar. Agora coloco apenas o botão repeat. Há umas semanas ouvi sem parar a "maria-sem-vergonha" do Chico. Hoje ouvi "Menina Veneno" umas dez vezes (sim, sou eclética...).
Hoje li e reli o tal conto e a cada vez descobri palavras escondidas por mim nas entrelinhas. E senti saudades. Mas a falta que eu senti não foi de nada que tava lá escrito, nem de ninguém descrito, mas dos muitos dias em que escrevi aquele conto, daquela necessidade de falar sobre essa história (que não é de amor e ainda assim é linda). Senti saudades da tarefa que me impus de escrever pra tentar entender, pra catalogar, pra categorizar, pra dar nome aos bois, pra saber de que tipo de matéria foi feita, pra encerrar.
Sim, a lua tá cheia, amanhã é 28 de abril e eu estou nostálgica.

domingo, 25 de abril de 2010

Sobre a timidez

Quem me conhece, e até quem mal me vê, sabe que de tímida não tenho nada. Falo muito, alto e com o corpo todo. Gesticulo, me balanço, faço caras e boca. Provavelmente por isso, tenho um problema enorme com pessoas tímidas, que parecem não saber dizer a que vieram. Fico querendo adivinhar seus pensamentos, boto frases em suas bocas, dou opções do tipo a, b, c, d, N.R.A. pra ver se facilita, mas não consigo ficar muito tempo perto de alguém que não se mostra, e canso de tentar descobrir os códigos (o português já é tão difícil às vezes!).
Mas tem uma timidez que às vezes presencio e que mais raramente sinto, e da qual gosto muito. E na verdade adorei nas poucas vezes em que aconteceu comigo: a timidez de não saber se portar na frente de uma pessoa específica, ou de uma situação específica com uma pessoa.
Que coisa boa esse desconcerto!
Lembro de um convite, de um jantar, e de uns olhos verdes que mal abriam e mal conseguiam me encarar. Lembro de uma pele branca, que mostrava as veias, que de repente ficou vermelho-sangue. "I'm sorry I'm blushing" , ele disse. E lembro de ter sentido o rosto esquentar também. E lembro de ter ouvido pela primeira vez que pessoas morenas também ficam coradas. Lembro também de uma falta de ar e da delícia de se descobrir descoberta!
Mas lembranças tenho muitas. Lembro de um medo absurdo de não bastar, de não ser o suficiente, e de uma fisgada na boca do estômago que eu só sentia quando era adolescente. Lembro de uma insegurança que eu nem sabia mais existir, de um total desamparo que só parecia poder cessar com a firmeza da mão que segurava a minha. Lembro de andar como o Robocop olhando sempre pra frente e contando as lajotas no chão, pra ter com o que ocupar a mente.
Não, não existe nada mais lindo do que a timidez de se descobrir de alma nua na frente de alguém.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Se a vida lhe der uma limão...

Pois é, todo mundo sabe a história do limão e da limonada, pelo menos na teoria. Na prática, a teoria é difííícil de ser aplicada, com em quase tudo. Mas eu gosto de desafios. E por isso peguei meu pé de limão carregado (sim, eu sou intensa e exagerada e um limão só é pouco), duas garrafas de cachaça Lira, um montão de açúcar e gelo e balancei numa coqueteleira. E sacudi ao som de blues, de samba, de jazz, de Beatles. E quando terminou eu tinha a maior e mais gostosa caipirinha, que eu dividi com meus amigos. E a cada gole nós brindamos a felicidade de estarmos juntos. E no dia seguinte, pra curar a ressaca, eu juntei o sal de umas lágrimas que eu andei chorando, e com ele fiz uma aspirina efervescente. E minha dor de cabeça passou. Eu sou o McGiver, não sou?

segunda-feira, 19 de abril de 2010

"Que eu desorganizando posso me organizar"

Uma das coisas que eu mais gosto no mundo é de organizar. Pelo menos uma vez por semana organizo e re-organizo meu guarda-roupa. (Não à toa minha primeira e mais marcante providência rumo a uma nova identidade foi tomar conta de todo o guarda-roupa, do jeito que eu queria, ocupando cada espaço comigo mesma). Gosto de separar as roupas por cores, os sapatos por tipo, as calcinhas e soutiens por proposta de uso, as bolsas por tamanho.
Com meus livros sou ainda mais cri-cri. Teorias da Comunicação e do Jornalismo em uma prateleira; telejornalismo em outra, ao lado dos de cibercultura e webjornalismo; Análise do Discurso na prateleira de baixo (pouco usados) , línguas e dicionários numa prateleira sempre à mão. Os livros de antropologia e teoria feminista estão começando a surgir agora e já ganharam uma prateleira só pra eles. Os livros que estão sendo usados no semestre ficam na prateleira pertinho da escrivaninha.Os livros para o lazer ficam em outra estante, no quarto, e quase não tem sido tocados.
Organizar, separar, etiquetar, categorizar me poupam um tempo enorme no dia-a-dia, e me dão uma segurança que eu preciso pra estudar, pra trabalhar, pra produzir.
Mas o melhor de tudo é que antes de organizar sempre preciso desorganizar tudo, tirar tudo das prateleiras, deixar entrar ar pelo micro escritório, ventilar, arejar o guarda-roupa. Quando tiro tudo, descubro coisas das quais não preciso mais: trabalhos antigos de alunos que já estão formados, roupas que não uso mais, sapatos dos quais já cansei, xérox de textos que já não servem, bolsas que eu não preciso mais... E assim um monte de coisa vai pro lixo, vai pra doação, desocupa, desopila,. abre espaço pra coisas novas.
Aqui dentro tento fazer o mesmo: desorganizo, jogo tudo pra cima, espero pra ver o que cai e quebra, o que kicka e onde vai. E estou, aos pouquinhos, devagarzinho, deixando entrar ar em mim.

LATITUDE URGENTE

É preciso mexer no mecanismo dos ventos,
incendiar o medo,
colocar um rock-frevo no toca-discos.
Compor atmosfera nova,
sabotar o tempo,
parir temperatura leve, aquecida.
Diminuir a pressão em todas as altitudes,
diminuir a pressão de todas as atitudes.
Mas, sobretudo é preciso
soltar a fera de um novo amor.


Mário Pirata

domingo, 18 de abril de 2010

OUT

Não, meu coração não é maior que o mundo
É muito menor
Nele não cabem nem as minhas dores
Por isso gosto tanto de me contar
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso frequento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
(Drummond)

Eu preciso me gritar, preciso falar, preciso escrever, preciso expressar. Porque aqui dentro tá ficando apertado, e essa dor no estômago que eu sinto deve ser mesmo de tanta coisa que quer sair e eu não consigo dar vazão. Preciso me vomitar, me arrotar, me parir.
Preciso me contar, me dizer, me falar, esclarecer, clarissasser, ser-clarissa e deixar ser.
Preciso desesperadamente verbalizar, me mostrar, com palavras, com gestos, com aquelas músicas que eu canto bem alto enquanto dirijo e que tento pronunciar cada sílaba de cada palavra pra ver se assim eu consigo fazer com que tudo isso saia.
Porque tem uma população de sentimentos aqui, enlouquecendo dentro de mim, se reproduzindo, aumentando, brigando entre si. E haja Campari matador para diluí-los, e haja Carlton para evaporá-los, e haja dança para exorcizá-los, e haja ouvidos amigos para escutá-los.
Porque eu quero gritar muito e alto e sempre que eu continuo acreditando em um monte de coisa. E porque ontem eu cantei o mais alto que pude, tanto que estou sem voz, "all u need is love/love is all u need", porque eu tenho uma fé tão grande no amor que ainda tem quem tire onda de mim e me chame de menininnha romântica. (E eu sou mesmo, e daí, qual o problema? Mas também sei dizer palavrão cabeludo se precisar.)
E eu lembrei que houve uma época em que eu não gostava de Beatles, mas que tudo mudou, não porque os meninos de Liverpool mudaram, mas porque eu mudei - e daí eu cantei bem alto, o mais alto que pude "strawberry fields forever" que era pra eu lembrar que nem só strawberry fields são para sempre. E pra eu lembrar sempre e muito e toda hora e sentir em cada célula que eu acredito em para sempre, por mais "para sempres" que virem "para nunca" na minha vida.
E porque a cada passo da dança eu sei que eu estou mais perto um pouco de tirar tudo isso de dentro de mim, e que o que eu vou encontrar no final vai ser eu mesma, de novo, igualzinha, inteira, depurada, em minha essência.